Neste 25 de março, que coincide com o Dia do Especialista da Aeronáutica, a aviação brasileira atinge um marco histórico com a entrega do primeiro caça supersônico produzido na América Latina. A incorporação do primeiro F-39 Gripen fabricado pela Embraer simboliza não apenas a chegada de uma nova aeronave à frota da Força Aérea Brasileira (FAB), mas a consolidação de um projeto estratégico que eleva o Brasil a um novo patamar de autonomia tecnológica e capacidade operacional.
Desenvolvido pela sueca Saab em parceria com o Brasil, o Gripen foi concebido como um programa estratégico que envolveu a transferência de conhecimento. Diferentemente de aquisições tradicionais, prontas, chamadas de “prateleira”, o projeto envolve a absorção de tecnologias críticas, incluindo engenharia de sistemas complexos, integração de sensores, desenvolvimento de software embarcado e processos avançados de fabricação aeronáutica.
A transferência de tecnologia, peça fundamental do Programa FX-2, já se traduz em resultados concretos. Boa parte da produção do caça supersônico ocorre em território nacional, com participação direta de engenheiros e técnicos brasileiros em todas as etapas, do desenvolvimento à montagem final. O país reduziu a sua dependência de atores externos com o domínio de competências sensíveis, criando uma base sólida para futuros programas estratégicos.

No centro desse ecossistema está a Embraer, responsável por etapas-chave do desenvolvimento, da linha de produção e pela consolidação do conhecimento transferido. Ao redor dela, forma-se uma cadeia de fornecedores e centros de pesquisa que amplia o impacto do Gripen para além do setor militar, irradiando inovação para a indústria nacional como um todo.
No campo operacional, o avanço do programa é igualmente evidente. Uma série de exercícios recentes tem servido para validar, em ambiente realista, as capacidades do F-39. Durante a Operação Thor, o caça realizou o lançamento de armamentos ar-superfície, comprovando sua aptidão para missões de ataque com precisão, elemento essencial em cenários contemporâneos de conflito.
Na Operação BVR, o Gripen avançou ainda mais ao executar o disparo do míssil Meteor, um dos mais avançados do mundo em sua categoria e que põe o Brasil na vanguarda quando se fala em capacidade dissuasória na América Latina. O exercício confirmou a capacidade de engajamento além do alcance visual, ampliando significativamente o poder de resposta da FAB e alinhando a nação às doutrinas mais modernas de combate aéreo.

Outro marco relevante foi alcançado na Operação Samaúma, com a certificação do reabastecimento em voo com o KC-390 Milllennium. A capacidade, essencial para operações de longa duração, expande o raio de ação do caça e garante maior flexibilidade estratégica, especialmente considerando as dimensões continentais do território brasileiro, além de se tornar um verdadeiro símbolo da indústria de defesa nacional, com a integração de dois vetores de extrema importância para a soberania brasileira.
A maturidade operacional do Gripen foi ampliada com a realização de tiro aéreo com o canhão de 27 mm, etapa fundamental para treinar os pilotos com o emprego de armamento interno em combate aproximado. Na sequência, o caça assumiu o Alerta de Defesa Aérea na Base Aérea de Anápolis. O movimento simboliza a entrada do F-39 em plena prontidão operacional, integrando-se ao sistema de defesa aérea brasileiro.
Do ponto de vista tecnológico, o Gripen introduz uma verdadeira mudança de paradigma. Equipado com sensores avançados, radar de varredura eletrônica ativa e arquitetura aberta centrada em rede, o caça é capaz de coletar, processar e compartilhar informações em tempo real com outras plataformas. Isso eleva drasticamente a consciência situacional e permite operações mais coordenadas e eficientes.

Essa capacidade de atuação em rede é extremamente relevante em cenários modernos, onde a superioridade não depende apenas da performance individual da aeronave, mas da integração entre diferentes sistemas. De radares terrestres a outras aeronaves e centros de comando.
No longo prazo, o programa Gripen funciona como um catalisador de desenvolvimento. A transferência de tecnologia e a capacitação de mão de obra criam condições para que o Brasil avance em áreas como inteligência artificial, sistemas autônomos e guerra eletrônica. Trata-se de um investimento que transcende o campo militar, com potencial de impacto direto na competitividade industrial do país.
Ao mesmo tempo, o projeto fortalece a posição do Brasil no cenário internacional, inserindo-o em um grupo restrito de nações com capacidade de desenvolver, produzir e operar caças supersônicos com elevado grau de independência.
Ao combinar produção nacional, evolução operacional consistente e absorção de conhecimento estratégico, o F-39 Gripen deixa de ser apenas um vetor de defesa para se tornar um instrumento de soberania.
Mais do que acessar a era supersônica, o Brasil passa a construir, gradualmente, as bases para sustentá-la com meios próprios.