A Boeing foi escolhida pela Marinha dos Estados Unidos (USN) para desenvolver e produzir seu futuro caça de sexta geração, o F/A-XX. O anúncio, realizado na terça-feira (29) pelo Departamento de Guerra e a USN, encerra uma disputa que envolvia a Northrop Grumman e dá início à fase de desenvolvimento pleno do novo avião embarcado.
O contrato é avaliado em mais de US$ 20 bilhões e inclui o desenvolvimento do F/A-XX e a produção de múltiplas aeronaves de teste destinadas a ensaios em solo, avaliação de aeronavegabilidade e integração de sistemas e armamentos. Os detalhes técnicos e programáticos do projeto permanecem classificados.
O novo caça deverá começar a entrar na frota na década de 2030, inicialmente complementando e posteriormente substituindo os F/A-18E/F Super Hornet. A aeronave também deverá assumir parte das funções hoje desempenhadas pelo EA-18G Growler à medida que a futura ala aérea embarcada for reorganizada. O F/A-XX operará ao lado do F-35C Lightning II e de uma nova geração de aeronaves não tripuladas.
6th-gen edge.
Thank you, @USNavy, for continuing our partnership to design, build and deliver your F/A-XX aircraft. We’re honored to produce the 6th-generation fighter that will revolutionize advancements in naval aviation to maintain U.S. carrier air superiority.
Release:… pic.twitter.com/LaGUxgefSm
— Boeing Defense (@BoeingDefense) September 29, 2026
Alcance como prioridade
Um dos principais requisitos do programa é ampliar o alcance operacional da ala aérea dos porta-aviões norte-americanos. A necessidade ganhou importância à medida que a distância entre os porta-aviões e os alvos potenciais aumentou, exigindo aeronaves capazes de permanecer mais tempo em voo e atuar a maiores distâncias.
O desafio será conciliar esse requisito com as limitações impostas pelas operações embarcadas. Diferentemente de um caça baseado em terra, o F/A-XX precisará ser dimensionado para operar a partir de porta-aviões, incluindo lançamento por catapulta e recuperação com auxílio de cabos de parada.
Segundo o analista naval Bryan Clark, do Hudson Institute, o alcance será uma das características mais importantes do novo caça. Para isso, a Marinha precisa se esforçar para equilibrar autonomia, eficiência aerodinâmica e dimensões da aeronave com as restrições de espaço e peso dos porta-aviões.

A aeronave também deverá incorporar baixa observabilidade, sistemas avançados de missão e uma arquitetura capaz de integrar diferentes sensores, armas e plataformas. A Boeing afirma que o programa envolverá uma arquitetura aberta de sistemas de missão e maior capacidade operacional, mas os detalhes permanecem sob sigilo.
Caça e drones
O F/A-XX não está sendo desenvolvido como uma plataforma isolada. A Marinha pretende que o novo avião faça parte de uma arquitetura mais ampla de combate aéreo, na qual aeronaves tripuladas trabalharão em conjunto com drones.
O conceito inclui os chamados Collaborative Combat Aircraft (CCA), aeronaves não tripuladas capazes de executar missões em conjunto com caças tripulados. A ideia é ampliar a quantidade de sensores, armas e pontos de presença disponíveis no espaço de combate, permitindo que o piloto coordene sistemas distribuídos além da própria aeronave.

A Marinha já possui contratos com General Atomics, Boeing, Anduril e Northrop Grumman para o desenvolvimento de seus CCA, além de um contrato com a Lockheed Martin para um sistema de controle em solo. O F/A-XX deverá ser integrado a essa arquitetura e assumir funções de comando e coordenação das aeronaves não tripuladas.
O futuro conjunto também incluirá o MQ-25 Stingray, aeronave não tripulada da Boeing destinada principalmente ao reabastecimento em voo. O sistema deverá ampliar o alcance das aeronaves embarcadas e liberar caças que hoje precisam cumprir parte das missões de reabastecimento.
NGAD
A escolha do F/A-XX tem uma consequência particularmente importante para a indústria norte-americana. Em março de 2025, a Boeing havia sido selecionada para desenvolver o F-47, futuro caça de sexta geração da Força Aérea dos EUA.
Com a vitória na concorrência naval, a empresa passa a comandar os dois principais programas norte-americanos de caças tripulados de sexta geração. A situação representa uma mudança significativa no equilíbrio da indústria de aviação de combate dos Estados Unidos, especialmente porque a Boeing vinha enfrentando incertezas sobre a continuidade de suas linhas de produção de caças.
Apesar da proximidade temporal e de compartilharem conceitos associados à sexta geração, F-47 e F/A-XX serão aeronaves distintas. O primeiro é desenvolvido para a Força Aérea, enquanto o segundo terá requisitos específicos para operações embarcadas.

A decisão também marca um retorno a uma abordagem na qual Marinha e Força Aérea desenvolvem caças específicos para suas necessidades. O F-35 representou uma estratégia diferente, com uma mesma família de aeronaves produzida em versões adaptadas para diferentes forças.
A Boeing afirma que vinha se preparando para desenvolver os dois programas simultaneamente e realizou investimentos em instalações e capacidade industrial para sustentar essa estratégia. A empresa está ampliando sua estrutura em St. Louis, no Missouri, onde será concentrada parte importante da produção do F/A-XX.
Uma nova ala aérea
A chegada do F/A-XX deverá ocorrer dentro de uma transformação mais ampla da aviação embarcada norte-americana. O futuro grupo de combate terá F-35C, F/A-XX, MQ-25 e os CCA operando de forma integrada, com maior dependência de redes de dados, sensores distribuídos e sistemas não tripulados.
A própria Marinha passou a tratar o F/A-XX como parte de uma “família de sistemas”, e não apenas como um substituto direto do Super Hornet. A aeronave deverá ampliar o alcance da ala aérea, penetrar em ambientes de alta ameaça e coordenar plataformas não tripuladas durante as missões.

O contrato de mais de US$ 20 bilhões representa apenas a fase de desenvolvimento em escala plena e os primeiros exemplares de teste. O valor total do programa será muito maior caso a Marinha avance para a produção em série e mantenha uma frota numerosa durante décadas.
A Boeing terá agora de transformar um projeto ainda protegido por elevado grau de sigilo em uma aeronave embarcada operacional. O primeiro passo será a construção dos exemplares de teste e a validação de seus sistemas, enquanto a Marinha prepara uma nova geração de ala aérea na qual caças tripulados e aeronaves não tripuladas deverão operar como parte de uma mesma arquitetura de combate.