As recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a possibilidade de o Brasil enfrentar ameaças externas, somadas às avaliações contundentes do ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro-do-ar Carlos de Almeida Baptista Júnior, expõem uma realidade estratégica preocupante: o país não está devidamente preparado para lidar com os desafios militares do século XXI. O que antes era tratado como hipótese distante passou a ser reconhecido, inclusive por lideranças de alto nível, como um risco que precisa ser levado a sério.
A gravidade do momento reside menos na existência de uma ameaça imediata e mais na incapacidade de dissuadi-la de forma crível. Em um ambiente internacional cada vez mais instável, a ausência de capacidades militares robustas não apenas fragiliza a defesa nacional, mas também incentiva pressões externas. Dissuasão não é retórica — é capacidade concreta, visível e pronta para emprego.
As declarações do presidente da República rompem com uma tradição histórica de minimizar riscos geopolíticos, enquanto a análise do ex-comandante da Força Aérea vai além e toca no ponto central: as limitações estruturais das Forças Armadas brasileiras. Trata-se de um diagnóstico direto, que evidencia lacunas em prontidão, tecnologia e capacidade operacional — fatores que, combinados, reduzem significativamente a capacidade de resposta do país em cenários de crise.
O contexto global torna esse quadro ainda mais alarmante. Conflitos de alta intensidade voltaram ao centro do sistema internacional, grandes potências ampliam seus arsenais e disputas por recursos estratégicos se intensificam. Nesse cenário, países que negligenciam sua defesa tornam-se vulneráveis não apenas a ataques diretos, mas também à coerção política e econômica — e sinais dessa pressão já começam a se manifestar também sobre o Brasil.
Ao longo de décadas, o país adotou uma postura baseada na ausência de ameaças imediatas, priorizando programas de longo prazo e desenvolvimento tecnológico próprio. Embora essa abordagem tenha mérito, ela se mostra insuficiente diante da urgência atual. A insistência em projetos extensos, com ciclos longos de maturação, compromete a capacidade de resposta no presente — justamente quando o tempo se torna o recurso mais escasso.
Hoje, as consequências são evidentes. O Brasil carece de um sistema consistente de defesa antiaérea de médio e longo alcance, enfrenta limitações em sua aviação de combate em termos de escala e prontidão, possui déficit de navios escolta modernos e carece de meios blindados compatíveis com os cenários contemporâneos. Soma-se a isso uma lacuna relevante em capacidades críticas como vigilância persistente, ataque de precisão, drones armados, guerra eletrônica e sistemas de mísseis capazes de gerar dissuasão real.
Diante desse cenário, a conclusão é inevitável: o Brasil precisa agir — e agir rápido.
É imperativo estruturar e assinar até 2026 um plano nacional de modernização das Forças Armadas que seja pragmático, objetivo e orientado por resultados operacionais concretos, não por projetos que busquem “reinventar a roda”. Esse plano deve priorizar aquisições que aumentem diretamente a capacidade de combate e a prontidão, deixando em segundo plano — ao menos temporariamente — iniciativas que não entreguem efeito militar imediato.
Não é mais o momento de desenvolver soluções do zero como se o país tivesse tempo ilimitado.
O foco deve estar na aquisição de sistemas prontos, e de parceiros de confiança, com produção nacional e independência tecnológica e operacional, sempre que possível, e com transferência de tecnologia como elemento complementar — não como pré-condição que inviabilize ou retarde decisões estratégicas.
Isso exige escolhas difíceis, mas inevitáveis.
Será necessário priorizar sistemas modernos de defesa aérea, expandir rapidamente o emprego de drones de vigilância e ataque, investir em mísseis de longo alcance, blindados sobre rodas e carros de combate de cavalaria e de fuzileiros, reforçar a capacidade naval — especialmente em escoltas e projeção de poder — e recuperar capacidades críticas hoje inexistentes ou degradadas, como aquisição de munição. Em paralelo, programas que não contribuam diretamente para a prontidão operacional devem ser suspensos, redimensionados ou reavaliados com rigor.
O fator tempo é decisivo. O Brasil ainda possui uma janela de oportunidade para corrigir suas vulnerabilidades de forma planejada, mas essa janela está se fechando rapidamente. Quanto mais o país adiar decisões estruturantes, maior será o custo — e menor será sua capacidade de resposta diante de um cenário de crise.
As falas de Luiz Inácio Lula da Silva e do Carlos de Almeida Baptista Júnior não devem ser tratadas como episódios isolados, mas como sinais claros de alerta vindos do mais alto nível do Estado.
Resta saber se esse alerta será finalmente convertido em ação concreta — ou se continuará sendo absorvido pela inércia estratégica que há décadas sustenta a ilusória sensação de segurança do país.
Porque, em defesa, a diferença entre reagir a tempo e reagir tarde demais pode não apenas definir o resultado de um conflito — mas determinar se ele poderia ter sido evitado.