De Ícone da Guerra Fria à Era dos Drones: o futuro do M113 e a transição brasileira para a Família VBC Fuz

Paulo Bastos

Por mais de seis décadas, poucos veículos blindados alcançaram a difusão, longevidade e a relevância operacional do M113. Concebido nos Estados Unidos no final dos anos 1950, o blindado de transporte de pessoal sobre lagartas tornou-se um verdadeiro “coringa” para dezenas de forças armadas, servindo como base para uma infinidade de versões (posto de comando, morteiro autopropulsado, viatura de engenharia, ambulância e plataforma de diversos sistemas de armas). Sua simplicidade mecânica, baixo custo aquisitivo e facilidade de manutenção garantiram presença em praticamente todos os continentes, consolidando-o como um dos blindados mais produzidos da história.

No Brasil, o M113 foi (e ainda é) a “espinha dorsal” das tropas blindadas, operando em estreita cooperação com os carros de combate – embora com limitações cada vez mais evidentes – e garantindo mobilidade protegida à infantaria embarcada. Programas de modernização estenderam sua vida útil, mas a idade do projeto e as transformações no ambiente operacional impõem limites mais e mais claros.

A Guerra na Ucrânia reconfigurou o papel do M113 no cenário estratégico global, pois, diante da necessidade urgente de recompor perdas e expandir forças, países da OTAN transferiram centenas de exemplares e variantes para Kiev, já que o conflito, que completou quatro anos nesta semana, se transformou em um grande consumidor das reservas ocidentais acumuladas desde o fim da Guerra Fria. Depósitos foram esvaziados, não apenas de plataformas completas, mas também de motores, transmissões, esteiras, sistemas de suspensão e peças sobressalentes. A reposição contínua, em um ambiente de combate de alta intensidade, pressiona cadeias industriais que haviam sido redimensionadas para tempos de paz.

Mais do que o desgaste material, o teatro ucraniano evidenciou as limitações conceituais do M113.

O EB recebeu seus primeiros M113 ainda na década de 60 (Foto: 7º Esqd Rec Mec, via Hélio Higuchi)


AS LIMITAÇÕES

Projetado para enfrentar ameaças típicas da segunda metade do século XX (armas leves, estilhaços e minas convencionais) o blindado de alumínio mostra-se vulnerável diante de mísseis anticarro modernos, munições de ataque superior e, sobretudo, drones e munições vagantes. A proliferação de sensores e vetores de baixo custo reduziu drasticamente o tempo entre detecção e engajamento. Blindagens adicionais improvisadas mitigam riscos, mas aumentam peso e comprometem a mobilidade, sem garantir proteção adequada frente às ameaças atuais.

Essa transformação reforça uma tendência global: a substituição progressiva de plataformas antiquadas por veículos com proteção balística e antiminas mais robusta, arquitetura eletrônica digital, integração em redes de comando e controle e possibilidade de incorporação de sistemas de defesa ativa e estações de armas remotamente operadas. A sobrevivência no campo de batalha contemporâneo deixou de depender apenas da espessura da blindagem e passou a exigir consciência situacional ampliada, conectividade e capacidade de reação rápida a ameaças emergentes.

Mesmo passando por dois processos de modernização, o M113 não consegue acompanhar os Leopard 1A5 (Foto: Rogerio Kocuka)

O FUTURO BRASILEIRO

No Brasil, esse debate ganha contornos concretos com o Projeto da Nova Família de Blindados (VBC CC/VBC Fuz) como novo vetor de modernização das tropas blindadas. A introdução de uma nova geração de blindados sobre lagartas na Força Terrestre não representa apenas a substituição de uma plataforma envelhecida, mas uma mudança estrutural na forma de equipar e sustentar as unidades blindadas.

Entretanto, a experiência internacional demonstra que a simples aquisição de um produto pronto não resolve, por si só, o desafio estratégico. A lição central da guerra na Europa Oriental é a importância da base industrial de defesa e da capacidade de reposição em larga escala, sem amarras e restrições regulatórias como o ITAR estadunidense ou a BAFA alemã. Conflitos de alta intensidade consomem rapidamente meios blindados. Sem capacidade local de produção, manutenção pesada e fabricação de componentes críticos, qualquer força terrestre torna-se dependente de cadeias externas sujeitas a restrições políticas e logísticas. Restrições com capacidades de parar frotas inteiras.

Nesse contexto, a substituição dos M113 não deve se limitar a uma mera compra de prateleira, mas sim estar associada a um projeto que possa ser efetivamente produzido no Brasil, ainda que baseado em um projeto estrangeiro consolidado e desenvolvido em parceria estratégica. A adoção de uma plataforma moderna, construída a partir das lições aprendidas em conflitos recentes e não de décadas passadas, reduz riscos tecnológicos e encurta prazos. No entanto, a internalização progressiva da produção, com transferência de tecnologia, nacionalização de sistemas e fortalecimento da cadeia de fornecedores, é condição indispensável para garantir autonomia estratégica e previsibilidade logística.

Outra variante do M113 no EB é a M577A2, aqui nas versões posto de comando e ambulância (Fotos: EB)

Além disso, a diversidade de missões atualmente desempenhadas pelo M113 exige que a nova família de blindados seja concebida desde o início como sistema modular. Não se trata apenas de substituir um transporte de tropas, mas de renovar todo um ecossistema de viaturas de apoio das tropas blindadas, preservando a comunalidade logística e reduzindo custos de ciclo de vida.

O veterano M113 simboliza a mecanização do século XX e cumpriu seu papel com notável resiliência. Contudo, a era dos drones, das munições inteligentes e da guerra em rede impõe um novo padrão de proteção, integração e sustentabilidade logística. A decisão brasileira de avançar para uma nova família de blindados sobre lagartas, como o VBC Fuz/VBC CC, representa mais do que uma troca de plataformas: é a oportunidade de alinhar modernização operacional com fortalecimento industrial e soberania tecnológica.

O desafio, portanto, não é apenas substituir um ícone da Guerra Fria, mas construir as bases de uma capacidade blindada compatível com o século XXI — tecnologicamente atualizada, doutrinariamente coerente e sustentada por uma base produtiva nacional capaz de responder, com autonomia, às exigências de um conflito de média e alta intensidades.

Os principais candidatos ao projeto VBC Fuz

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