Talvez, pelo menos no século 21, nunca tanto esforço e dinheiro tenham sido investidos para combater uma ameaça como na guerra contra os drones. Isso porque, até o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, existiam poucas ferramentas capazes de enfrentar essa ameaça. Nenhuma era, de fato, plenamente eficiente e, conforme o conflito avançou, uma intensa luz amarela se acendeu para muitas forças armadas.
A indústria, a academia e os governos, especialmente ao longo das últimas décadas, desenvolveram seus sistemas de armas para sobrepujar as mais sofisticadas ameaças possíveis em um teatro de operações. Mísseis cada vez mais velozes e manobráveis; furtividade aplicada a aeronaves, plataformas terrestres e navais; comunicações cada vez mais avançadas; e um desenvolvimento sem precedentes no campo da guerra eletrônica. Medidas e contramedidas foram aperfeiçoadas, sempre orientadas para enfrentar o que havia de mais sofisticado.
Mas bastou o conflito deflagrado na terceira década do século 21 para demonstrar que mesmo os exércitos mais preparados não estavam prontos para combater justamente as ameaças de baixa tecnologia, fáceis de produzir, economicamente viáveis para praticamente qualquer orçamento e, ao mesmo tempo, altamente letais e destrutivas.
As soluções mais simples são, muitas vezes, as que mais se destacam e fazem sucesso. E foi justamente na simplicidade que a Ucrânia encontrou uma forma de combater e frear o avanço da Rússia em seu território.
Enquanto, na fase inicial do conflito, Kiev apoiou sua defesa em sistemas convencionais e consagrados, o país percebeu que poderia infligir perdas consideráveis ao inimigo utilizando um armamento que não era a aposta mais óbvia: os drones das classes 0 e 1, segundo a classificação da OTAN, com peso máximo de decolagem de até 150 kg.
A Ucrânia adquiriu e recebeu por doação os eficazes e altamente letais drones turcos Baykar TB2. Apesar de suas inúmeras vantagens, o sistema depende de infraestrutura em solo, pista para decolagem convencional e possui um ciclo de reposição mais lento diante da intensa demanda do combate. Mais importante ainda, exige aportes consideráveis de recursos, difíceis de sustentar por períodos prolongados.
Mas, ao olhar para os drones leves, especialmente os FPV, utilizados originalmente por produtoras audiovisuais para captação de imagens ou por praticantes do esporte, a realidade mudou completamente.
Gastando pouco, centenas de milhares desses equipamentos estavam disponíveis no mercado comercial, eram fáceis de adquirir e estavam livres de embargos, justamente por se tratarem de produtos de uso civil.
Diante dessa nova realidade, os FPV espalharam-se rapidamente pelo campo de batalha. Empregando cargas explosivas produzidas artesanalmente, mas com relativo poder destrutivo, logo começaram a impor baixas às tropas russas. Em pouco tempo, foram adaptados para transportar granadas propulsadas por foguete (RPG), sendo empregados contra veículos leves, blindados, carros de combate e edificações. Com novas modificações, passaram a lançar munições incendiárias sobre pequenas áreas de floresta utilizadas como abrigo pelas tropas russas. O ápice dessa evolução foi o emprego como arma antiaérea, derrubando helicópteros em voo a baixa altura, além da adaptação de conceitos semelhantes para o emprego contra embarcações.
A demanda para sustentar esse emprego tático foi tamanha que, em 2024, o governo de Kiev estabeleceu a meta de operar um milhão desses drones. Para atingir esse objetivo, projetos desenvolvidos no próprio país passaram a ser produzidos pela população, que aderiu ao esforço de guerra. Adolescentes, donas de casa e idosos contribuíram com montagens relativamente simples, reunindo estruturas produzidas em impressoras 3D, placas eletrônicas, câmeras e motores elétricos adquiridos no mercado comercial.
O país não apenas alcançou essa meta, como a superou.
Ao empregar o drone em larga escala no campo de batalha, a Ucrânia impôs mais uma quebra de paradigma.
