Paulo Bastos, direto do front

O Exército da Turquia voltou a demonstrar suas capacidades de combate e o avanço de sua indústria de defesa durante o ATEŞ SERBEST 2026, atividade de demonstração de poder de fogo das Forças Armadas da Turquia, realizada em 13 de outubro, na área de instrução e tiro General Nahit Şenoğul, em Polatlı, província de Ancara. O evento reuniu meios das Forças Terrestres, Navais e Aéreas, além do Comando de Forças Especiais, combinando exercícios de tiro real com uma exposição de armamentos, viaturas e sistemas tecnológicos.
Mais do que uma demonstração de equipamentos, a atividade evidenciou a importância atribuída por Ancara à integração entre diferentes forças, ao emprego de sistemas não tripulados e à crescente incorporação de tecnologias nacionais de precisão, guerra eletrônica e defesa antiaérea.
O ATEŞ SERBEST (expressão que pode ser traduzida como “FOGO Á VONTADE”) foi lançado em 2014 e tornou-se uma importante atividade de instrução e demonstração das Forças Armadas turcas. Seu propósito é apresentar a capacidade dos armamentos em serviço, verificar seus efeitos sobre os alvos e aprimorar a coordenação do apoio de fogo entre diferentes componentes militares. A edição de 2026 teve atividades realizadas entre 1º de setembro e 13 de outubro, com o ultimo dia reservado à demonstração para observadores convidados.



A edição deste ano ganhou destaque pelo número de sistemas empregados pela primeira vez. Segundo informações divulgadas pela imprensa turca, foram expostos 104 armamentos e sistemas, dos quais 93 participaram das atividades de tiro. Ao todo, 53 armas e sistemas foram empregados pela primeira vez no exercício, incluindo novas soluções não tripuladas, recursos de inteligência artificial e armamentos de energia dirigida.
O dia de observadores foi acompanhado pelo ministro da Defesa Nacional da Turquia, Yaşar Güler, e pelo chefe do Estado-Maior turco, general Selçuk Bayraktaroğlu.
Também estiveram presentes o chefe do Estado-Maior do Azerbaijão, general Kerim Veliyev; o comandante das Forças Terrestres turcas, general Metin Tokel; o comandante da Força Aérea, general Rafet Dalkıran; o comandante das Forças Terrestres do Catar, major-general Jassim Bin Ali Al Attiyah; e o vice-ministro da Defesa Nacional, Bilal Durdalı.
Em seu pronunciamento, Yaşar Güler ressaltou que a capacidade militar não depende apenas da tecnologia disponível, mas também da preparação dos militares, da coordenação entre unidades e da aptidão para empregar os sistemas no momento adequado. A declaração sintetizou o objetivo central da atividade: demonstrar o poder de fogo como resultado da integração entre pessoal, doutrina, treinamento e equipamentos.



MEIOS EMPREGADOS E PRINCIPAIS NOVIDADES
A demonstração reuniu armamentos terrestres, aeronaves de combate, helicópteros de ataque, sistemas de artilharia, armas leves e plataformas não tripuladas. Entre os meios destacados pela cobertura jornalística estavam caças F-16, helicópteros T129 ATAK, obuseiros autopropulsados FIRTINA de 155 mm e obuseiros leves BORAN de 105 mm.
Um dos aspectos mais relevantes foi a demonstração de munições e aeronaves não tripuladas em cenários de emprego coordenado. O destaque coube à munição de ataque SİVRİSİNEK, desenvolvida pela Baykar, que demonstrou capacidade de voo autônomo em enxame. Segundo Haluk Bayraktar, diretor-geral da empresa, 20 munições voaram em formação autônoma e dez se separaram do grupo para atingir seus alvos com precisão.
Outros destaques foram:
- Sistemas não tripulados: emprego dos sistemas KARGU, BOYGA e SİVRİSİNEK, incluindo demonstrações de autonomia e coordenação de missões;
- AKINCI e munições de precisão: o Bayraktar AKINCI realizou demonstrações com munições guiadas TOLUN-P, desenvolvidas pela ASELSAN;
- KEMANKEŞ: munições de ataque lançadas a partir do Bayraktar TB2 também integraram as atividades;
- ALKA: o sistema de energia dirigida da ASELSAN demonstrou sua capacidade contra drones, enquanto a imprensa também destacou a atuação de sistemas laser contra alvos aéreos não tripulados; e
- Inteligência artificial: recursos de planejamento de alvos foram incorporados às demonstrações, refletindo a crescente importância da automação no ciclo de detecção, decisão e engajamento.
A combinação de sistemas tripulados, munições inteligentes, enxames autônomos e armas de energia dirigida demonstrou a direção seguida pela Turquia no desenvolvimento de capacidades de combate conectadas e de maior precisão.



