O Cascavel modernizado pela Equitron – O futuro do Cascavel?

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Por Paulo Bastos, Hélio Higuchi e Reginaldo Bacchi

INTRODUÇÃO

Devido as recentes publicações feitas pelo Estado-Maior do Exército (EME), os documentos EB20-RO-04.013 e EB20-RTLI-04.001, referentes a modernização da viatura blindada de reconhecimento média sobre rodas 6×6 CASCAVEL, dentro no âmbito do GT NOVA COURAÇA, cujo matéria se encontra na atual edição da Revista Tecnologia & Defesa, de nº 160, resolvemos republicar no site a matéria da edição nº 147 (publicada originalmente em dezembro de 2016), por considera-la extremamente importante para a compreensão do tema atual, bem como para homenagear um dos maiores pesquisadores militares da história desse país: o Professor Reginaldo José da Silva Bacchi.

Esse foi o último trabalho que participou.

 

 

VIDA NOVA PARA O CASCAVEL?

A história real e as possibilidades

A maior atração da 4ª Mostra BID Brasil, realizada no final de setembro de 2016, em Brasília (DF), foi o protótipo da modernização da VBR Cascavel, do Exército Brasileiro (EB), Entretanto, desde a sua apresentação a até os dias de hoje, esse programa vem sendo divulgado com muitas informações equivocadas e que até mesmo carecem de qualquer fundamento. Assim, Tecnologia & Defesa foi a fundo no assunto, realizando visitadas e conhecendo os locais onde o “novo carro” foi concebido e teve acesso a todo o projeto.

 

COMO SURGIU

No início da década de 2010, o 13º Regimento de Cavalaria Mecanizada (13º RCMec), em Pirassununga (SP), estava com dificuldades para solucionar diversos problemas de manutenção nos freios das viaturas Engesa EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, por serem um sistema antigo, projetado nos anos de 1970, que sofria uma manutenção não padronizada (devido à política então praticada), o que acarretava uma grande indisponibilidade desses veículos, bem como alguns incidentes potencialmente graves. Nessa época, o professor doutor engenheiro José Guilherme Sabe, proprietário da Equitron Automação Eletrônico Mecânica Ltda, que também atua no ramo automotivo, se dispôs, de forma voluntária, a buscar soluções modificando o sistema de uma VBTP Urutu.

A Equitron, com sede em São Carlos (SP), é uma empresa especializada em automação de processos de manufatura, destacando-se como criadora de soluções, produzindo linhas de montagens, células robotizadas e equipamentos especiais para soldagem e testes não destrutivos. Os maiores nomes da indústria automobilística instalada no Brasil estão entre seus clientes.

Tendo em sua carteira a TRW Automotive Ltda, sucessora da fábrica dos freios originais do veículo, o Dr. José Guilherme levantou, dentro de seu portfólio de peças, quais as que substituíram as antigas. Dessa forma, todo o sistema foi refeito pela Equitron, tendo seus principais componentes, como os discos e pinças, trocados e sanando a questão. Tempos depois, o serviço foi feito em outra VBTP que deveria participar de uma operação na Escola de Sargentos das Armas (ESA), em Três Corações (MG), com o deslocamento ocorrendo sem a utilização de uma prancha de transporte, e era preciso dar muito mais segurança à tripulação.

Constatada a grande melhora no desempenho e na segurança das viaturas modificadas, a Equitron foi convidada pela Diretoria de Materiais (DMAT), em Brasília (DF), para apresentar as soluções utilizadas, visando seu aproveitamento nas viaturas Urutu e Cascavel que estavam sendo recuperadas no Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP). Comprovando sua capacidade técnica, já em 2013, a empresa foi convidada a participar do processo licitatório nº 64.005.005.219/2013-61, para a contratação de serviços técnicos especializados em engenharia automotiva para desenvolvimento de projeto de manutenção modificadora da VBR EE-9 Cascavel, Modelo M2, com entrega de um protótipo ao AGSP. Mesmo diante do grande desafio em algo tão complexo como uma viatura blindada, a Equitron decidiu participar pois já dispunha de toda a documentação necessária, por conta do projeto de um canhão d’água antiexplosivos desenvolvido para a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), e acabou vencendo a concorrência pelo menor preço. Em meados de 2014 foi entregue a VBR a ser modernizada.

