TigerEye – Uma ave pouco conhecida

O nariz chanfrado do RF-5E fica em evidência nesta foto de um Tigereye da Malásia. Foto Foto: arquivos de John Shupek, via Skytamer

Não muito conhecido ou lembrado e pouco produzido, o RF-5 TigerEye foi uma versão única e muito capaz de um caça supersônico que ainda é bastante popular, quase 55 anos depois do seu primeiro voo

Muito antes do “dogfight”, os balões foram os instrumentos que inauguraram o uso do espaço aéreo no campo de batalha. Não como plataforma de armas, mas para o reconhecimento, uma missão estratégica executada para conhecer as capacidades, vulnerabilidades e para estabelecer a melhor forma de se combater o inimigo. Dos balões, essa missão ganhou mais agilidade com a popularização dos aviões e o desenvolvimento de câmeras aéreas para essa finalidade a partir de 1910.

A partir dos anos 1960, auge da Guerra Fria e com a introdução de aviões mais velozes, altamente manobráveis, sistemas eletrônicos e mais capacidades de se contrapor às ameaças inimigas, incluindo mísseis para autoproteção, o uso de sistemas redundantes e novas soluções de engenharia, surgiu o reconhecimento tático que permitia a tripulação, a bordo do avião, entrar na profundidade do território adversário altamente protegido para extrair as informações de inteligência que só essa missão é capaz de produzir.

Primeiros e últimos no teatro de operações, os reconhecedores se tornaram parte central do ciclo decisório militar, coletando informações importantes que antecedem as manobras e trazendo os resultados após a ação.


N-156C

Com mais de 2.600 unidades produzidas e operado por 26 países, o F-5 está entre os caças mais bem-sucedidos da história. Até 2023 figurava entre os 10 aviões do tipo mais populares no mundo. Com tantos usuários, seria natural que o pequeno jato também cumprisse as missões de reconhecimento. O “Rec” com o F-5 começa em 1966 na Guerra do Vietnã, durante o Programa Skoshi, uma avaliação em combate de 12 caças modificados e designados F-5C para o projeto. 

A pedido da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), a Northrop instalou uma câmera panorâmica KA-60 com lente de 70 mm no nariz de um dos F-5C, para registrar a aproximação para o alvo e o lançamento de bombas durante um ataque. No entanto, como explicou o engenheiro de projeto do RF-5, Ronald Gibb, a ideia não deu certo. Assim que lançavam os armamentos, os pilotos manobravam bruscamente, impedindo a captura de imagens com qualidade. 

F-5C lançando bombas M117 de 750 libras. Primeira experiência de reconhecimento com o F-5 foi durante o Veitnã. Foto: USAF;
F-5C lançando bombas M117 de 750 libras. Primeira experiência de reconhecimento com o F-5 foi durante o Vietnã (Foto: USAF)

No mesmo ano a Northrop entregou à Real Força Aérea Canadense (RCAF) 25 narizes adaptados para receber câmeras, os chamados “Recce Nose”. Essas adaptações transformavam os CF-5A em plataformas de reconhecimento bem mais capazes que o primeiro experimento no Vietnã. O nariz continha quatro câmeras britânicas W. Vinten 547 com lentes de 1.75, 3 e 6 polegadas. Apesar da versatilidade, era trabalhoso trocar o componente comum para o “Recce Nose”. 

Em 1967, a Northrop iniciou o projeto formal do RF-5A, designado internamente como N-156C. O modelo fez seu primeiro voo em maio do ano seguinte e, como nas outras “versões” de reconhecimento, o RF-5A ainda tinha capacidade de combate plena, mantendo os dois canhões M39 de 20 mm, além da carga subalar. 

Diferentemente da versão da RCAF, o RF-5A recebeu quatro câmeras J. A. Maurer KS-92: uma oblíqua frontal, duas para fotos oblíquas laterais, e uma vertical, com lentes de 1,5, 3 e 6 polegadas. Cada KS-92 usava um magazine de filme de até 100 pés (33 metros), acessados rapidamente por especialistas por portas laterais. Após a missão, as imagens eram levadas aos técnicos que interpretavam o material, desenvolviam os relatórios de missão de reconhecimento e os entregavam aos oficiais superiores. 