Em uma guerra convencional, centros de comando e controle, instalações de comunicações, quartéis, fábricas e bases aéreas figuram entre os alvos prioritários para enfraquecer a capacidade de combate de um país. Nesse caso, porém, a produção permaneceu pulverizada por diversas regiões, enquanto o alvo de maior interesse passou a ser o operador do drone, escondido em áreas de mata ou em locais de difícil acesso.
Diante desse cenário, ainda não existia uma doutrina consolidada para combater essas ameaças, tampouco formas de proteção realmente eficazes. A Rússia criou uma série de soluções mirabolantes, mas poucas produziram resultados práticos.
Mesmo quando a interferência eletrônica passou a limitar a operação dos drones, a Ucrânia incorporou recursos de inteligência artificial capazes de assumir a navegação terminal até o impacto contra o alvo em caso de perda da conexão com o operador.
Com uma arma que custa pouco mais de mil dólares, a Rússia passou a perder equipamentos avaliados em centenas de milhares ou até dezenas de milhões de dólares. E, justamente por ser um armamento barato, o fôlego da Ucrânia poderá se manter por muitos anos.
Atrás das linhas inimigas
Na fase inicial da guerra, os drones atacavam posições localizadas a apenas alguns quilômetros da linha de frente. Com o passar do tempo, o alcance foi ampliado para 150 km, depois 300 km, 500 km, 1.000 km e, por fim, ultrapassou os 1.500 km com o emprego de modelos de maior autonomia.
Moscou, São Petersburgo e muitas outras cidades, antes protegidas pela distância em relação ao campo de batalha, passaram a integrar a lista de alvos das forças ucranianas. Inicialmente, os ataques concentraram-se em objetivos militares, como estaleiros, fábricas e depósitos de munição. Em pouco tempo, porém, passaram a atingir infraestruturas críticas, como refinarias, portos e instalações de gás.
Foi nesse momento que a Ucrânia conseguiu arrastar, em maior medida, a opinião pública russa para dentro do conflito. Com o governo de Vladimir Putin controlando rigidamente o fluxo de informações, boa parte da população permanecia alheia tanto aos danos sofridos pelo próprio país quanto ao andamento da guerra.
Mas há situações que os meios de comunicação não conseguem ocultar. É impossível esconder um céu escurecido, em plena luz do dia, pela fumaça negra de instalações em chamas, assim como as restrições impostas à navegação e ao acesso da população ao litoral em razão da poluição causada pelos vazamentos de óleo de navios atingidos por drones navais.
Quando petroleiros foram afundados ou sofreram danos severos, o impacto chegou rapidamente ao cotidiano da população. A falta de combustível provocou filas intermináveis nos postos e levou ao racionamento. Vídeos publicados na internet mostraram pessoas tentando entender as razões daquela situação, enquanto outras discutiam ou até brigavam para furar filas e conseguir abastecer seus veículos.
A cartada mais recente da Ucrânia veio com os ataques aos centros logísticos da Wildberries, empresa equivalente ao Mercado Livre na Rússia. Diversos depósitos foram atingidos e incendiados, sem que houvesse uma resposta eficaz capaz de impedir as ações.
Os ataques contra a Wildberries parecem atender a dois objetivos. O primeiro é destruir suprimentos que estariam sendo ocultados e transportados para sustentar o esforço de guerra russo. O segundo, não menos importante, é demonstrar à população, mantida distante da realidade pelo controle estatal da informação, que a guerra chegou ao território russo e impõe perdas crescentes ao país.
Esses ataques aconteceram, e continuam acontecendo, sem que exista uma solução realmente eficiente para neutralizá-los, a não ser ao custo de consumir recursos vultosos e reduzir os estoques de mísseis antiaéreos que deveriam estar reservados para enfrentar alvos de alto valor estratégico.
Hoje, diversas soluções estão em desenvolvimento. Uma delas prevê o emprego do Super Tucano como plataforma de interceptação de drones. Outras apostam no aperfeiçoamento dos sistemas de guerra eletrônica. Talvez, mais uma vez, a resposta esteja em soluções simples e de baixo custo.
A conta continua sem fechar. Derrubar um drone de mil dólares com um míssil que custa centenas de milhares ainda parece uma solução economicamente insustentável. Talvez, mais uma vez, a resposta esteja em soluções simples e de baixo custo. Quem encontrará esse equilíbrio primeiro?