VBR 6×6 EE-9 M2S3 Cascavel, no Pq R Mnt/5, em 2008. Foi um modelo similar a esse que foi utilizado pela Equitron em seu protótipo.

O veículo disponibilizado pelo EB para servir como protótipo foi o Engesa EE-9 Cascavel, Modelo II, matrícula EB 3425211909, um dos primeiros exemplares recebidos pela Força, há mais de 40 anos, ainda com transmissão mecânica e os faróis colocados acima do chassi, característica marcante dos modelos mais antigos. Em 2015, enquanto o projeto da Equitron tomava corpo, o AGSP, idealizou uma modernização mais radical para a VBR Cascavel, propondo uma completa automação em sua torre e, para tal, foi lançado o processo licitatório nº 64.005.006.523/2014-14, que também foi ganho pela empresa.

Desde o primeiro programa (2013), a Equitron resolveu apresentar diversas soluções modulares, que poderiam servir não só ao Modelo II, mas, com pequenas alterações, a todas as versões do Cascavel, permitindo que o EB implemente apenas as que melhor atendam às suas necessidades, ou que as faça em etapas, conforme sua demanda ou disponibilidade de recursos. Depois da segunda licitação o projeto foi totalmente unificado, apresentando diversas soluções modernas, criativas e utilizando o máximo de componentes disponíveis no mercado automotivo industrial de alta confiabilidade, por sinal, o mesmo que fazia a Engesa em seus produtos e que fez tanto sucesso entre seus operadores.

Utilizando a filosofia modular, com o máximo de automação possível, e buscando não só a melhoria de desempenho e da logística da VBR Cascavel como um todo, mas também a segurança de seus ocupantes, a empresa recriou a VBR Cascavel, com um projeto próprio e muito inovador, totalmente executado por seus engenheiros e técnicos, em suas instalações, superando os requisitos básicos apresentados nos documentos da licitação. Surgiu, dessa maneira, o protótipo chamado de EQ-12, pela Equitron; MX-8, no AGSP; e EE-9U, na Cavalaria do Exército.

 

PRINCIPAIS IMPLEMENTOS

_ Chassi, Motor e Transmissão

Como o EB permitiu a completa mudança em toda a carcaça, o chassi foi cortado longitudinalmente, tendo toda sua estrutura interna modificada e aberta. Nas palavras do Dr. José Guilherme “o trem de força e transmissão do veículo ocupa proporcionalmente quase a mesma porção da motorização de um avião de caça”. Essa mudança possibilitou um motor maior e mais potente, com uma mudança total na sua configuração permitindo que seja retirado e substituído, junto com a transmissão, em cerca de uma hora, “semelhante ao dos Leopard”, o que facilita em muito a logística, principalmente em ambientes operacionais, ou seja, fora das oficinas.

O chassi sendo remontado na sede da Equitron

O novo motor, um MTU 6R926, eletrônico, com curva de torque plana na faixa operacional de rotação, é capaz de manter um patamar constante de torque, na baixa e na alta rotação, com uma transmissão eletrônica ZF 6HP504C, automática.

A parte traseira do chassi foi alterada, criando uma espécie de protuberância, a qual o Dr. José Guilherme chama de o Guizo da Cascavel, para comportar o novo motor e transmissão, assim como para melhorar a refrigeração e diminuir a assinatura térmica. O carro não tem freio motor, mas um freio hidrodinâmico no câmbio. O farol externo foi retirado e a carroceria foi cortada para que ele pudesse ser inserido, como nos modelos mais modernos produzidos pela Engesa.

_ Suspensão e Diferencial

O famoso sistema Engesa Boomerang, tão aclamado quando de sua adoção, notadamente por sua capacidade de superar obstáculos, é considerado um dos “Calcanhares de Aquiles” do Cascavel e do Urutu, obsoleto e não mais aceitável para os padrões atuais. Quando comparado aos sistemas modernos, é muito pesado, devido ao elevado valor de massas suspensas, não permitindo o aproveitamento de um aumento de potência do motor e contribui para dar ao carro uma velocidade de deslocamento baixa em condições de qualquer-terreno (QT).

O chassi alterado aguardando a montagem dos componentes

Outro problema corriqueiro, especialmente nas primeiras versões desses blindados, devido a desgastes mecânicos e algumas tentativas de correção, é o diferencial dianteiro desconectado, transformando o veículo em um 6X4, como no veículo entregue à Equitron.