RF-5A Freedom Fighter da Noruega. Foto: Mike Freer - Touchdown-aviation.
RF-5A Freedom Fighter da Noruega (Foto: Mike Freer – Touchdown-aviation)

Ao todo, 123 aviões foram entregues a países como Grécia (16), Noruega (16), Turquia (20 aviões mais 16 conversões) e Vietnã do Sul (9)

 

“RECCE NOSE” NO TIGER II

A entrada em serviço do F-5E Tiger II representou um avanço importante para o caça leve da Northrop. Mais potente, com maior alcance, melhor desempenho e agora equipado com radar, ainda que limitado, o novo modelo ampliava o envelope operacional. Ao mesmo tempo, a Guerra do Vietnã impunha desafios que influenciaram diretamente a evolução do reconhecimento tático.

Em 1972, a USAF pediu à Northrop a avaliação dos RF-5A operados pela Força Aérea do Vietnã do Sul. O avanço das tropas do Norte e o fortalecimento das defesas antiaéreas dificultavam a obtenção de imagens úteis. O pequeno jato supersônico precisava de sensores mais eficazes e maior flexibilidade de emprego.

Configuração do Recce Nose do F-5E, com quatro câmeras KS-121A. Via Brittmodeller.

A solução estudada previa a remoção do canhão M39 do lado direito para redistribuição de aviônicos e a instalação de duas câmeras panorâmicas KS-116, com lentes de 12 polegadas,   na baia dianteira, operando de forma sincronizada. O projeto não avançou por conta a Queda de Saigon, mas o arranjo interno desenvolvido serviria de base para o futuro RF-5E. Ficava claro também que o F-5A já não atendia às exigências do cenário moderno, fosse por desempenho ou pela obsolescência dos equipamentos fotográficos.


O NARIZ DE RECONHECIMENTO NO F-5E

Com base na experiência anterior, a Northrop adaptou o “Recce Nose” ao F-5E. O conjunto substituía o radar APQ-153 por quatro câmeras KS-121A da “Recon Optical”, com lentes de 1,5, 3 e 6 polegadas e magazines de 100 pés. O sistema foi empregado principalmente pela Força Aérea Real Saudita (RSAF), mas também foi adquirido pelo Brasil.

Em 1973, ao comprar o primeiro lote de 36 F-5E e seis F-5B pelo Programa Peace Amazon, a Força Aérea Brasileira (FAB) trouxe também seis narizes de reconhecimento. Conforme observado por Leandro Casella e Rudnei Cunha na obra Northrop F-5 no Brasil, as aeronaves de matrícula 4820 a 4831 receberam a cablagem necessária para operar o sistema.

A intenção do então Ministério da Aeronáutica era incorporar o reconhecimento às missões dos novos F-5, aeronaves de emprego tático e que complementavam os Mirage III de Anápolis na estrutura de defesa aérea. Na prática, porém, a doutrina não avançou. O “Recce Nose” foi empregado apenas uma vez, no FAB 4830 do 1º Grupo de Aviação de Caça, em um treinamento realizado em abril de 1976. Depois disso, o projeto foi abandonado e o destino dos equipamentos permanece desconhecido.

Apesar de ter comprado seis conjuntos, a FAB só usou o Recce Nose do F-5 uma vez em abril de 1976. Foto: Mário Roberto Vaz Carneiro – Revista Segurança & Defesa, via site Poder Aéreo.
Apesar de ter comprado seis conjuntos, a FAB só usou o Recce Nose do F-5 uma vez em abril de 1976 (Foto: Mário Roberto Vaz Carneiro, Revista Segurança & Defesa, via site Poder Aéreo)

O reconhecimento tático na FAB ficou restrito ao 1º/10º GAv, o Esquadrão Poker, primeiro com os AT-26 Xavante e depois com os AMX A-1, atualmente a única plataforma dedicada à missão e próxima da desativação.


TIGEREYE

O “Recce Nose” do F-5E representava um avanço considerável em relação ao modelo empregado no F-5A, chegando a oferecer até 150% mais capacidade em determinadas configurações, como relata Ronald Gibb. Ainda assim, o conjunto mostrava limitações para integrar sensores mais modernos. Além disso, estudos da Northrop indicaram que o uso de pods de reconhecimento não seria a solução ideal, sobretudo devido às vibrações e à instabilidade em voo.

