A história da guerra sempre esteve ligada ao desejo humano de projetar poder à distância, reduzindo a exposição direta do combatente ao perigo mortal. Desde Talos, o gigante de bronze forjado por Hefesto para patrulhar as costas de Creta, passando pelo Golem de Praga do folclore judaico e pela Maschinenmensch de Metropolis, a humanidade alimenta um fascínio ambíguo: a admiração pela engenhosidade técnica e o temor diante da matéria inanimada dotada de movimento e propósito bélico. O que antes era mito ou ficção científica hoje se materializa em protocolos operacionais e linhas de código. A profecia tornou-se política de Estado.
No século XXI, três eixos concentram o poder transformador da guerra: a robótica autônoma, a inteligência artificial generativa e a computação quântica. A robótica já não é apenas espetáculo de laboratório ou demonstração futurista em feiras tecnológicas. Empresas como a Boston Dynamics afirmam que não armarão suas máquinas, mas essa promessa soa cada vez mais frágil diante da pressão de uma corrida armamentista global que dissolve fronteiras entre o civil e o militar. O humanoide autônomo, capaz de operar em ambientes complexos, substituir soldados em missões de alto risco e executar tarefas com precisão implacável, emerge como o novo vetor de dissuasão, redefinindo o conceito de multiplicação de força.
A inteligência artificial generativa deixou de ser mera ferramenta de análise e hoje cria cenários, propõe estratégias e decide, em frações de segundo, o destino de operações inteiras. É a guerra algorítmica, em que códigos não apenas interpretam dados, mas comandam batalhas, transformando linhas de programação em armas invisíveis e decisivas. A computação quântica completa esse tripé ao ameaçar a espinha dorsal da segurança global: a criptografia. O chamado “Dia Q”, quando computadores quânticos poderão quebrar segredos de Estado e sistemas financeiros, não é ficção distante, mas horizonte palpável. Nesse futuro iminente, quem dominar a quântica terá não apenas vantagem militar, mas controle sobre a infraestrutura vital das nações.
Enquanto isso, a robótica quadrúpede já se mostra adaptada ao combate urbano, como nos exercícios da chinesa Unitree Robotics com cães-robô armados. No Ocidente, a Ghost Robotics avança com plataformas militares, mas o verdadeiro salto estratégico está na robótica humanoide, que promete substituir o operador humano em tarefas que exigem força, persistência e ausência de hesitação moral.
Esse conjunto de tecnologias não representa apenas evolução técnica, mas uma revolução estratégica que redefine soberania, poder e segurança. Para países como o Brasil, que ainda oscilam entre discursos e judicializações, a mensagem é clara: ou se investe de forma consistente em inovações disruptivas, ou vamos perder mais uma oportunidade de nos aproximar da fronteira tecnológica e ampliar nosso poder relativo.
É nesse contexto que o Brasil se encontra em uma encruzilhada crítica. O país possui centros de excelência como o ITA, o IME e o Centro Tecnológico da Marinha, instituições capazes de produzir conhecimento e inovação de ponta. No entanto, essa competência esbarra em um problema estrutural que se repete há décadas: a falta de orçamento consistente para que militares e institutos de ciência e tecnologia civis realizem pesquisa e desenvolvimento próximo da fronteira tecnológica. A maior parte da verba é absorvida por despesas de pessoal, restando apenas uma fração para investimentos em inovação disruptiva, justamente o que poderia garantir soberania e competitividade internacional.
Essa fragilidade orçamentária é agravada por uma característica crônica da política nacional: a tendência de recorrer ao Judiciário como instância de solução para tudo. A judicialização, que deveria ser exceção, tornou-se regra e ocupa o espaço que deveria ser preenchido por políticas de Estado sólidas e contínuas. Em vez de priorizar ciência, tecnologia e inovação, o Brasil paralisa projetos estratégicos em disputas jurídicas intermináveis, transformando decisões técnicas em batalhas judiciais que drenam tempo e energia.
O resultado é um atraso institucional que compromete o futuro. Enquanto outros países avançam em programas nacionais de robótica humanoide, inteligência artificial generativa e computação quântica, aqui se perde tempo em litígios sobre contratos, licitações e regulações. O Brasil, que poderia buscar a vanguarda, acaba refém de sua própria burocracia e da incapacidade de alinhar orçamento, estratégia e visão de longo prazo.
Ainda há uma janela de oportunidade, mas ela se estreita a cada ano. Se o governo brasileiro não assumir o protagonismo tecnológico, fortalecendo seus centros de excelência e garantindo recursos para pesquisa disruptiva, o país corre o risco de assistir ao futuro armado com ferramentas do passado. A obsolescência tecnológica não será apenas atraso técnico, significará irrelevância global.
A guerra do futuro poderá ser travada por humanoides autônomos, algoritmos generativos e computadores quânticos, e quem não dominar essas frentes estará condenado à dependência estratégica. O Brasil possui capital humano e industrial, mas sem gestão política de alto nível, sem prioridade orçamentária e sem continuidade de projetos, corre riscos sem igual. É urgente que o governo assuma o protagonismo tecnológico, fortaleça seus centros de excelência e transforme promessas em políticas de Estado. O tempo é curto e o futuro não espera.
Essa urgência não é apenas fruto de cálculos pragmáticos, mas também ecoa um desejo ancestral: desde Talos, o Golem e a Maschinenmensch, a humanidade sonha com guardiões incansáveis capazes de proteger e lutar em seu lugar. Hoje, esses símbolos já não pertencem ao mito ou à ficção, tornaram-se realidade. Se o Brasil não agir, veremos nossos soldados enfrentando as guerras do amanhã com armas obsoletas, enquanto outros países comandarão humanoides autônomos implacáveis.
O impacto em nossa soberania será inevitável: ou produzimos as armas do futuro, ou seremos aniquilados pela insistência em carregar as armas do passado.
*Luis Manuel Costa Mendez é mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança e Especialista em Altos Estudos de Política e Estratégia