Luis Manuel Costa Mendez (*)
Em 1839, o escritor e político inglês Edward Bulwer-Lytton levou ao palco a peça Richelieu; ou a Conspiração e pôs na boca do cardeal francês o verso que o mundo jamais esqueceria: “sob o domínio de homens verdadeiramente grandes, a caneta é mais poderosa que a espada”. A intuição é antiga e ecoa das Escrituras aos moralistas, mas a fórmula é dele. Convém, porém, reparar na cláusula que o uso corrente amputou: a caneta só vence a espada quando empunhada por estadistas à altura da tarefa. Guardemos essa condição, pois ela fará falta ao final deste texto.
O mundo contemporâneo decidiu testar a máxima pelo lado da espada. A ordem internacional baseada em regras e instituições multilaterais se esfarela diante de nossos olhos, dando lugar a uma competição crua entre potências que não hesitam em recorrer à coerção e à força. Não por acaso, o instituto sueco SIPRI contabilizou em 2025 um gasto militar global de US$ 2,89 trilhões: décimo primeiro ano consecutivo de alta, maior valor da série histórica, cerca de 2,5% de tudo o que a humanidade produz.
A Europa elevou suas despesas em 14% num único ano, a OTAN comprometeu-se a alcançar 5% do PIB até 2035, e sanções, tarifas, chips e minerais críticos converteram-se em armas de uma guerra que ainda não ousa dizer seu verdadeiro nome. A Economia Política Internacional ensina que a estrutura de segurança sustenta todas as demais: produção, finanças e conhecimento. Quem não provê a primeira negocia as outras de joelhos.

E o Brasil? A velha lição de Friedrich List, para quem o poder de produzir importa mais do que a riqueza em si, jamais encontrou ouvidos por aqui quando o assunto é Defesa. Sem guerras existenciais desde o século XIX, escapamos da forja que, na célebre síntese de Charles Tilly, fez os Estados modernos, e nunca convertemos a Defesa em projeto nacional. A Base Industrial de Defesa viveu um lampejo de glória nos anos 1980, quando Engesa e Avibras exportavam blindados e foguetes para meio mundo, e depois foi abandonada à própria sorte pelo Estado brasileiro. Hoje destinamos cerca de 1% do PIB à pasta, aproximadamente três quartos desse orçamento evaporam em pessoal, entre ativos, inativos e pensionistas, e o investimento patina há uma década nos mesmos valores nominais.
Nossa resposta ao rearmamento alheio tem sido caligráfica. Desde 1996 acumulamos documentos exemplares: a Política Nacional de Defesa, a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional, todos revisados a cada quatro anos por exigência legal. Os textos acertam diagnósticos, elegem como estratégicos os setores nuclear, cibernético e espacial e proclamam a indústria de defesa prioridade nacional.
E então? A versão enviada ao Congresso em 2020 só foi aprovada em maio de 2024, quando a atualização seguinte já batia à porta; esta, por sua vez, apenas atravessou o Senado em meados de 2025. Um ciclo estratégico inteiro consumido em marasmo deliberativo. Enquanto isso, cronogramas de programas estruturantes estouravam e a Avibras, fabricante do sistema Astros, atravessava uma greve de quase 1300 dias para só voltar a operar em maio de 2026, resgatada por um aporte privado de R$ 300 milhões articulado por seus credores, não por política de Estado. Planejamento sem execução não é estratégia: é literatura fantasiosa.

O paradoxo é que nunca se falou tanto em Defesa no Brasil. A Nova Indústria Brasil elevou as tecnologias de soberania e defesa à condição de missão da política industrial. Multiplicam-se discursos sobre a Amazônia, o Atlântico Sul e a autonomia estratégica, enquanto a PEC 55/2023, que fixaria um piso de 2% do PIB para o setor, segue estacionada no Congresso. Com o medo como mote, repete-se em todos os púlpitos eleitoreiros que o Brasil precisa fechar seus “gaps” militares em relação às grandes potências, mas a retórica morre na porta do empenho orçamentário. Retórica sem ação comporta-se como moeda sem lastro: cada nova emissão vale menos.
Aqui chegamos à parte incômoda. Os gargalos do setor têm nome, sala e crachá. Civis e militares ocupam há anos, por vezes décadas, as mesmas cadeiras em ministérios, comandos, agências, comissões parlamentares e entidades de classe. Conhecem cada nó e não o desatam. Não construíram financiamento e garantias de exportação à altura, enquanto outros Estados periféricos conquistam mercados com crédito estatal agressivo. Não abriram novos mercados. Não firmaram parcerias comerciais relevantes. E, pior, não formularam política séria de emprego e retenção de talentos: engenheiros lapidados a peso de ouro no ITA e no IME migram para bancos, “big techs” e para o exterior sem que ninguém se mova. Cooptar cérebros de fora, como fazem sem cerimônia Estados Unidos e China, sequer entra em pauta. Cui bono? A pergunta que Susan Strange transformou no coração da Economia Política Internacional tem aqui resposta constrangedora: quem lucra com a deliberação perpétua é precisamente quem vive dela.

Porque deliberar custa muito caro. Seminários, grupos de trabalho, comitês interministeriais, viagens internacionais, consultorias com “think tanks”, revisões de documentos que revisam documentos. Não adianta despejar largas somas de capital em deliberação sem ação real: o dinheiro queima no rito enquanto linhas de produção esfriam, laboratórios definham e a fila dos mercados externos anda para os concorrentes. Se uma fração do que se gasta debatendo virasse encomenda plurianual firme, bolsa de engenharia ou garantia de crédito ao exportador, as ações que os documentos norteadores da Defesa prometem enfim sairiam do papel.
É preciso conclamar as lideranças brasileiras, fardadas e civis, de todos os espectros, a trocar a liturgia do papel pela materialidade das fábricas, dos laboratórios e dos contratos comerciais. E volto, então, a Bulwer-Lytton e à cláusula amputada. No verso original, a caneta só supera a espada sob o domínio de homens verdadeiramente grandes. Richelieu podia dispensar o aço porque sua assinatura mobilizava exércitos, arsenais e tesouros. As nossas assinaturas mobilizam grupos de trabalho e congressos acadêmicos. Num mundo que afia espadas, o Brasil apostou que bastaria escrever sobre elas. Fica a inquietação: quando a História cobrar a fatura, e ela sempre cobra, descobriremos com qual caneta se detém uma espada?
(*) Luis Manuel Costa Mendez é doutorando em Economia Política Internacional (UFRJ), mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança (UFF) e especialista em Altos Estudos de Política e Estratégia (ESG).
Uma resposta
Muito bom texto. Realmente é muito blábláblá e pouca ação!