Com base na experiência acumulada em versões anteriores e em cenários reais de conflito, a empresa decidiu avançar para uma variante dedicada de reconhecimento do Tiger II, capaz de operar com as mesmas câmeras do RF-4C Phantom II. A iniciativa ganhou força em 1974, quando a Força Aérea Helênica, operadora do RF-5A, lançou um requisito para um vetor de reconhecimento marítimo mais capaz que o “Freedom Fighter”, como era chamado o F-5A. Esse pedido, somado ao conhecimento prático adquirido desde 1966, moldou a configuração do que viria a ser o RF-5E.

O objetivo era claro: oferecer uma plataforma mais estável, com capacidade “stand-off” e maior flexibilidade em voo, permitindo capturar todas as imagens necessárias em um único passe e reduzindo a exposição ao risco. A Northrop estimava entregar cerca de 90% da capacidade do RF-4 a aproximadamente 40% do custo. Havia mercado potencial para substituir ao menos 100 RF-5A em operação, e a expectativa conservadora era vender 50 unidades do novo modelo, batizado oficialmente de RF-5E TigerEye.

Um RF-4 Phantom II da 117ª Ala de Reconhecimento Tático da USAF durante os primeiros dias da Operação Tempestade no Deserto. Foto: sargento Jeff Wright/USMC
Um RF-4 Phantom II da 117ª Ala de Reconhecimento Tático da USAF durante os primeiros dias da Operação Tempestade no Deserto (Foto: sargento Jeff Wright/USMC)

O primeiro obstáculo surgiu em 1976, com a chegada de Jimmy Carter à presidência dos Estados Unidos. A nova política externa, mais restritiva quanto à exportação de armamentos, afetou diretamente o programa. Ao mesmo tempo que cortou o financiamento de novos projetos, o Governo dos EUA ainda precisava dar carta branca. A Northrop precisou sustentar o desenvolvimento com recursos próprios.

Após dois anos de espera, a autorização finalmente veio. A empresa então modificou um F-5E alugado da USAF para servir como protótipo de demonstração. Tratava-se da aeronave 71-01420, o quarto F-5E de produção seriada. George Meyers realizou o primeiro voo do TigerEye, marcando o início da fase de testes e demonstrações do programa.

Curiosamente, o mesmo avião de demonstração foi adquirido pela Força Aérea Brasileira em 1988, tornando-se o atual FAB 4858, ainda em atividade. A aeronave chegou ao país no ano seguinte para compor a frota do Esquadrão Pampa (1º/14º GAv). Em março de 2005, o 4858 recebeu uma pintura comemorativa, criada pelo então major Sérgio Barros de Oliveira, celebrando os 58 anos do esquadrão. Também foi o último dos F-5E enviados para a modernização na Embraer, em 2008, retornando para a linha de voo em 2011. Já passou pelo esquadrão Pacau (1º/4º GAv), Jaguar (1º GDA), 1º Grupo de Aviação de Caça e hoje está voando pela mesma unidade onde foi operado inicialmente na década de 1980.


OS OLHOS DO TIGRE

As principais alterações do RF-5E concentraram-se no nariz. A nova seção frontal tinha 2,7 metros de comprimento total, 20,8 cm a mais que a do F-5E original, com volume interno de 26 pés cúbicos. Assim como no F-5F biposto, o canhão M39 do lado direito foi removido para liberar espaço aos aviônicos instalados na baia dianteira, já que o radar também foi retirado. O conjunto de reconhecimento era gerenciado pelo computador de missão A/A24Q PSCS, integrado ao sistema de navegação inercial Litton LN-33 e ao radar-altímetro APN-229.

O novo nariz, com formato em V, abrigava quatro estações capazes de receber, simultaneamente, até três câmeras e um sensor infravermelho, conforme a configuração escolhida. Segundo o piloto de testes Roy Martin, o desenho do nariz atuava como uma espécie de quilha, aumentando a estabilidade aerodinâmica, algo essencial em voos de reconhecimento de alta precisão.

