Em função do demonstrado esforço do Exército Brasileiro (EB) em aumentar o nível de nacionalização de seus armamentos, a Diretoria de Fabricação (DF) vem respondendo com diversos programas, onde destacamos o Projeto de Fabricação Nacional de Obuseiro 105mm AR.
T&D conversou com o general de divisão Tales Eduardo Areco Villela, diretor de Fabricação do Exército, sobre esse e outros programas.

Tecnologia & Defesa – O senhor poderia comentar um pouco sobre a história da produção de Materiais de Emprego Militar pelos Arsenais de Guerra?
General Tales Villela – Os Arsenais de Guerra do Exército Brasileiro têm origem colonial e se consolidaram ao longo dos séculos XIX e XX como polos de manutenção e fabricação de Sistemas e Materiais de Emprego Militar (SMEM).
Historicamente, os Arsenais de Guerra prestaram serviços para todas as Forças, apoiando desde armamento leve a sistemas mais complexos, e foram parte central da construção da Base Industrial de Defesa.
Nas últimas décadas, os Arsenais de Guerra têm como objetivo fabricar, revitalizar, manutenir, modernizar e nacionalizar diversos SMEM, como a família de morteiros (60, 81 e 120mm), materiais de engenharia (portadas, passadeiras e redes de camuflagem), materiais de Comunicações, equipamentos de visão noturna dentre outros materiais, com foco sempre em ampliar as capacidades em ciência e tecnologia, garantindo, assim, a soberania nacional do presente e do futuro.
T&D – Como e quando surgiu o Projeto de Fabricação de um obuseiro de 105mm nacional?
Gen Tales Villela – Durante o ano de 2023, o Coronel Juacy, então diretor do Arsenal de Guerra do Rio (AGR), Organização Militar Diretamente Subordinada (OMDS) à Diretoria de Fabricação (DF), apresentou uma Memória de Apoio à Decisão abordando as linhas de ação para fabricação nacional de obuseiros, por meio da obtenção de licença. Esse documento constitui o embrião mais recente do atual Projeto de Fabricação Nacional de Obuseiro, servindo de base para o desenvolvimento das análises e estudos subsequentes.
Ao longo dos anos de 2023 e 2024, foram realizadas reuniões com as empresas BAE Systems e Leonardo, apresentando a ideia de fabricação nacional dos obuseiros. No contexto dessas tratativas, as referidas empresas realizaram visitas aos Arsenais de Guerra, ocasião em que puderam conhecer de perto as capacidades instaladas e o elevado nível técnico do AGR e do Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP).
No AGR, foi possível demonstrar às empresas a capacidade técnica para fabricação de armamentos pesados, com destaque para a produção de morteiros e para a capacidade de executar o raiamento de tubos. No AGSP, por sua vez, evidenciou a expertise na revitalização de obuseiros, com especial ênfase para o processo de nacionalização de mais de mil componentes dos obuseiros Light Gun e OTO Melara.
A partir dessa percepção positiva acerca do “know-how” e da infraestrutura dos Arsenais de Guerra, tanto a BAE Systems quanto a Leonardo consideraram viável um projeto voltado à fabricação nacional de obuseiros, em conformidade com os padrões de qualidade e exigências do Exército Brasileiro.
Posteriormente, em agosto de 2024, o Exército Brasileiro lançou uma Consulta Pública contendo um RFI/RFQ (“Request for Information/Request for Quotation” – Solicitação de Informação/Solicitação de Cotação) para sondar fornecedores sobre fornecimento mínimo de 54 obuseiros 105mm autorrebocados, visando à substituição dos materiais atualmente empregados nas Brigadas de Infantaria Motorizada, Leve e de Selva.
Com base nos dados obtidos no RFI/RFQ, a Diretoria de Fabricação visualizou a possibilidade de prosseguir nas tratativas para fabricação nacional de um obuseiro 105mm, com o objetivo de desenvolver autonomia tecnológica nacional no segmento de Sistemas de Artilharia de Campanha, bem como dominar os processos críticos de engenharia.
Como consequência, em 9 junho de 2025, foi publicada a Portaria EME/CEx nº 1.549, aprovando a Diretriz de Iniciação do Projeto de Fabricação Nacional do Obuseiro 105mm AR, incluindo esse projeto no Subprograma Sistema de Artilharia de Campanha do Programa Estratégico do Exército ASTROS.
T&D – Quais as vantagens de se produzir esse sistema de armas?
Gen Tales Villela – Diversas vantagens podem ser destacadas. O atual cenário geopolítico mundial, marcado por conflitos de alta intensidade e pela crescente competição entre potências mundiais, tem provocado forte pressão sobre as cadeias globais de suprimento. Nesses casos, observa-se que a produção e o fornecimento de componentes e peças de reposição passam a ser priorizados quase que exclusivamente para os países diretamente envolvidos nesses conflitos, reduzindo significativamente a oferta de suprimentos para outras nações. Esse contexto evidencia a vulnerabilidade decorrente da dependência de fornecedores estrangeiros e reforça a necessidade de promover a autonomia industrial nacional.
Nesse sentido, a fabricação nacional de obuseiros poderá trazer expressivos benefícios, ao fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID), gerando ganhos operacionais e logísticos, incrementando a independência tecnológica e ampliando a soberania operacional no campo da artilharia. Além disso, contribuirá para o aumento da capacidade e da autonomia de fabricação, criando condições favoráveis ao desenvolvimento de projetos futuros mais complexos, como a concepção e produção do obuseiro 155mm AR.
Acrescenta-se, ainda, que, caso a parceria se concretize, também propiciará benefícios para a BAE Systems, ao possibilitar o estabelecimento de uma rede de fornecedores nacionais capazes de atender não apenas às demandas do projeto no Brasil, mas também a futuras necessidades da empresa em outros mercados ao redor do mundo.

