Com o término do programa H-XBR, Helibras mira a produção nacional do H145

Nos próximos meses, a Helibras deve entregar o 47º e último helicóptero de transporte logístico e utilitário H225M para as Forças Armadas Brasileiras. O exemplar, de matrícula 8544, vai equipar a Força Aérea Brasileira (FAB), encerrando um contrato avaliado em 1,9 bilhão, assinado em 23 de dezembro de 2008 no âmbito do programa H-XBR. Foi o primeiro programa conjunto de aquisição do Ministério da Defesa (MD) para as Forças Armadas.

Em breve, a única fabricante de helicópteros do Hemisfério Sul, que coloca o Brasil no seleto grupo de apenas oito países que detêm essa capacidade, estará pronta para abrigar um próximo programa de grande envergadura, com o objetivo de atender aos mercados militar, civil e de segurança pública com uma linha de produção local.

A aposta da empresa, que tem sede na cidade mineira de Itajubá, está no H145, helicóptero bimotor a turbina que já ultrapassou 8,6 milhões de horas de voo e 2.200 aeronaves produzidas, considerando também as gerações anteriores do tipo.

Mais de 350 operadores em 70 países utilizam o H145 nas mais variadas missões e em diferentes ambientes operacionais. No Brasil, o tipo já é voado pelos segmentos executivo e de segurança pública, com destaque para a Polícia Militar da Bahia, cuja aeronave contou com a integração de uma centena de opcionais. Segundo Amaury Bastos, presidente da Helibras, esses itens incluem “câmera rebatida para ampliar o espaço com o piso para multimissão; proteções diversas, novos ganchos para fast rope; novos tipos de iluminação e câmeras mais potentes”.

O próximo capítulo

Para que a produção seja viabilizada, é necessária uma encomenda mínima de 50 H145 por parte do governo federal.

Os planos são repetir a mesma receita que deu certo com o contrato do H225M e que trouxe muitos benefícios para o Brasil. O H-XBR previu a entrega de 50 exemplares, sendo 16 para cada Força e mais dois destinados ao transporte presidencial. Nos anos mais recentes, o número foi reduzido para 47 aeronaves. Juntas, a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Marinha do Brasil (MB) converteram dois exemplares do H225M em 12 e 15 helicópteros H125 Esquilo, respectivamente, por meio do programa TH-X, que buscou a melhor aeronave para o treinamento e a formação de pilotos de asas rotativas, além do cumprimento de missões de transporte e utilitárias. O Exército Brasileiro (EB) trocou o seu exemplar pela ampliação do contrato de suporte logístico para a frota em operação.

No momento em que foi assinado, o contrato do H225M tinha seu encerramento previsto para 2016. Porém, atravessou vários governos e enfrentou sucessivas crises financeiras, que chegaram a congelar o programa, assim como outros projetos das Forças Armadas, por falta de verbas. O escopo do contrato incluiu acordos de transferência de tecnologia, compensação industrial e nacionalização de parte do desenvolvimento e da produção.

No Brasil, houve a contratação de mão de obra qualificada para atender ao programa, principalmente de engenheiros que desenvolveram soluções destinadas a cumprir os requisitos nacionais determinados pelas Forças Armadas. O projeto mais complexo foi o da versão de ataque naval utilizada pela MB, que integrou radar de busca de alvos, sistemas de missão dedicados e uma estação de controle operada por militares altamente especializados, além do suporte e da integração do míssil ar-superfície de longo alcance MBDA Exocet, um ativo estratégico para garantir a soberania das águas brasileiras mesmo a longas distâncias da costa.

Em Itajubá, houve a expansão da unidade fabril com a inauguração de um segundo hangar. Construído para atender aos mais modernos requisitos, o espaço totalizou 13 mil metros quadrados de área construída, além da ampliação do pátio de estacionamento de aeronaves em outros 14 mil metros quadrados.

João Paulo Moralez

É nessa nova área que a Helibras pretende instalar a linha do H145. O local ainda divide espaço com a linha de produção do H125, com aproximadamente seis exemplares do programa TH-X atualmente em produção, dos quais oito já foram entregues.

Segundo Bastos, “desde essa transferência de tecnologia, nós expandimos a fábrica em 200%. Esse hangar onde nós estamos hoje é fruto do projeto H-XBR. Nós também expandimos a parte de reparos. Então, toda a parte de reparos de conjuntos dinâmicos é feita em Itajubá, com elevado grau de complexidade. Somos os únicos na América Latina com essa capacidade específica para o H225M. Aqui são feitos a desmontagem da caixa, a verificação de cada engrenagem, a remontagem, testes e entrega para o operador”.