Corte esquemático do RF-5E. Arte: Mike Badrocke Via Airwar.ru
Corte esquemático do RF-5E TigerEye (Arte: Mike Badrocke, via Airwar.ru)

A Northrop adotou um sistema modular por pallets, permitindo adaptar rapidamente o avião à missão. O conjunto era inserido pela parte inferior do nariz, por meio de uma porta articulada para o lado direito, e fixado à estrutura com quatro parafusos de grande porte. O acesso às câmeras era feito por seis laterais, facilitando a troca dos magazines de filme. O compartimento contava ainda com controle térmico completo, sistema de vácuo e ventilação para evitar o embaçamento das janelas.

Mesmo dedicado ao reconhecimento, o TigerEye mantinha capacidade de ofensiva e de  autodefesa, podendo empregar cargas subalares, mísseis AIM-9 Sidewinder nas pontas das asas e o canhão M39 remanescente. Para explorar toda essa flexibilidade, foram desenvolvidos três pallets básicos de missão para o RF-5E.


PALLETS

O Pallet 1 era usado para reconhecimento diurno e noturno em baixa e média altura. Reunia a câmera frontal oblíqua KS-87D, a panorâmica KA-95B para média altitude, a KA-56E para baixa altitude e o scanner infravermelho RS-710E. Para operar o sensor IR, o nariz recebia uma porta específica na última estação, que se abria em voo para captação das imagens. O RS-710E tinha grande sensibilidade, sendo capaz de identificar assinaturas térmicas no concreto até uma hora após a saída do objeto da área observada.

Por sua vez, o Pallet 1A era destinado ao mapeamento de combate, mantinha a mesma configuração básica do Pallet 1, substituindo o scanner infravermelho por uma segunda KS-87 instalada verticalmente na estação antes ocupada pelo RS-710E. Com a retirada do sensor IR, a porta articulada era trocada por uma janela adicional, procedimento realizado com rapidez pelas equipes de solo.

O Pallet 2 era empregado no reconhecimento diurno de baixa a grande altitude. O sistema preservava a KS-87D frontal oblíqua e a KA-56E para média altura, incorporando a KA-93 panorâmica de grande altitude, mais adequada para fotografias acima de 20 mil pés. 

Pallet 2 após ser carregado no RF-5E da RMAF. Foto via Brittmodeller.
Pallet 2 após ser carregado no RF-5E da RMAF (Foto: Brittmodeller)

Por fim, o Pallet 3 foi desenvolvido posteriormente a pedido da RSAF e acrescentava capacidade de fotografia oblíqua de longo alcance (LOROP). Para isso, a câmera KS-146 usada no RF-4EJ foi adaptada ao RF-5E e redesignada KS-147A. Equipada com lente de 66 polegadas e abertura f/5.6, podia registrar alvos a quase 80 quilômetros de distância, mantendo boa resolução.

Era o conjunto mais pesado e complexo do TigerEye, superando 340 quilos e alterando consideravelmente o centro de gravidade da aeronave, exigindo atenção do piloto na decolagem e no pouso. O Pallet 3 ocupava todo o nariz, incluindo a estação frontal, que deixava de abrigar a KS-87 oblíqua para receber os componentes eletrônicos da KS-147A. A porta em V também foi modificada, passando a contar com apenas duas janelas maiores e espelhadas na estação três.

O cockpit do F-5E também recebeu modificações para operação dos novos sensores. Na linha dos olhos do piloto, à altura do visor de tiro, foi instalada caixa de controle das câmeras, acompanhada de um display que indicava tempo, rumo e velocidade. No painel lateral esquerdo, foi instalado novo console destinado à configuração de parâmetros como velocidade e altitude de operação das câmeras. Já o antigo mostrador do radar, localizado no centro do painel principal, deu lugar a um visor de vídeo em formato vertical, permitindo ao piloto acompanhar em tempo real o que estava diretamente abaixo da aeronave.

Os pallets eram carregados por baixo do nariz do RF-5, com o mesmo macaco hidráulico usado para carregar bombas e outros materiais. Imagem: Northrop via Peninsula Seniors.
Os pallets eram carregados por baixo do nariz do RF-5, com o mesmo macaco hidráulico usado para carregar bombas e outros materiais (Foto: Northrop, via Peninsula Seniors)

Externamente, o TigerEye recebeu o contrapeso na cauda e os estabilizadores horizontais do F-5F biposto, solução que ajudou a mitigar alterações de peso e manter o equilíbrio aerodinâmico do conjunto.