T&D – Em agosto de 2024, foi lançado o edital da Consulta Pública (RFI/RFQ) 03/2024 para “sondar o mercado nacional e internacional sobre a possibilidade do fornecimento mínimo de 54 obuseiros 105mm autorrebocados”, e, em junho deste ano, foi aprovada a “Diretriz de Iniciação do Projeto de Fabricação nacional do obuseiro autorrebocado de 105mm”. São dois projetos diferentes?
Gen Tales Villela – Na realidade, as ações foram conduzidas por órgãos distintos, porém convergem para o mesmo propósito: subsidiar a decisão acerca do modelo de obtenção do obuseiro 105mm AR.
A Consulta Pública (RFI/RFQ) nº 03/2024, conduzida pelo Escritório de Projetos do Exército (EPEx), teve caráter de prospecção de mercado, voltada à identificação das capacidades nacionais e internacionais para o fornecimento desses armamentos. Assim, o RFI não deve ser caracterizado como um projeto, mas sim como uma etapa preliminar de coleta de informações para a tomada de decisão. Por sua vez, o projeto de Fabricação Nacional do Obuseiro 105mm AR, instituído por meio da Diretriz de Iniciação e sob a condução da DF, constitui o projeto atualmente em desenvolvimento pelo Exército Brasileiro. Essa diretriz estabelece as bases para a estruturação do projeto, ainda em fase de delineamento, que tem por foco o desenvolvimento e a produção nacional do SMEM, em consonância com os objetivos estratégicos de ampliação da autonomia tecnológica e do fortalecimento da Base Industrial de Defesa.
T&D – Foi anunciado recentemente que o obuseiro a ser produzido no Brasil seria o L119 Light Gun, da BAE Systems. Por qual motivo se chegou a este sistema? Outras opções foram avaliadas?
Gen Tales Villela – Ainda não houve anúncio formal quanto ao obuseiro a ser produzido no contexto do Projeto. A Diretoria de Fabricação está realizando tratativas com a empresa BAE Systems referente à fabricação nacional do obuseiro L119, o qual constitui evolução do obuseiro 105mm L118 já empregado pelo EB. Esses dois modelos apresentam alto grau de comunalidade entre componentes, o que facilitaria a produção nacional do L119 em razão do projeto de revitalização do L118 já executado pelo AGSP.
Outras opções de obuseiros e modelos de obtenção estão sendo analisadas atualmente. Em dezembro deste ano, está prevista a realização da Reunião Decisória Inicial (RDI), na ocasião da Reunião de Alto Comando do Exército (RACE), que definirá a linha de ação a ser seguida e, possivelmente, a definição de qual(is) obuseiro(s).

T&D – A BAE Systems, ou outra empresa a ser definida, transferirá toda a tecnologia para a produção do obuseiro 105mm no Brasil?
Gen Tales Villela – Conforme mencionado anteriormente, não foi decidido ainda quanto ao modelo de obtenção para a fabricação nacional do obuseiro 105mm.
Entretanto, todas as tratativas realizadas até o momento apontam para uma modalidade de produção sob licença dos seus respectivos obuseiros, em que o Exército Brasileiro não seria detentor da Propriedade Intelectual, contudo, seria autorizado a fabricar uma determinada quantidade pré-estabelecida deste material com a assistência técnica da empresa escolhida.
T&D – No caso de o projeto ser com a BAE System, ou outra empresa a ser definida, será produzida a versão de prateleira ou será um projeto modificado para atender as necessidades do EB? Em caso afirmativo, a propriedade intelectual dessa versão será da empresa, do EB ou de ambos?
Gen Tales Villela – Idealmente, todo SMEM deve ser adaptado para atender às necessidades específicas de emprego. Sendo assim, embora a fabricação sob licença autorize apenas a produção do sistema original, não foi descartada a possibilidade de desenvolver adaptações ou melhorias do obuseiro original escolhido, até porque, para a nacionalização de determinados componentes, deverá ser necessário alguma convergência para soluções nacionais de melhor custo-benefício.
Vale ressaltar que qualquer modificação do projeto original deve ser negociada previamente no contrato com a empresa escolhida, especialmente quanto à propriedade intelectual das alterações.

