Exército Brasileiro enviará comitiva ao Denel Overberg Test Range (África do Sul).

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A instalação Denel Overberg Test Range é uma divisão do grupo industrial sul-africano Denel. Trata-se de uma instalação de teste multiuso totalmente integrada e bem próxima ao extremo sul da África, com seus principais negócios focados em testes em voo de sistemas avançados guiados e de aviação. Indústrias aeroespaciais locais e internacionais utilizam esta que é a principal instalação do genero na África.

Publicado no Boletim do Exército 32/2018

O Exército Brasileiro resolve designar os militares a seguir nomeados, para participarem da visita ao Centro de Testes de Mísseis e Aeronaves Denel Overberg Test Range (Atv PVANA WI2-D085), na cidade de Arniston, na República da África do Sul, no período de 1º a 7 de outubro de 2018, incluindo os deslocamentos:

General-de-brigada ANTONIO JOSÉ GONÇALVES PINTO, Chefe do Centro de Avaliação do Exército (CAEx); general-de-brigada R/1 JOSÉ JULIO DIAS BARRETO, Prestação de Tarefa por Tempo Certo (PTTC) no EME; e tenente-coronel QEM ISMAEL CARDOSO DE CAMPOS, do CAEx.

Para fim de aplicação da Lei nº 5.809, de 10 de outubro de 1972, regulamentada pelo Decreto nº 71.733, de 18 de janeiro de 1973, a missão está enquadrada como eventual, militar, sem mudança de sede, sem dependentes e será realizada com ônus total para o Exército Brasileiro/EME/EPEx.

O que é o Denel Overberg Test Range? (Análise)

A instalação Denel Overberg Test Range é uma divisão do grupo industrial sul-africano Denel.

Trata-se de uma instalação de teste multiuso totalmente integrada e bem próxima ao extremo sul da África, com seus principais negócios focados em testes em voo de sistemas avançados guiados e de aviação.

Indústrias aeroespaciais locais e internacionais utilizam esta que é a principal instalação do genero na África.

A experiência adquirida com centenas de testes desde a sua criação em meados dos anos oitenta confirmou a capacidade dos Test Ranges de gerir e executar qualquer combinação de testes de voo aéreo, terrestre e marítimo.

Conta com recursos-chave como uma arena de teste irrestrito com topografia favorável; um conjunto de instrumentação com certificação de qualidade ISO9001: 2008, uma variedade de serviços de destino e a segurança garantida dos dados de teste obtidos.

O Denel Overberg Test Range oferece uma solução turn-key profissional e econômica para seus clientes.

Além do histórico comprovado em Test Ranges, sua disponibilidade durante todo o ano, condições climáticas amenas (similares as encontradas no Mediterrâneo), doutrinas otimizadas de execução de testes, flexibilidade na implantação de instrumentação e profissionais experientes fazem da Denel Overberg Test Range uma das melhores instalações de testes do mundo.

O que o Exército Brasileiro busca em Overberg?

Uma maneira eficiente de tentar entender a comitiva brasileira é analisar as competências de cada um.

Dois militares são do Centro de Avaliação do Exército (CAex), respectivamente seu chefe e um oficial superior encarregado, engenheiro militar.

Devido a similaridade com as atividades executadas nos dois orgãos, faz todo o sentido a presença da dupla em Overberg, mas sem esclarecer muita coisa.

O que pode dar uma indicação clara sobre a motivação da presença brasileira em Overberg (e missão), é a função exercida no Brasil pelo outro militar designado.

O general R/1 Barreto é o gerente do Programa Estratégico do Exército Astros 2020, do Escritório de Projetos do Exército (EPEx).

No documento, ele é citado como Prestação de Tarefa por Tempo Certo (PTTC) no EME, o que também está correto.

Esse jogo de palavras teve como ideia não entregar a função do oficial R/1 nessa visita?

Vamos analisar:

A presença do general R/1 Barreto em Overberg pode indicar, entre outras atividades, a futura realização de uma campanha de disparo real instrumentado do míssil de cruzeiro Matador 300 da Avibras, para fins de homologação e certificação internacional.

De fato, qualquer um dos itens em desenvolvimento para o PEE Astros 2020, como a aeronave remotamente pilotada (drone) para a bateria de busca de alvos, ou o foguete guiado de 40 mm FG-40, dentre outros, podem ser testados, homologados e certificados em Overberg.

Há que se considerar a importância de Overberg para a realização de testes com mísseis terra-ar (surface to air missile ou SAM).

Se o desenvolvimento futuro de um sistema antiaéreo de média altura e longo alcance nativo brasileiro seguir os passos previstos, é bem provável que parte da campanha de ensaios com disparos contra alvos reais aconteça em Overberg, dependendo do míssil escolhido/desenvolvido.

Ratificando essa observação está o fato de que a empresa alemã Diehl Defence está oferecendo ao Exército Brasileiro o seu míssil Iris-T na versão terra-ar (antiaérea), o IRIS-T SL.

Dentro do programa MEADS, a Força Aérea Alemã (Luftwaffe) planeja integrar uma versão guiada por radar (SL) do míssil, chamada IRIS-T SL.

Essa versão tem um nariz pontudo com uma antena radar miniaturizada, ao contrário do IRIS-T normal e seu nariz ovalado abrigando um seeker IR de matriz ativa.

Os testes de qualificação do IRIS-T SL foram concluídos em janeiro de 2015, no Denel Overberg Test Range, na África do Sul.

O míssil Iris-T na versão SAM é construído em duas variantes, o IRIS-T SLS (curto alcance) e IRIS-T SLM (médio alcance).

Outra Força terrestre, o Exército Sueco, planeja desenvolver uma versão lançada em terra do IRIS-T para substituir o sistema de mísseis RBS-70 (atualmente em uso no Brasil pela 1º Brigada de Artilharia Antiaérea)

Já o Exército Norueguês decidiu adquirir um “Sistema de Defesa Aérea Móvel Baseado em Terra” em uma aquisição direta com a Kongsberg Defense & Aerospace.

As entregas estão planejadas para 2018 a 2021 e o sistema reutilizará o comando e controle NASAMS e suas soluções de rede, para criar um “sistema de defesa aérea altamente móvel e de curto alcance”. O projeto inclui seis veículos M-113 modificados que transportam mísseis IRIS-T terra-ar.

Como demonstrado, existe todo um desenvolvimento de mísseis terra-ar passando por Overberg, e a configuração comum a todos os sistemas listados é a mesma desejada pelo Exército Brasileiro: mísseis intercambiáveis entre a versão ar-ar (usado pela Força Aérea nos Gripen E/F) e ar-terra (acrescidos de booster de aceleração), acondicionamento em case lacrado ready to fire, sistema de lançamento a frio, na vertical a 90º (míssil é ejetado do tubo por pirotécnicos e ignita seu booster/motor fora do case de lançamento), radares associados de busca de alvos e guiamento de tiro (desenvolvimento sob responsabilidade da Bradar com seu Sentir M200), e sistemas de co-validação de alvos (IFF ou identificação amigo ou inimigo).

Por Roberto Caiafa e KDK