EXPOSIÇÃO DE ARMAMENTOS
Paralela às demonstrações de tiro, a exposição estática reuniu equipamentos das Forças Armadas e soluções desenvolvidas pela indústria de defesa turca. O espaço permitiu observar não apenas armamentos já incorporados, mas também projetos destinados a ampliar a autonomia tecnológica do país.
Entre os destaques, a ASELSAN apresentou componentes da arquitetura de defesa antiaérea em camadas ÇELİKKUBBE, incluindo o sistema de canhões antiaéreos KORKUT, o sistema laser GÖKBERK e o sistema eletromagnético de alta potência EJDERHA, concebidos para enfrentar diferentes categorias de ameaças aéreas, inclusive drones. Também estiveram presentes radares, sistemas de guerra eletrônica e soluções de comando e controle.



A MKE (Makine ve Kimya Endüstrisi) apresentou uma variedade de equipamentos e armamentos, com destaque para:
- DAĞHAN: viatura blindada sobre lagartas com propulsão híbrida;
- ALPAY-2: sistema não tripulado destinado à abertura de corredores em campos minados;
- KÖSTEBEK: sistema de detecção e imageamento de explosivos enterrados, baseado em tecnologia de micro-ondas;
- DENİZHAN: canhão naval de desenvolvimento nacional;
- TOLGA: sistema de defesa antiaérea de curto alcance, que incorpora soluções destinadas ao combate a drones; e
- MPT-76 MH: versão da família de fuzis nacionais MPT-76;
A demonstração do TOLGA foi particularmente relevante: o sistema laser associado à solução de defesa antiaérea destruiu um drone a aproximadamente 760 metros. A atividade também contou com obuseiros FIRTINA e BORAN, armamentos individuais e munições de diferentes calibres.



O TÜBİTAK, organismo nacional de pesquisa científica e tecnológica, apresentou sistemas de detecção de drones, sensores de minas, equipamentos de guerra eletrônica e comunicações seguras. Seu instituto de pesquisa em defesa, o TÜBİTAK SAGE, levou ainda mísseis ar-ar GÖKHAN, GÖKDOĞAN e BOZDOĞAN, além de kits de guiamento e munições para aeronaves não tripuladas.
O ATEŞ SERBEST 2026 confirmou a importância que a Turquia atribui à demonstração integrada de suas capacidades militares e ao desenvolvimento de uma base industrial capaz de fornecer armamentos, sensores, sistemas de comando e munições de precisão. A presença simultânea de equipamentos em serviço e de novas soluções tecnológicas permitiu observar a evolução de diferentes segmentos da indústria nacional.



Mais do que o volume de armamentos apresentados, o aspecto mais significativo foi a convergência entre sistemas não tripulados, inteligência artificial, guerra eletrônica, defesa antiaérea e armas de energia dirigida. Essa combinação aponta para um modelo de combate no qual a capacidade de detectar, compartilhar informações e engajar alvos de maneira coordenada assume importância crescente, uma tendência com implicações diretas para os programas de modernização das forças terrestres e para as oportunidades de cooperação internacional no setor de defesa.

| N.A.: A Revista Tecnologia & Defesa gostaria de expressar seus agradecimentos ao Ministério da Defesa da Turquia pelo convite e a mídia parceira TurDef por toda ajuda prestada |
Fotos: Paulo Bastos e Aselsan