O desenvolvimento de obuseiros leves de 105 mm voltou a ganhar relevância diante da necessidade de dotar forças terrestres de meios de apoio de fogo que combinem mobilidade, rapidez de emprego e facilidade de transporte.
Nesse segmento, o BORAN apresenta uma proposta que merece ser comparada à do tradicional LIGHT GUN, da britânica BAE Systems, especialmente sob a perspectiva de países que buscam modernizar sua artilharia sem ampliar excessivamente os custos de aquisição e sustentação, além de independência logística.
SUA HISTÓRIA
O BORAN é um obuseiro de 105 mm desenvolvido pela empresa turca MKE (Makine ve Kimya Endüstrisi), por iniciativa do Ministério da Defesa da Turquia. O programa, chamado inicialmente como ATLTH (Air Transportable Light Towed Howitzer), começou em 2009, com o objetivo de substituir antigos obuseiros M101, de fabricação americana, e oferecer às forças terrestres turcas uma peça leve, adequada às operações em terrenos montanhosos, às tropas aeromóveis e às unidades que necessitam de apoio de fogo com reduzida infraestrutura logística.


O BORAN pode ser transportados por helicópteros do porte do Black Hawk
O projeto priorizou a combinação entre baixo peso, rapidez de desdobramento e recursos modernos de direção de tiro. O resultado foi um obuseiro de tubo de 30 calibres, equipado com sistema digital de controle de tiro VOLKAN 230/105, desenvolvido pela ASELSAN. O conjunto incorpora navegação inercial, medição da velocidade inicial do projétil e recursos ópticos para o emprego diurno e noturno, reduzindo a dependência de procedimentos manuais para determinar os elementos de tiro.
As unidades de pré-série do BORAN foram entregues às Forças Armadas turcas em 2021 e, após ensaios de desenvolvimento, sua fabricação seriada avançou a partir de 2023. O sistema também foi empregado em demonstrações de tiro real e em exercícios militares, sendo um dos destaques do Ateş Serbest 2026.
Um dos diferenciais do BORAN é o tempo declarado inferior a um minuto para entrar ou sair de posição. Com peso próximo de 1.700 kg, o sistema pode ser rebocado por veículos táticos leves ou transportado por helicópteros médios, como os Sikorsky Black Hawk, ampliando as possibilidades de emprego em regiões onde o acesso terrestre é limitado.
Apesar de ser um produto recente, o BORAN está se consolidando como um produto de exportação truco, já tendo sido vendido para três países, sendo esses:
- Bangladesh: 18 adquiridos em 2023 e entregues no ano seguinte;
- Macedônia do Norte: 6 adquiridos em 2023 e entregues 2025; e
- Albânia: 6 adquiridos em julho de 2026, com entregas previstas para o próximo ano.
A MKE também vem promovendo o BORAN em outros mercados. Em 2025, o obuseiro participou de avaliações de tiro na Malásia, e, em 2026, foi apontado como candidato para atender a necessidades de artilharia de outros países.

PARA O BRASIL?
O Exército Brasileiro (EB) vem estudando a renovação de sua artilharia autorrebocada de 105 mm, com a perspectiva de substituir gradualmente os obuseiros M101 (assim como os turcos) e redistribuir os meios mais modernos conforme as necessidades operacionais. O projeto também busca fortalecer a capacidade de fabricação nacional, aproveitando a infraestrutura dos Arsenais de Guerra do Rio de Janeiro (AGR) e de São Paulo (AGSP).
Em agosto de 2024, foi lançada a Consulta Pública RFI/RFQ nº 03/2024, que prospectou o fornecimento mínimo de 54 obuseiros de 105 mm. Em junho de 2025, foi aprovada a Diretriz de Iniciação do Projeto de Fabricação Nacional do Obuseiro 105 mm AR. No ano seguinte, a Diretoria de Fabricação (DF) continuava tratando o tema como parte de um esforço mais amplo de fortalecimento da Base Industrial de Defesa.
A BAE Systems desponta como a favorita a essa contenda, em razão das tratativas para a fabricação sob licença do LIGHT GUN L119. A preferência por essa solução tem uma justificativa logística consistente: o EB já opera o L118 e possui experiência na manutenção, revitalização e nacionalização de seus componentes. Entretanto, conforme esclarecido pelo diretor de Fabricação do Exército em entrevista publicada em janeiro de 2026, a definição do modelo e da modalidade de obtenção ainda dependia da decisão institucional.
Nesse contexto, o BORAN merece ser considerado como uma alternativa adicional, e não como um sistema já selecionado ou formalmente anunciado como concorrente no processo brasileiro.

