A Fuerza Aérea Paraguaya busca modernizar-se para enfrentar as novas ameaças

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Pilotos do Grupo Aerotático posam para foto com a equipe de Tecnologia & Defesa na linha de voo da Base Aérea de Ñu Guasu. As viseiras baixadas são uma medida de segurança para não expor a identidade dos militares que podem se tornar alvos dos narcotraficantes

T&D acompanhou operações de policiamento do espaço aéreo voando AT-27 Tucano sobre o Chaco.

Kaiser David Konrad, de Assunção

Reportagem originalmente publicada em 2014 na versão impressa de Tecnologia & Defesa.

O Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi leva o nome do pioneiro e patrono da aviação paraguaia e sua entrada está situada numa das principais avenidas de Assunção, batizada de Aviadores del Chaco, em memória dos pilotos que lutaram contra a Bolívia e entraram para história militar do continente por terem realizado a primeira missão de bombardeio noturno e travado o primeiro combate aéreo das Américas . É na área do aeroporto que está localizada a Base Aérea Ñu Guasu (Campo Grande, em guarani), que abriga, entre outras, a 1ª Brigada Aérea da Força Aérea Paraguaia (FAP), que tem como Unidade de combate o Grupo Aerotático (GAT), a única unidade de caça da FAP. O GAT está dividido em três esquadrões,  respectivamente, 1º Escuadrón de Caza “Guarani”, que operou AT-26 Xavante; 2º Escuadrón de Caza “Índios”, que voou o AT-33; e o Escuadrón de Reconocimiento y Ataque “Moros”,  atualmente designado 3º Escuadrón de Caza, equipado com o AT-27 Tucano, e o único ainda em atividade.

Devido a questões orçamentárias, os AT-26 Xavante pararam de voar e acabaram sendo trocados com o Brasil por três Tucano. Os AT-33 iriam ser substituídos por aviões F-5 que Taiwan planejava doar ao país (como havia feito antes com os AT-33), mas o negócio acabou não sendo autorizado pelos Estados Unidos, o que fez com que seu esquadrão fosse desativado.

As dificuldades econômicas pioraram mais a situação da Força Aérea e as prioridades políticas de governos recentes foram colocadas em outras áreas – não menos importantes – o que provocou a “quebra das asas” da Aviação de Caça quanto à sua missão de defesa aeroespacial.

Nos últimos anos, o Paraguai viu o surgimento do Ejército del Pueblo Paraguayo, uma força  paramilitar e de protoguerrilha que vem amedrontando a população através de sequestros e atentados. Inspirado na guerrilha cubana e nas Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC), tem preocupado bastante os órgãos de segurança e desafiado as forças militares. Da mesma forma, o processo de modernização pelo qual passam as Forças Armadas Bolivianas, principalmente da sua aviação de combate, tem gerado desconfi ança aos olhos dos paraguaios. Soma-se a isso o constante uso do espaço aéreo nacional como corredor de voo para o tráfego ilícito de aeronaves, especialmente as dos narcotrafi cantes.

A “Lei do Tiro de Destruição”, do Brasil, e o incremento das medidas de policiamento do espaço aéreo da Argentina em suas fronteiras, têm feito com que aviões transportando drogas oriundos de ou para Brasil, Argentina e Bolívia optem por sobrevoar o território paraguaio. Todos esses fatores vêm preocupando o governo local.

Os problemas que o Paraguai enfrenta não só representam uma séria ameaça à segurança nacional como também têm reflexo direto na segurança interna do próprio país. Por isso, o Ministério da Defesa Nacional e o Alto-Comando da Força Aérea vêm conduzindo estudos e planejamento com a intenção de efetivar, até o fim do próximo ano, a aquisição de novas aeronaves de caça. Pelo menos U$ 270 milhões serão destinados para essa finalidade.

Segundo T&D apurou, a FAP recebeu ofertas do Brasil (EMB-314 Super Tucano); dos Estados Unidos (T-6 Texan II); da Coréia do Sul (KT-1); da República Tcheca (L-159 Alca); e da Rússia (YAK-130). Um detalhe importante e que seria condicionante é a possibilidade do país contar com financiamento externo, e no caso da abertura de uma linha de crédito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – outrora oferecida -, isso poderia pesar na escolha em favor do Super Tucano, da Embraer.

