Segundo acidente com Hermes 900 expõe fragilidade crítica na capacidade de reconhecimento da FAB

A confirmação de um segundo acidente com a aeronave remotamente pilotada Hermes 900 da Força Aérea Brasileira (FAB), o RQ-900 FAB  7811, escancara um problema que já vinha se desenhando há algum tempo: a limitação estrutural da capacidade de vigilância e reconhecimento do país. Mais do que a perda de um equipamento, o episódio evidencia a falta de margem operacional e a dependência de uma frota extremamente reduzida.

Na prática, a FAB passa a contar com apenas uma aeronave disponível para missões de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), o FAB 7812, enquanto aguarda a entrega de outra unidade (FAB 7813). Trata-se de um cenário delicado, sobretudo diante da crescente complexidade do ambiente estratégico, tanto no entorno regional quanto no plano global.

O Hermes 900, desenvolvido pela Elbit Systems, é uma plataforma consolidada, com boa autonomia e capacidade de operar com sensores eletro-ópticos e infravermelhos, além de radares em determinadas configurações. No entanto, quando operado em número tão limitado, seu potencial simplesmente não se traduz em capacidade efetiva.

Esse quadro se torna ainda mais preocupante quando considerado o contexto internacional atual. A escalada de tensões envolvendo o Irã e seus desdobramentos militares tendem a impactar diretamente a indústria de defesa israelense. Em situações desse tipo, é natural que prazos de exportação sofram atrasos, à medida que as prioridades industriais se voltam para demandas internas ou contratos considerados estratégicos.

Para o Brasil, isso significa um risco real de demora na entrega da aeronave aguardada — e, consequentemente, a manutenção de uma lacuna crítica na capacidade de reconhecimento. Em um cenário onde informação em tempo real é decisiva, operar praticamente no limite não é apenas arriscado: é operacionalmente insustentável.

A experiência recente de conflitos, especialmente na Ucrânia e no Oriente Médio, mostra com clareza que a superioridade em ISR deixou de ser um diferencial para se tornar um requisito básico. E, mais do que isso, evidencia uma tendência clara: a integração entre vigilância e capacidade de ataque.

Diante disso, a FAB precisa ir além da reposição pontual de meios. Há uma necessidade imediata de ampliar e diversificar sua frota com sistemas de maior porte — plataformas das categorias 4 e 5, incluindo drones MALE (Medium-Altitude Long-Endurance) mais avançados e, sobretudo, sistemas HALE (High-Altitude Long-Endurance).

Essas aeronaves oferecem não apenas maior persistência em voo, mas também a possibilidade de integrar sensores mais sofisticados, como radares de vigilância de grande alcance e sistemas optrônicos de alta definição. Mais importante ainda: permitem a incorporação de armamentos de precisão, como munições guiadas e munições vagantes, ampliando significativamente o espectro de emprego operacional.

A realidade da guerra contemporânea aponta exatamente nessa direção. Drones deixaram de ser apenas “olhos no céu” para se tornarem vetores completos de combate, capazes de detectar, acompanhar e neutralizar alvos com rapidez e precisão.

Outro ponto que precisa ser enfrentado é a dependência de um único fornecedor. A atual situação evidencia os riscos dessa escolha, especialmente quando esse fornecedor está inserido em um ambiente de alta instabilidade. A diversificação de parceiros — incluindo opções europeias, turcas ou até projetos com maior participação nacional — deve entrar no radar de qualquer planejamento sério de médio prazo.

O momento é crítico, mas também pode servir como ponto de inflexão. A FAB tem diante de si a oportunidade de revisar conceitos, acelerar decisões e alinhar suas capacidades com aquilo que já se tornou padrão nos conflitos modernos.

O segundo acidente com o Hermes 900 não é apenas mais um evento operacional. É um sinal claro de que a atual estrutura não responde mais às exigências do cenário estratégico e ignorar isso agora pode custar caro no futuro.

O FAB 7810 caiu em maio de 2024, durante as operações de apoio às enchentes do Rio Grande do Sul

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