Quase 27 anos depois de realizar o último voo de um Blackbird, a NASA estaria estudando a possibilidade e mesmo realizando movimentos para colocar novamente no ar um Lockheed SR-71. A hipótese ganhou força nas últimas semanas após a agência retirar uma das aeronaves de exposição e, segundo uma apuração do Aviation Week, consultar antigos engenheiros e especialistas que trabalharam com o modelo para estudar a viabilidade de um eventual retorno às operações.
A aeronave em questão é o SR-71A NASA 844, originalmente registrado como 61-7980. O avião foi entregue à NASA no início dos anos 1990 e passou a ser empregado como plataforma de pesquisas em alta velocidade e altitude, e não mais em missões de reconhecimento. Em 9 de outubro de 1999, o 844 realizou o último voo de qualquer Blackbird, durante um evento na Base Aérea de Edwards, atingindo Mach 3,21 e 80.100 pés de altitude.
Desde então, o avião permaneceu preservado no antigo Dryden Flight Research Center, atual Armstrong Flight Research Center, na Califórnia. A aeronave ocupou por mais de duas décadas uma posição de destaque nas instalações da NASA, até ser retirada do local e levada para um hangar para inspeções. Imagens de satélite indicaram que o SR-71 já não estava em sua posição habitual desde pelo menos maio deste ano.

A retirada, isoladamente, não seria suficiente para indicar uma tentativa de retorno ao voo. A situação mudou, porém, quando o Aviation Week revelou que a NASA teria procurado antigos integrantes do programa SR-71, incluindo engenheiros de ensaios e profissionais familiarizados com a manutenção da aeronave. Segundo a publicação, alguns deles chegaram a receber propostas para participar de um possível esforço de reativação.
Um avião fora do comum
O SR-71 nasceu dentro do programa de aeronaves de reconhecimento de alta velocidade da Lockheed, desenvolvido pela equipe de Clarence “Kelly” Johnson na Skunk Works. Derivado da família de aeronaves Blackbird, que também inclui o jato da CIA A-12 e o caça-interceptador YF-12, o modelo foi projetado para voar acima de Mach 3 (3x a velocidade do som) e a mais de 80 mil pés de altitude (cerca de 24,3 km).
O primeiro voo do SR-71 ocorreu em 22 de dezembro de 1964. Construído predominantemente em titânio, o avião utilizava sua elevada velocidade e altitude como principais mecanismos de sobrevivência. Em operação, podia superar, com facilidade, os 3600 km/h e atingir aproximadamente 85 mil pés.
A Força Aérea dos Estados Unidos empregou o Blackbird durante a Guerra Fria em missões de reconhecimento estratégico. O avião tornou-se conhecido pela capacidade de penetrar áreas altamente defendidas sem depender de armamento defensivo convencional, utilizando furtividade, velocidade, altitude e desempenho para evitar ameaças.

A NASA, por sua vez, encontrou no SR-71 uma plataforma difícil de substituir. Durante os anos 1990, os Blackbirds da agência foram utilizados em pesquisas envolvendo aerodinâmica, propulsão, estruturas, materiais submetidos a altas temperaturas, instrumentação, estudos atmosféricos e caracterização de estrondos sônicos.
É justamente essa combinação que torna a possível retomada tão relevante. A NASA possui hoje aeronaves como o F-15 Eagle, o F/A-18 Hornet e o T-38 Talon para diferentes atividades de ensaio e treinamento, mas nenhuma delas reproduz o envelope de voo do SR-71. O Blackbird foi concebido para operar de maneira sustentada em condições que ainda hoje são excepcionais para uma aeronave tripulada.
O desafio de colocar um Blackbird novamente no ar
Se a NASA realmente decidir tentar devolver o 844 ao voo, a tarefa será muito mais complexa do que simplesmente realizar uma inspeção e preparar a aeronave para uma nova decolagem.
O SR-71 foi projetado para operar em um envelope de voo extremo. A estrutura, os sistemas de combustível, os motores e os equipamentos de bordo foram submetidos a condições de limite durante sua carreira. Depois de quase três décadas sem voar, seria necessário verificar praticamente todos os aspectos da aeronave antes de considerar um retorno às operações.
Entre os desafios está o sistema propulsivo. O Blackbird utiliza dois Pratt & Whitney J58, motores concebidos especificamente para o regime de voo do avião e capazes de trabalhar em conjunto com o efeito de ramjet em velocidades elevadas. A operação também dependia do JP-7, combustível especialmente desenvolvido para os Blackbirds, com baixa volatilidade e características adequadas às temperaturas encontradas durante o voo supersônico de alta velocidade.

A própria natureza do SR-71 também impõe dificuldades adicionais. O avião apresentava vazamentos de combustível quando estava no solo, resultado das características de sua estrutura e das diferenças de temperatura entre o ambiente terrestre e as condições de voo. Durante a operação, o aquecimento aerodinâmico fazia com que a estrutura se expandisse e ajudasse a vedar os tanques.
O custo também seria um fator significativo. Segundo informações citadas pelo The Aviationist a partir do Aviation Week, uma avaliação realizada poucos anos após o último voo estimava em cerca de US$ 40 milhões a US$ 45 milhões o custo para reativar um SR-71. Quase 27 anos depois, a dimensão do valor seria ainda maior.
E se não for exatamente o SR-71?
Existe ainda outra possibilidade. A movimentação em torno do NASA 844 pode estar relacionada não apenas à tentativa de recuperar uma aeronave histórica, mas ao desenvolvimento de uma nova geração de aviões experimentais inspirados nas características do Blackbird.
Durante o All-In Summit, realizado em Los Angeles em setembro, o administrador da NASA, Jared Isaacman, apresentou uma imagem de uma aeronave de aparência semelhante ao SR-71 em uma apresentação intitulada “Rebuilding our X-plane portfolio”. Na ocasião, ele afirmou que a agência está reconstruindo sua frota de aeronaves experimentais e que pretende voltar a voar “tão alto e tão rápido” quanto em décadas anteriores, e ainda mais.
Quando um dos apresentadores identificou a silhueta como um SR-71, Isaacman respondeu: “Você tem certeza de que é um Blackbird?”, sem esclarecer o que a imagem representava e deixando o clima de mistério. A NASA também não confirmou que a silhueta corresponda a um projeto específico.
A ligação com o Blackbird, contudo, não surgiu apenas agora. Durante o EAA AirVenture, em julho, Isaacman citou o SR-71 ao falar sobre o histórico de aeronaves experimentais da NASA. Questionado sobre qual avião gostaria de pilotar e ainda não havia conseguido, respondeu imediatamente: “SR-71 Blackbird”. Quando perguntado se teria autoridade para trazer a aeronave de volta, sua resposta foi curta: “Isso é classificado.”
Por enquanto, a NASA mantém o assunto sob uma cortina de incerteza. A agência confirmou apenas que continua interessada em ampliar seu portfólio de aeronaves experimentais e explorar voos cada vez mais altos, rápidos e tecnologicamente ambiciosos, mas não revelou o que pretende fazer com o NASA 844.
Assim, existem pelo menos duas possibilidades em aberto: o retorno do próprio SR-71A ao voo ou o uso do avião como referência para uma nova aeronave experimental. Em ambos os casos, a movimentação em torno do Blackbird é significativa. Se a NASA realmente conseguir colocar novamente um SR-71 nos céus, o feito representará não apenas o retorno de uma das aeronaves mais extraordinárias da história da aviação, mas também a recuperação de uma plataforma de ensaios capaz de explorar um envelope de voo que poucas aeronaves posteriores conseguiram reproduzir.