TESTANDO E VENDENDO

A Base Aérea de Edwards, tradicional centro de testes em voo da USAF, foi o palco principal para os ensaios e demonstrações do TigerEye. Entre 1979 e 1981 foram realizados 104 voos de apresentação para pilotos de 19 países, entre eles Portugal, Jordânia, Tailândia, Tunísia e a antiga Iugoslávia. A Northrop estruturou um perfil de missão padronizado para que os convidados pudessem avaliar o seu desempenho sobre terrenos variados, do deserto às áreas montanhosas.

Grande parte desses pilotos já operava o F-5 em suas forças aéreas. Quando esse não era o caso, o aviador passava por um período de adaptação e treinamento na Base Aérea de Williams antes de assumir os comandos do RF-5E.

A Northrop promoveu demonstrações no exterior e exibiu o TigerEye em eventos de grande visibilidade, incluindo o encerramento dos Jogos Olímpicos de 1984. Ainda assim, os atrasos provocados pelas restrições impostas durante o governo Carter cobraram seu preço. Ao mesmo tempo em que os orçamentos de defesa de potenciais clientes encolhiam, o valor do RF-5E, cerca de 50% superior ao do F-5E, dificultava a venda do modelo. 

Royal Malaysian Air Force RF-5E M29-20 and F-20A 82-0062 in formation, circa 1983

O primeiro contrato surgiu pouco depois do voo inaugural. Em dezembro de 1980, a Real Força Aérea da Malásia (RMAF) adquiriu duas aeronaves, cujo roll-out e primeiro voo de produção ocorreram em 1982. Antes da entrega, os exemplares malaios passaram por uma série de avaliações na Base de Eglin, na Flórida, onde se analisou o impacto da umidade nos sistemas fotográficos.

Em 1985, a Arábia Saudita tornou-se o segundo e último cliente do TigerEye de produção, ao encomendar dez aeronaves. O pacote incluiu o desenvolvimento do Pallet 3 com capacidade LOROP e testes com sonda de reabastecimento em voo. Além do sistema de reconhecimento de longo alcance, os sauditas adquiriram shelters móveis para processamento de filmes, que podiam ser transportados por cargueiros C-130 Hercules, garantindo autonomia em atividades fora de sede.

A RMAF foi a primeira cliente do Tigereye ao adquirir duas aeronaves no início dos anos 1980. Foto: USAF.
A RMAF foi a primeira cliente do TigerEye ao adquirir duas aeronaves no início dos anos 1980 (Foto: USAF)

TEMPESTADE NO DESERTO

O TigerEye demonstrou plenamente seu valor durante a Operação Tempestade no Deserto, quando os Estados Unidos e países da coalizão enfrentaram o Iraque após a invasão do Kuwait.

Segundo relato de Ronald Gibb, assim que os poços de petróleo foram incendiados por ordem de Saddam Hussein, as missões de reconhecimento em grande altitude tornaram-se impraticáveis. A densa fumaça formou um vasto manto negro sobre o território, dificultando o emprego de vetores estratégicos como o Lockheed U-2, o Lockheed SR-71 Blackbird e até mesmo a obtenção de imagens por satélite.

Diante da necessidade urgente de informações atualizadas sobre as posições iraquianas, o comandante da coalizão, o general Norman Schwarzkopf Jr., requisitou os RF-5E TigerEye da Arábia Saudita que operaram com o Pallet 3 registrando alvos entre as colunas de incêndio.


Entre janeiro e julho de 1991, os TigerEye realizaram 397 voos de reconhecimento tático. Apenas sete missões foram canceladas e nove abortadas por problemas técnicos com a câmera, um índice que atestou a confiabilidade do conjunto em condições extremas.

Postos em serviço ainda nos 1970, os F-5E/F e RF-5E da RSAF foram aposentados em meados de 2010. Em 2015, Riade colocou 79 aviões à venda.


SINGAPURA

Apesar das qualidades operacionais e do custo relativamente baixo, apenas 12 RF-5E foram produzidos nos Estados Unidos. O TigerEye esteve entre os últimos F-5 a deixar a linha de montagem da Northrop em Palmdale, cuja produção foi encerrada em 1987.

Ainda assim, a história não termina ali.

