O debate sobre autonomia estratégica brasileira na área de defesa costuma girar entre dois polos tradicionais: dependência tecnológica dos Estados Unidos e cooperação industrial com a Europa, porém existe um terceiro eixo que cresce silenciosamente e que pode representar uma das oportunidades mais relevantes nas próximas décadas, a indústria de defesa turca.
A Turquia deixou de ser apenas um cliente de sistemas estrangeiros para se tornar um produtor de tecnologia militar avançada, com capacidade própria em áreas críticas como drones de combate, veículos blindados, eletrônica embarcada e munições convencionais e inteligentes. E o mais importante, construiu esse parque industrial sob uma lógica de autonomia tecnológica e liberdade de exportação, exatamente o que o Brasil busca, mas raramente encontra.
A experiência turca é instrutiva, pois, nas últimas duas décadas, Ancara decidiu que depender de restrições externas em sistemas críticos era um risco estratégico. O resultado foi um programa sistemático de substituição de importações, desenvolvimento nacional de sensores, comunicações e sistemas de armas, fortalecimento de empresas privadas com apoio estatal e foco em exportações para sustentar escala industrial. Hoje, a Turquia não apenas equipa suas forças armadas com sistemas próprios, ela exporta para dezenas de países.
Para o Brasil, que há anos fala em “base industrial de defesa”, mas ainda convive com gargalos tecnológicos em componentes-chave, essa trajetória é um caso de sucesso prático, não teórico.

DRONES, BLINDADOS E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA
Empresas como a BAYKAR transformaram a Turquia em uma das referências globais em sistemas de aeronaves remotamente pilotadas (SARP), de reconhecimento ou combate. Seus sistemas não são apenas produtos de prateleira, são plataformas testadas em operações reais de combate, de custo relativamente baixo com arquitetura flexível e, crucialmente, sem o peso de regimes restritivos como o International Traffic in Arms Regulations (ITAR), dos Estados Unidos, e o Bundesamt für Wirtschaft und Ausfuhrkontrolle (BAFA), da Alemanha. Hoje a BAYKAR responde por 65% do mercado global de drones de ataque.
Para o Brasil, que precisa monitorar Amazônia, litoral, fronteiras e áreas marítimas extensas, a combinação entre persistência aérea, capacidade de ataque de precisão e custo operacional reduzido é estratégica, além de proporcionar um salto tecnológico.
No setor terrestre, empresas como a OTOKAR demonstram outro ponto forte da indústria turca com viaturas veículos blindados modernos e modulares, como o TULPAR, alvo de interesse do Exército Brasileiro. A empresa que já projetou diversos blindados (inclusive sendo a responsável pelo desenvolvimento do carro de combate ALTAY), já produziu mais de 30 mil blindados, para 60 usuários diferentes em 40 países, mostrando ser uma das líderes mundiais do setor.
Para o Brasil, que busca modernizar sua força blindada e manter produção local, a vantagem não é apenas o produto, é o modelo de cooperação possível, unindo fabricação sob licença, adaptação a requisitos nacionais, integração de sistemas brasileiros e participação da indústria local na cadeia de suprimentos, sem as restrições impostas por muitos países.
Diferentemente de parcerias onde a transferência tecnológica é limitada ou altamente condicionada, a Turquia, por possuir muito menos amarras políticas sobre o uso e reexportação do que fornecedores tradicionais, historicamente negocia com maior flexibilidade, porque seu próprio sucesso depende de codesenvolvimento e industrialização conjunta.
Para um país como o Brasil, isso impacta diretamente, e a necessidade de liberdade de integração com sistemas de diferentes origens, a possibilidade de exportar produtos com tecnologia compartilhada, a autonomia para modernizações futuras e a independência de decisões políticas externas trata-se de um requisito que passou a ser obrigatório.
Em defesa, o que limita não é só a capacidade técnica, é o que se pode ou não fazer com o equipamento depois de comprado, e nesse ponto, a Turquia oferece algo raro no mercado: tecnologia relevante com maior liberdade de uso, com ganhos tecnológicos reais, não simbólicos
Parcerias com a indústria turca não significam apenas adquirir sistemas, mas acesso a competências que o Brasil precisa desenvolver, como guerra eletrônica embarcada em plataformas táticas, integração de munições guiadas leves, sistemas de controle e enlace de dados para SARPs, blindagem modular e design de viaturas modernas e outras áreas estratégicas. Isso fortalece a base industrial brasileira e reduz dependências futuras.