Se em termos materiais o Paraguai possui a mais deficiente das Forças Aéreas da região, o mesmo não pode ser dito em termos humanos, já que reúne um grupo de pilotos corajosos e motivados, muitos deles treinados em academias aéreas estrangeiras, sendo que vários se graduaram na Academia da Força Aérea, em Pirassununga (SP), ou tiveram a oportunidade de realizar o curso de piloto de caça, em Natal (RN). A aviação de caça da FAP tenta sobreviver e manter a operacionalidade dos seus pilotos unicamente com os seis EMB-312 Tucano, todos da versão de ataque e treinamento, mas, hoje, somente duas células estão em condições de voo. Espera-se para os próximos meses que todas estejam operacionais, e o apoio oficial brasileiro tem sido fundamental para interfacear os contatos com a Embraer.

A FAP está também analisando as propostas de empresas brasileiras com vistas à modernização da frota de AT-27, um processo que prevê a troca das asas, o reforço no trem de pouso e a instalação de um moderno glass cockpit, aumentando a vida útil em, pelo menos, mais quinze anos, fazendo do Tucano um moderno treinador para as tripulações das aeronaves da primeira linha da FAP, possibilitando a integração de um leque maior de armamentos – inclusive inteligentes – e fazendo dele uma plataforma econômica e eficaz para apoio aéreo aproximado, contra-insurgência e policiamento aéreo de fronteira.

LOS MOROS

Os Moros eram a mais guerreira das tribos guaranis e tinha por característica não deixar que nenhuma outra tribo adentrasse em seu território. Eles são o símbolo do 3º Esquadrão de Caça. A rotina da unidade é especialmente dedicada à formação de novos caçadores, realizando missões de tiro aéreo, emprego de armamento no estande de tiro de metralhadoras, foguetes e bombas, além das missões operacionais para as quais o esquadrão pode ser requisitado, que são escolta, ataques isolados e em elemento, interdição aérea, reconhecimento armado, interceptação e patrulha aérea de combate.

A história do Tucano na FAP começou em 1987 quando o governo decidiu reforçar a capacidade de combate do Grupo Aerotático com a aquisição de seis aviões novos. Foram fabricados especialmente para FAP na versão AT-27, à época um treinador avançado altamente manobrável capaz de cumprir uma variada gama de missões de combate, principalmente de ataque ao solo. Em 29 de dezembro do mesmo ano as aeronaves deixaram São José dos Campos (SP) rumo ao Paraguai. Desde sua incorporação eles já acumularam mais de 16 mil horas de voo em operação ininterrupta, e três foram perdidos em acidentes fatais.

Na linha de voo de Ñu Guasu um Tucano está permanentemente de sobreaviso no caso de acionamento para interceptação. O alerta de defesa aérea está dividido em “amarelo”, com 15 minutos para decolagem, e “vermelho”, com apenas cinco minutos. Entretanto, a defesa aérea é ainda uma tarefa incipiente, mas que vem ganhando importância com o aumento dos voos ilícitos. A FAP vem treinando para tais missões e tem recebido especial apoio na preparação dos pilotos e formação da doutrina operacional em exercícios conjuntos com as Forças Aéreas do Brasil (PARBRA) e da Argentina (ARPA). Pela carência de interceptadores de alta performance a atividade está focada no policiamento do espaço aéreo, visando as geralmente usadas pequenas aeronaves, pois os meios atuais não possibilitam persuadir ou forçar o pouso de outros aviões como jatos ou, hipoteticamente, combater (a essência da defesa aérea) aeronaves agressoras mais velozes, como as existentes em todos os países vizinhos.

O órgão responsável pelo controle e vigilância do espaço aéreo nacional chama-se Centro Integrado de Vigilância Aérea (CIVA). Em processo de modernização, deverá adquirir no próximo ano dois de um total de quatro radares tridimensionais de longo alcance capazes de cobrir todo o território. Ainda existe um vácuo com várias regiões sem cobertura radar, condição que vem sendo explorada pelos narcotraficantes. Recentemente, o CIVA recebeu dois radares Elta EL/M 2106 NG com capacidade de detecção de alvos a uma distância de 104 km e até 25 mil metros de altitude. Um foi instalado na própria Base Aérea para apoiar as operações, enquanto que o outro foi montado num caminhão adaptado como estação de comando e controle móvel. Este radar é frequentemente enviado às fronteiras em atividades de vigilância e rastreamento de alvos, e apoiar as operações fora de sede do 3º Esquadrão de Caça. A importância do sistema pode ser comprovada através da informação obtida de que, em todas as vezes que o veículo é visto saindo de Assunção, os olheiros do narcotráfico buscam saber o seu destino e avisar os pilotos sobre a vigilância radar em determinada zona, para assim interromper os voos ilegais enquanto durar a operação da Força Aérea.