Ministério da Defesa

A encomenda de 50 exemplares do H145, incluindo a abertura da linha de produção no país, pode ser feita pelo MD. A divisão dos exemplares entre as três Forças, entretanto, não seria necessariamente igualitária, uma vez que cada uma possui necessidades e demandas específicas.

Em 9 de setembro de 2025, durante sessão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado, o Exército Brasileiro (EB) apresentou um plano para adquirir entre 10 e 12 H145, caso fossem aprovados novos recursos para as Forças Armadas, especialmente por meio do orçamento mínimo, que garantiria maior previsibilidade aos investimentos em Defesa. Atualmente, o número atualizado se aproxima de 19 exemplares.

Na época, a Aviação do Exército (AvEx), consultada pela revista Tecnologia & Defesa, informou que a “possível aquisição da aeronave H145M está sendo tratada no âmbito do Ministério da Defesa, por meio de uma proposta de acordo ‘Gov to Gov’ entre Brasil e França caso a iniciativa prospere. Assim, a AvEx não participou diretamente do processo de planejamento inicial e escolha de modelo.

A AvEx visualiza o emprego da nova aeronave em substituição aos HA-1A Fennec das OM operacionais (1º e 3º BAvEx), sendo destinada, portanto, a cumprir o papel de aeronave multimissão com capacidade de ataque leve. A AvEx intenciona que o sistema de armas que equipará o helicóptero seja dotado de metralhadora, canhão 20mm, foguete guiado e míssil, além de Sistemas de Autoproteção de Guerra Eletrônica (APGE).”

Atualmente, as frotas de Fennec e Pantera modernizados já foram totalmente entregues pela Helibras ao EB. A Força também desenvolveu o programa Sistema de Armamento Axial e Imageamento para Helicóptero (SiAAIH) para essas aeronaves, contemplando o emprego de mísseis guiados, sensores para aquisição de alvos e capacetes com mira montada.

O próprio H145 pode ser integrado a uma série de sensores e armamentos modernos para cumprir missões operacionais em ambientes hostis. Por ser bimotor, oferece maior segurança e pode proporcionar maior poder de fogo em comparação ao Fennec, além de incorporar tecnologias mais modernas.

Em 2010, a Marinha do Brasil (MB) deu início ao Projeto UHP (Helicóptero de Emprego Geral de Pequeno Porte), no qual foram estudados modelos como o Bell 429, o Leonardo AW109 Power, o EC635 (atual H135) e o EC145 (atual H145), com uma demanda inicial de aproximadamente oito exemplares. A Aviação Naval possui grande capilaridade em todo o território nacional e tem nos helicópteros a espinha dorsal de suas operações aéreas.

Recentemente, a FAB assinou um contrato para a aquisição de 11 exemplares usados do Black Hawk, além da modernização de 13 aeronaves que já fazem parte do seu acervo. Uma eventual compra do H145 poderia atender, entre outras, às missões de transporte executivo e logístico, equipando outros esquadrões operacionais.

Sgt. Müller Marin / FAB

A Airbus Helicopters já definiu a implantação no Brasil da produção de parte das cablagens do H145, como forma de ampliar a cadeia global de fornecedores da empresa.

“Nós estamos agora num projeto de fazer cablagem do H145 aqui no Brasil. Já foi decidido, vamos começar em 2027. Assim como fazemos os reparos dos conjuntos dinâmicos do H125, do Dauphin e do H225, faremos também do H145 com a implantação da linha de produção”, finalizou Bastos.

Na mesma sessão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado, o EB comentou a possibilidade de receber os primeiros helicópteros em 2028, caso haja a aprovação dos recursos necessários.

Por outro lado, de acordo com notícia da Agência Gov publicada em 3 de julho de 2025, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Ministério da Europa e dos Assuntos Exteriores da França (MEAEF) manifestaram a intenção de transformar a Helibras em um polo de produção e exportação do H145.

Os dois países assinaram uma carta de intenções após reunião, em Brasília, entre o ministro Geraldo Alckmin (MDIC) e o ministro Laurent Saint-Martin (MEAEF). Segundo a notícia, está previsto um investimento de cerca de R$ 1 bilhão na produção do H145 no Brasil, com a fabricação de até 200 unidades ao longo dos próximos 15 anos, destinadas aos mercados nacional e internacional. Cada helicóptero tem valor de mercado estimado em US$ 15 milhões.

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