PRAGMATISMO ESTRATÉGICO
A Turquia não substitui Estados Unidos ou os países da Europa, mas amplia o leque estratégico do Brasil, sendo que, em defesa, diversificação é sinônimo de soberania.
O Brasil precisa de parceiros que queiram produzir no país, aceitem integração com tecnologia nacional, não imponham restrições excessivas de uso e vejam cooperação como via de mão dupla. A indústria de defesa turca se encaixa nesse perfil e já possui um acordo de cooperação com o Brasil que permite isso.
Ignorar essa oportunidade por inércia diplomática ou apego a eixos tradicionais seria um erro estratégico, pois o mundo multipolar chegou à indústria de defesa. Falta o Brasil ajustar sua política de parcerias a essa nova realidade, porque, no fim, poder militar duradouro não se compra pronto, se constrói sozinho, com um custo temporal extremamente elevado (recurso que está ficando cada vez mais escarço) ou com quem aceita dividir tecnologia (e risco) de verdade.

Respostas de 9
A adoção do Tulpar pelo EB – independente se ele é superior ou não aos seus concorrentes – agregaria um fator estratégico muito importante para a defesa: autonomia e independência.
Embora os blindados alemães sejam reconhecidos por sua qualidade, as políticas restritivas dos alemães – que chegaram a afetar a exportação dos Guarani – deveriam ser levadas em consideração em uma disputa do Lynx contra o Tulpar.
Engraçado como as coisas mudam. Um carro de combate leve foi recusado pelo Exército na década de 80/90 (projeto que foi oferecido pra Engesa e posteriormente virou o Tanque Argentino Mediano)… Quatro décadas depois virou a regra!
Talvez se a Engesa tivesse aceitado o projeto e tivesse colocado os sensores, sistemas e tecnologias que o Osório recebeu (e a Argentina não colocou no TAM) o produto seria um novo conceito (para a época) que poderia ter vendido pra quem não precisava dos passados MBTs disponíveis. E possivelmente não teria falido tocando um mega projeto como o Osório totalmente sozinha!
O intenauta Vilmar poderia fazer a gentileza de informar sites ,onde posso pesquisar sobre a recusa do exército brasileiro em carro de combate leve nas décadas de 80/90, sobre o tanque argentino mediano e sobre a recusa da Engesa? Gostaria de aprender um pouco mais sobre isso tudo…
Excelente artigo. Sou totalmente a favor de uma parceria estratégica com os turcos no setor de defesa.na torcida pelo Tulpar e também pela drones de ataque turcos.
receber armamento da Otan é pedir pra levar fumo. o EB não aprende com casos vizinhos como o embargo as armamentos da Argentina no caso da guerra das malvinas. temos pessoal capacidato e corpo técnico que certamente consegue entregar qualquer coisa que as FFAA desejarem. só falta o dinheiro.
Creio que ele se referiu ao MBT Tamoyo III cujo projeto de 1987 da Bernardini(que faliu em 2001) para o EB (diferente do Osório da Engesa que era para exportação)com canhão de 105mm foi deixado de lado pelo EB.
Parabéns à Turquia e críticas ao Brasil. Somos um país gigante, espaço físico à vontade, matéria prima de toda espécie, um país sem vulcão, pouquíssimo problemas naturais, mão de obra aos montes, mas mesmo com todos esses benefícios , ainda “dependemos” de outros países, até mesmo países bem menores do que o Brasil. Uma vergonha…Lamentável..
Gostei muito dessa matéria.
O Brasil precisa se armar e desenvolver tecnologia própria em defesa a exemplo da Turquia.
Estrategicamente a Turquia seria um bom parceiro para o Brasil nessa área.
Interessante, a Turquia, requer todo esse aparato tecnológico, operacional de drones, força aérea e terrestre, aliás, é um dos países que faz fronteira com Afeganistão, Paquistão, ou seja, faz lógica, países em conflito, precisa se, ter um controle de equipamentos de ponta.