VOLANDO CON LOS MOROS

Autorizada pelo próprio Presidente da República, Tecnologia & Defesa teve a oportunidade de voar nos AT-27 do GAT. Após a sirene de acionamento tocar os pilotos de alerta correram para as aeronaves que estavam armadas e abastecidas sob hangaretes na linha de voo. Eles portavam coletes com itens de sobrevivência e uma pistola para autoproteção no caso de terem que ejetar sobre uma zona com presença do EPP ou de narcotrafi cantes. Cada avião estava armado com dois casulos FN HMP com duas metralhadoras M3, de 12,7mm, com 250 projéteis cada.

Logo após a decolagem de Assunção as aeronaves, voando em elemento, rumaram para leste até cruzarem o Rio Paraguay, quando o controle de defesa aérea tendo contato radar com o alvo vetorou a interceptação de modo que o tráfego desconhecido não avistasse os interceptadores, o que veio a ocorrer sobre o Chaco Paraguayo. Posicionando-se atrás e abaixo da aeronave interceptada, cumprindo a medida de policiamento do espaço aéreo conhecida como “reconhecimento à distância”, o piloto de uma delas fez a identificação da matrícula da aeronave e repassou ao CIVA que confi rmou que não possuía plano de voo.

Enquanto um dos Tucano mantinha o acompanhamento discreto, a uma distância segura e em posição favorável para um possível engajamento, o líder se aproximou chegando na posição de interrogação à esquerda (linha 3/9 horas), ficando quase na ala, propositalmente visível ao piloto suspeito, momento em que mostrou uma placa com a frequência de rádio e iniciou a interrogação que foi feita usando fraseologia padrão nos idiomas espanhol e guarani. Depois de checar informações genéricas tais como procedência, destino, ocupantes, carga, e confirmando tratar-se de uma aeronave irregular ordenou uma mudança de rota para pouso obrigatório no aeródromo Silvio Pettirossi e posterior averiguação pelos órgãos de segurança competentes.

Durante a fase restante do voo, os caças mantiveram-se vigilantes acompanhando a aeronave até que finalmente realizasse o pouso, quando então arremeteram sobre a pista e realizaram um pilofe à direita, baixaram e travaram o trem de pouso e iniciaram a aproximação para aterrissagem. Durante o taxi de volta aos hangaretes, todos os oficiais aviadores do Grupo Aerotático já se encontravam reunidos à espera dos aviões, recepcionando a primeira equipe de jornalistas brasileiros a voar na unidade. Em uníssono e seguindo a tradição da aviação de caça eles gritaram “à la chasse! Bordel!”

É com essas e outras operações que a Força Aérea Paraguaia tem mantido vivo nos jovens pilotos o espírito dos heróis do Chaco. Enquanto exercita sua operacionalidade, aguarda ansiosamente as decisões técnicas e políticas que vão, finalmente, recuperar sua capacidade de combate. Mesmo sem condições de realizar sua missão constitucional com a plenitude necessária, prepara continuamente seus aviadores para um futuro que espera não esteja muito distante, quando estará equipada à altura das ambições estratégicas do país e da sua importância para manutenção da segurança regional, protegendo as fronteiras da nação, assegurando a paz e garantindo a soberania nacional nos céus do Paraguai.

Nota: Horas depois da missão de interceptação na qual Tecnologia & Defesa teve a oportunidade de voar, um canal de televisão do país mostrou imagens de aviões do narcotráfico se desfazendo da sua carga de drogas em voo. Segundo o que foi apurado, os narcotraficantes souberam que uma operação da Força Aérea estava em andamento e que aviões Tucano haviam sido vistos acompanhando uma aeronave até o pouso em Assunção. Sem saber que era um exercício, os pilotos ficaram temerosos de serem interceptados pela FAP e presos.

5 Comentários

  1. A primeira missão de combate aéreo, bem como a primeira de bombardeio noturno, das Américas, não teria ocorrido na Revolução Constitucionalista?

  2. Nao tem mais AT-27 pra fornecer pra eles. Todos que sobraram aqui no Brasil foram reunidos na AFA, e reaproveitados para utilização das peças. Resta a eles conseguirem encomendas do A-29 Que tá de bom tamanho pra eles.

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