Para solucionar essas e outras questões foi retirado o bloqueio e trocado todo conjunto diferencial interno do boomerang, preservando somente os facões laterais, e foram feitas novas pontas de eixo. Com isso diminuiu-se consideravelmente a massa e a taxa de quebras, facilitando a manutenção e aumentando a eficiência na transmissão de força.

Também está em estudos o funcionamento da roda dianteira do boomerang como roda-livre, melhorando assim a manobrabilidade do carro em ambientes mais confinados e com piso mais aderente, como os encontrados em missões urbanas de Garantia de Lei e Ordem (GLO), e reduzir o desgaste dos componentes mecânicos.

_ Torre e Sistema de Armas

De acordo com o Dr. José Guilherme, a torre original do Cascavel M2 foi totalmente desmontada e reconstruída, mantendo os mesmos ângulos de inclinação, mas com um novo sistema de tiro com telêmetro e um sistema de controle de servo-posicionamento, para giro e azimute, controlado por joystick.

A parte traseira foi cortada e ampliada para acondicionar sistema de energia e potência para alimentação dos servomotores, para que a torre opere independentemente. As baterias permitem que, com o carro desligado, a torre possa atuar por 10 minutos contínuos ou 30 minutos, de forma intermitente. A torre pode ainda ser removida e colocada em uma estrutura fixa, transformando-se em uma casamata.

Para aumentar a segurança do motorista, retirar o motor e a transmissão de forma rápida e acomodar os servos, a torre foi elevada com a inclusão de um anel com capacidade de resistência balística similar à sua parte frontal.

Foi mantido o canhão EC-90, de 90mm, com mira ótica DF Vasconcelos, assim como as metralhadoras de 7,62mm, coaxial e antiaérea, e os lançadores de granadas fumígenas, de 76mm. A peça principal está agora assistida por um inclinômetro que corrige automaticamente a posição do canhão fazendo com que fique referenciado em relação ao nível horizontal. Foram incluídos um sensor multiespectral de observação, da Opto Eletrônica S/A, com câmeras LCD com zoom, para uso diurno; câmera infravermelha, para noturno; e o sistema MILMOS COTS, da holandesa Orlaco Products B.V., composto por quatro câmeras compactas que cobrem um arco de 360º, dando ao comandante do veículo um incremento na consciência situacional. Tudo integrado pela Equitron, em uma interface touch screen nacional e em português. O sistema de comunicação foi substituído, sendo o protótipo equipado com o rádio tático Harris Falcon III e o sistema Thales SOTAS para intercomunicação digital, ambos utilizados no VBTP Guarani.

Faltando cerca de 40 dias para o veículo ser oficialmente apresentado na 4ª BID Brasil, e em face à modularidade das suas soluções, foi sugerida a possibilidade de disparar mísseis MSS 1.2 AC, da brasileira Mectron Engenharia. A ideia foi discutida e aceita pela equipe de engenheiros da companhia que, em tempo recorde, alterou o sistema de tiro, incluindo mais dois servos para controle e um sistema de estabilização independente do canhão (ainda em desenvolvimento), que comandam um tubo lançador com guiagem totalmente integrada ao sistema de armas do veículo. Além do MSS 1.2 AC, a laser, também podem ser integrados sistemas do tipo “dispare-e-esqueça”, como o israelense Spike, de forma ainda mais fácil, pois não requer qualquer tipo de orientação após o lançamento.

 

TESTES E O FUTURO

A avaliação inicial ocorreu no primeiro semestre de 2016, quando o protótipo foi enviado ao Campo de Provas da Marambaia (CPrM), para testes de deslocamento e guiagem. Embora tendo o seu peso aumentado de 9 para cerca de 13 toneladas, alcançou facilmente uma velocidade de 100 km/h.

O protótipo em testes

Em 20 de outubro de 2016, foi a vez de uma seção de tiro técnico no 2º Grupo de Artilharia de Campanha Leve (2º GAC L), em Itu (SP), onde foram efetuados 10 disparos unicamente para avaliar a segurança, robustez e confiabilidade do sistema de armas, com bom resultado, sendo que um teste de precisão será feito no CPrM, mas ainda não existe uma data fixada.

No momento o carro está na 2ª Brigada de Cavalaria Mecanizada (2ª Bda C Mec), em Uruguaiana (RS), onde estão sendo formadas tripulações para operá-lo e testá-lo intensamente, por tempo indeterminado, para validar as soluções implementadas.