T&D – A Diretoria de Fabricação tem divulgado visitas a empresas em diversas regiões do Brasil para buscar parceiros capacitados a atender as demandas do projeto. Qual a principal dificuldade encontrada?
Gen Tales Villela – Em comparação ao Morteiro Pesado 120mm Raiado (Mrt P 120 M2A1 R), já fabricado no AGR, um obuseiro 105mm AR apresenta maior complexidade de peças e de projeto, principalmente devido às condições de operação, ao sistema de recuo e aos processos de fabricação.
Durante as atividades de prospecção, foi possível verificar que a indústria nacional detém capacidade de fornecimento da maioria dos componentes mapeados do obuseiro, incluindo peças fundidas, usinadas e conformadas. Além disso, alguns processos mais complexos relacionados à fabricação do tubo poderão vir a ser internalizados nos Arsenais de Guerra.
T&D – Serão prospectadas empresas de todas as regiões do Brasil?
Gen Tales Villela – Foram priorizadas prospecções técnicas a empresas das regiões próximas aos Arsenais de Guerra e já participantes de processos licitatórios anteriores do Sistema de Fabricação (Sis Fab).
Contudo, a realização de eventuais processos licitatórios do projeto será de abrangência nacional, visando garantir a ampla concorrência e a publicidade dos processos licitatórios, conforme preconizado na legislação vigente.
T&D – Atualmente a Artilharia do EB possui obuseiros AR de 105mm dos tipos M101, L118 Light Gun e M56 OTO Melara. Os novos obuseiros seriam para a substituição de todos esses? Quantas unidades são demandadas e qual o tempo previsto para sua produção?
Gen Tales Villela – Estudos estão em curso acerca do emprego do novo obuseiro 105mm AR no contexto da Artilharia de Campanha. Neste sentido, prevê-se a gradual substituição dos M101, adicionada à realocação do novo obuseiro, em função dos estudos doutrinários, atualmente conduzidos pelo Estado-Maior do Exército.
T&D – No projeto estão previstas a produção de novos tipos de munição no Brasil?
Gen Tales Villela – Não. Conforme Diretriz de Iniciação do Projeto de Fabricação Nacional do obuseiro 105mm AR, o escopo do projeto contempla apenas a obtenção do obuseiro em si. No entanto, o Estado-Maior do Exército vem planejado alternativas voltadas à produção nacional dos diversos tipos de munições utilizadas. Nesse contexto, contratos de offset direcionados a empresas da Base Industrial de Defesa, como a IMBEL, têm constituído uma das principais linhas de ação adotadas.

Gen Tales Villela -Após o início da produção do obuseiro 105mm AR, o EB vislumbra a possibilidade de partir para o de 155mm?
Gen Tales Villela – Caso a RDI delibere pela adoção da linha de ação que contemple a fabricação nacional do obuseiro 105mm AR, estão sendo considerados estudos voltados à mobilização e adaptação da linha de produção dos Arsenais de Guerra, de modo a atender requisitos e demandas associados a futuros projetos, inclusive aqueles relacionados a obuseiros de maior calibre, como o caso do 155mm AR.
T&D – Como o senhor vê o Futuro dos Arsenais de Guerra do Exército?
Gen Tales Villela – A perspectiva para o futuro dos Arsenais de Guerra é de fortalecimento e modernização. Como mencionado anteriormente, no contexto do projeto em pauta, a adoção da Linha de Ação que contempla a fabricação nacional sob licença contribuirá para consolidar o papel estratégico dos Arsenais de Guerra, expandir as capacidades industriais e ampliar a expertise técnica do Sis Fab.
Projetos dessa natureza reafirmam o compromisso do Sis Fab em produzir soberania e poder de combate, promovendo autonomia tecnológica, excelência industrial e maior prontidão operacional.

Respostas de 7
O Gen Tales Villela é um engenheiro militar experiente.
A ele todo sucesso neste projeto.
Domínio fundamental.
Essencialmente estratégico o domínio da produção de obuseiros, os reis da guerra Ucrânia vs Rússia principalmente com o auxílio de drones com aquisição de posições etc. Desejo todo sucesso a ess projeto do EB e que evolua para o 155mm nacional e no futuro para um 155mm autopropulsado nacional.
Competência e experiência, orgulho de conhecer esse lorenense
Parabéns aos envolvidos neste importante intento.
Que nossos governantes não obstem esse programa, pois como alguém mencionou acima, estes são ativos fundamentais num conflito contemporâneo.
Tive o privilégio de trabalhar com o então Ten-Cel Tales e tenho certeza de que este projeto está em excelentes mãos.
Parabéns à Tecnodefesa por prestigiar este importante trabalho e por compartilhar conosco.
Att.
Bruno
Soberania está entrelaçada em produção nacional. Espero que essa consciência atinja mais os envolvidos na defesa nacional.
Parabéns ao nobre General Tales Vil
la, militar de grande competência e experiência.