Em 1993, a Força Aérea da República de Singapura adquiriu os direitos de produção do TigerEye, além de ferramental, equipamentos de apoio e materiais remanescentes nas instalações da Northrop. Para substituir os veteranos Hawker Hunter FR.74S, a ST Aerospace converteu oito F-5E em RF-5E, restaurando a capacidade de reconhecimento tático com o novo padrão. As aeronaves passaram a operar no 144 Squadron, baseado em Paya Lebar, unidade que concentrava toda a frota de F-5 da RSAF. Mais tarde, os TigerEye foram modernizados com o restante da frota, recebendo a designação RF-5S. Os Tigres singapurenses foram operados até setembro de 2015, dando lugar aos F-15SG e F-16C/D.

Esquema da conversão realizada nos F-5E de Taiwan e Singapura. Imagem: ST Aerospace.
Esquema da conversão realizada nos F-5E de Taiwan e Singapura (Imagem: ST Aerospace)
Singapura converteu oito de seus F-5E para RF-5E Tigereye. Foto: Força Aérea Singapurense/Divulgação.
Singapura converteu oito de seus F-5E para RF-5E TigerEye (Foto: Força Aérea Singapurense/Divulgação)


TIGERGAZER E O ÚLTIMO CLIQUE

A Força Aérea da República da China (ROCAF) figura entre os maiores operadores do F-5, com mais de 300 exemplares apenas de aviões F-5E/F produzidos localmente. No entanto, a variante de reconhecimento só chegaria a Taiwan no fim da década de 1990, por intermédio de Singapura.

Até então, a missão estava a cargo dos RF-104G Stargazer”, empregados em voos de reconhecimento contra a China continental. No âmbito do Projeto Shih An, Taiwan desenvolveu uma configuração com capacidade LOROP, instalando uma câmera do tipo no nariz do F-104. A elevada performance do caça permitia missões a 60 mil pés, mas o desgaste da frota acabou impondo a aposentadoria do modelo.

Para manter a capacidade de coleta de informações estratégicas, a ROCAF enviou, em 1997, sete F-5E a Singapura, onde foram convertidos em RF-5E, designados localmente como Tigergazer. Com a introdução de aeronaves mais modernas, como o Mirage 2000, o F-16 Fighting Falcon e o F-CK-1 Ching-Kuo, o F-5 passou gradualmente a exercer papel secundário na defesa aérea taiwanesa, embora ainda representasse parcela significativa da frota.

Um dos maiores operadores do F-5, Taiwan converteu sete aviões, batizados como Tigergazer. Aeronaves foram aposentadas em 2025. Foto: Ministério da Defesa de Taiwan.
Um dos maiores operadores do F-5, Taiwan converteu sete aviões, batizados como Tigergazer. Aeronaves foram aposentadas em 2025 (Foto: Ministério da Defesa de Taiwan)

Diferentemente de outros operadores, Taiwan não promoveu grandes programas de modernização em seus Tiger II. Em 2024 ocorreu a baixa dos F-5E, e em julho de 2025 foram aposentados os F-5F e os RF-5E Tigergazer remanescentes, em cerimônia realizada na Base Aérea de Hualien. Com a baixa dos RF-5E Tigergazer, o reconhecimento tático da ROCAF passou a ser realizado por caças F-16 equipados com o pod MS-110 “Multispectral Airborne Reconnaissance System”, da RTX. 

O evento marcou não apenas o encerramento da era F-5 em Taiwan, mas também o fim definitivo do TigerEye.

Ao longo de sua trajetória, do desenvolvimento nos Estados Unidos às operações no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, o RF-5E consolidou-se como uma solução engenhosa e versátil para o reconhecimento tático. Conforme declarado por Ronald Gibb, o TigerEye foi o último avião de combate que os Estados Unidos adaptaram para a função e, simbolicamente, a derradeira plataforma produzida para empregar câmeras fotográficas com filme como principal meio de coleta de imagens, encerrando uma era na história da aviação militar.

Mesmo com números modestos, o TigerEye permanece como capítulo singular na evolução do reconhecimento aéreo, desempenhando uma missão fundamental para o emprego eficaz dos meios de combate. Apesar de esquecido, o reconhecimento tático acontece antes mesmo do início de um conflito, e é com ele que a guerra termina.

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