As inovações propostas e introduzidas pela Equitron, caso forem implantadas em sua totalidade (suspensão, motorização, transmissão, sistemas de armas e torre), significariam uma modernização total da VBR Cascavel, mas a um custo elevado. Conhecedores desse fato, o Dr. José Guilherme e sua equipe, projetaram o protótipo com o uso de soluções modulares, que utilizam slots para conectar seus diversos elementos e interfaces, permitindo assim sua fácil integração e que faz com que cada módulo possa ser feito separadamente, de acordo com as necessidades do EB, e também de forma paulatina.

O protótipo é um VBR conceitual, mostrando o que a empresa pode inovar para manter a frota desses veículos na ativa até a introdução de um substituto. Os componentes escolhidos foram preferencialmente os disponíveis na indústria nacional, visando facilitar a manutenção, e os componentes novos foram desenhados pela própria Equitron, com seus protótipos produzidos pela indústria brasileira. Isso só foi possível porque a empresa já possui uma cadeia logística consolidada por ser uma grande fornecedora de linhas de montagens, automação e soluções para produções de componentes, para praticamente toda a indústria automotiva instalada no Brasil.

Ao contrário do que tem sido divulgado, não há ainda nenhuma encomenda por parte do Ministério da Defesa para modernização das VBR Cascavel, muito menos uma pré-série. Entretanto, caso isso se torne realidade, a Equitron pretende se candidatar ao trabalho já que possui toda a capacidade e ferramental para isso, independentemente de quais módulos venham a ser selecionados pelo Exército.

Os engenheiros Reginaldo Bacchi, da equipe T&D, e José Guilherme Sabe, diretor-presidente da Equitron: um encontro para trocas de histórias, experiências e informações.
Essa é uma foto histórica, pois é a ultima do Mestre Bacchi em atividade de pesquisa.

 

NOTA DA REDAÇÃO: Tecnologia & Defesa registra seus agradecimentos ao Prof. Dr. Eng. José Guilherme Sabe, diretor-presidente da Equitron, e a Katherina Ingrid Faland, assessora da direção, pela acolhida a sede da empresa, por toda a colaboração prestada, e disponibilização das informações que permitiram a confecção desse trabalho.

Colaborarou Vladimir Rizzetto

10 Comentários

  1. Além de bem oportuna, colocar novamente essa matéria no ar é uma bela homenagem ao grande e saudoso Reginaldo Bacchi. Parabéns.

  2. Os Cascaveis já deveriam estar fixados em pedestais de concreto adornando os jardins dos RCMecs Brasil afora com o advento doo Guarani, vejo isso como dinheiro jogado no ralo.

  3. Basicamente um Cascavel novo em folha , particularmente gostei muito desta versão da Equitron e se for pra gastar dindin com Cascavel, que se gaste bem o deixando excepcional,na medida do possível, como este conceito.
    Parabéns pela homenagem ao saudoso Bacchi, quanto conhecimento, sempre agregava absurdo valor nos debates no site “Forte”e respondia as perguntas das pertinentes às mais absurdas q os entusiastas ,como eu, fazíamos .

  4. Lendo esta matéria que afirma que em 2010 Cascaveis e Urutus do 13 RCMec Não tinham condições de rodar por problemas no sistema de freios, me pergunto qual a disponibilidade atual destas vtrs nas outras unidades.

    Deve ser bem ruim…

  5. Grande e saudoso Reginaldo Bacchi, tb tive a honra de aprender com ele desde a época do alide. Quanto a essa modernização, acredito que a grande sacada é o aspecto modular, que pode dar alguma chance para mercado externo, mas para o EB, não sei se vai ser muita grana por um curto período de utilização, pois o Guarani já está aí pra isso, surgimento de outras variantes, e é aí que os recursos devem ser investidos. Para mercado externo, acredito que só pra quem já utilize cascavel, aí será um mercado bem restrito. Acredito que esse projeto seja vantajoso mais como um aprendizado para equitron.

  6. Não acho a modernização dos Cascavéis dinheiro jogado fora. Esses veículos, juntos aos Centauros 2, os quais o EB estão estudando, ainda serão muito íteis em nosso TO. Temos muitos chassis disponíveis o que poderá baratear o projeto devido a sua escala. Acho que dos 409 da ordem de batalha, poderíamos modernizar uns 300.

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