Sua principal vantagem seria a possibilidade de negociar com a MKE um pacote que contemplasse fabricação sob licença, transferência de conhecimento industrial, nacionalização progressiva de componentes e participação dos arsenais e de empresas brasileiras. Seu peso reduzido, a capacidade de transporte aéreo e o sistema digital de direção de tiro também poderiam atender particularmente bem às necessidades das brigadas leves e de selva.
Há, porém, um ponto estratégico que merece investigação específica: a dependência de autorizações estrangeiras para componentes, tecnologias e futuras modificações.
A regulamentação norte-americana ITAR (International Traffic in Arms Regulations) pode impor restrições à transferência, reexportação ou utilização de artigos e tecnologias de defesa de origem norte-americana. A BAFA (Bundesamt für Wirtschaft und Ausfuhrkontrolle), por sua vez, é a autoridade alemã responsável por determinadas autorizações de exportação e controle de bens. E ainda não ficou claro se o LIGHT GUN oferecido ao Brasil estaria sujeito a algumas dessas restrições, pois ele é adotado (e foi fabricado) pelas Forças Armadas do Estados Unidos.

A eventual escolha do BORAN poderia reduzir determinadas dependências, desde que a configuração contratada não incorporasse componentes ou tecnologias sujeitos a essas restrições e que os direitos de fabricação, manutenção, modificação e reexportação fossem expressamente negociados. Essa avaliação deveria abranger também a propriedade intelectual, o acesso aos desenhos técnicos, a disponibilidade de peças, a fabricação do tubo e dos componentes do sistema de recuo, a integração de equipamentos nacionais e a autonomia para desenvolver ou adaptar munições compatíveis.
| OBUSEIRO | BORAN | LIGHT GUN L119 |
| Diâmetro e calibre | 105mm/L30 | 105mm/L30 |
| Peso aproximado | 1.745 kg | 1.860 kg |
| Alcance máximo (munição M1) | 17 km | 11,4 km |
| Alcance máximo (munição RAP) | 21 km | 18 km |
| Elevação do tubo | −3° a +70° | −5,5° a +70° |
| Cadência de tiro máxima | Até 12 tiros/minuto | Cerca de 6–8 tiros/minuto |
| Cadência de tiro sustentada | 6 tiros/minuto | 3 tiros/minuto |
| Tempo de entrada de posição | Cerca de 1 min (a partir de um estado desdobrado) | Cerca de 1 min (a partir de um estado desdobrado) |
Informações disponibilizadas em materiais publicitários (forders) dos fabricantes
Apesar da tabela acima, a comparação entre o BORAN e o LIGHT GUN, ou outro obuseiro, não se resume a determinar qual peça é mais leve ou apresenta maior cadência máxima. Além disso, essa comparação tem interesse adicional: a eventual escolha de um novo obuseiro autorrebocado de 105 mm envolve não apenas desempenho e preço, mas também transferência de tecnologia, participação da indústria nacional, autonomia de manutenção e liberdade para empregar e reexportar o sistema dentro das condições contratuais aplicáveis.
Mais do que simplesmente adquirir um novo obuseiro, o desafio brasileiro é transformar a renovação da artilharia em uma oportunidade de ampliar o domínio tecnológico e a soberania logística do país.
