Os drones podem ser o futuro da aviação naval de ataque no Brasil

À medida que a frota de A-4 Skyhawk se aproxima do fim de sua vida operacional e permanece indefinida a escolha de seu sucessor, os drones despontam como potenciais responsáveis pelo cumprimento de suas missões.

A guerra naval está passando por sua maior transformação desde a introdução dos mísseis antinavio durante a Guerra Fria. Se durante décadas navios, submarinos e aeronaves tripuladas dominaram o ambiente marítimo, os conflitos recentes demonstram que uma nova capacidade está sendo vista como o futuro deste tipo de conflito: os sistemas aéreos não tripulados (SARP), conhecidos popularmente como “Drones”.

A guerra entre Rússia e Ucrânia vem demonstrando como sistemas não tripulados podem alterar profundamente o equilíbrio de forças. Nos mares Cáspio e Negro, a Ucrânia empregou drones aéreos para localizar, acompanhar e atacar navios russos, reduzindo significativamente a liberdade de ação da Frota do Mar Negro. Mesmo sem possuir uma marinha, Kiev conseguiu impor custos elevados a uma força naval muito superior por meio da integração entre inteligência, guerra eletrônica e sistemas não tripulados.

Os recentes ataques ucranianos de longa distância também demonstraram que drones podem alcançar alvos estratégicos a centenas de quilômetros de suas bases, ampliando o conceito tradicional de poder naval. A distância deixou de ser uma barreira para operações de esclarecimento, vigilância e ataque.

No caso específico da aviação naval de ataque, a utilização dos Bayraktar TB3 turcos no navio-aeródromo anfíbio TCG Anadolu (L-400), durante o exercício OTAN Steadfast Dart 2026, em fevereiro deste ano, comprovou e validou do “porta-drones” como uma opção real para os caros porta-aviões.

Essa inovação amplia significativamente o alcance dos grupos-tarefa navais, permitindo que navios obtenham consciência situacional muito além do horizonte, realizem missões de reconhecimento, designem alvos para mísseis antinavio de longo alcance e executem operações de guerra eletrônica e ataque naval de precisão, tudo isso sem expor aeronaves tripuladas e suas tripulações ao risco.

Para a Marinha do Brasil (MB), essa transformação não pode ser ignorada.

AF-1B Skyhawk sobrevoa a Fragata União (Marinha do Brasil/Divulgação)
Segundo fontes da MB, os Skyhawks operarão, no máximo, até 2030 (Foto: MB)

NO CASO DO BRASIL

O País possui uma área marítima superior a 5,7 milhões de quilômetros quadrados, conhecida como “Amazônia Azul”, onde estão concentradas plataformas do pré-sal, rotas comerciais estratégicas, cabos submarinos de comunicações e recursos naturais de enorme importância. E para controlar uma área tão vasta e importante apenas embarcações não são suficientes.

O emprego de aeronaves na MB não é recente, pois ela já emprega esses meios desde 1916, interrompido apenas entre 1941 (quando foi criada a Força Aérea Brasileira) e 1952 (quando foi criada a Diretoria Aeronáutica da Marinha), sendo utilizadas aeronaves de asa fixa e rotativa nas mais variadas funções.

Todavia, a desativação dos veteranos caças McDonnell Douglas A-4KU Skyhawk (designados AF-1 Falcão na MB), que poderão atingir o limite operacional já em 2030, coloca em xeque a própria existência do Primeiro Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1), atualmente o principal depositário da doutrina de aviação de caça naval do Brasil e que garante que a MB uma capacidade presente apenas nas marinhas mais sofisticadas do mundo. A importância dessa capacidade torna-se ainda mais evidente quando se observa a história da própria aviação militar brasileira, já que ela nasceu na Marinha.

Caso essa situação se torne extrema uma solução poderia ser a utilização de SARP de ataque naval, pois isso permitiria que fosse mantido sua capacidade operacional, seu legado e permitiria uma recuperação futura de seus caças, caso assim seja decidido.

Empregados a partir de bases terrestres ou embarcados em navios-aeródromo, como o NAM Atlântico (A140), esses sistemas poderiam permanecer por dezenas de horas sobre áreas de interesse, transmitindo imagens em tempo real, detectando embarcações suspeitas, identificando emissões eletromagnéticas inimigas, fornecendo informações precisas para a tomada de decisão e, principalmente, podendo dar combate a essas ameaças.

Outro aspecto importante é a integração com os futuros meios da Marinha.

A aquisição de um SARP de média altitude e longa permanência, como o Bayraktar TB3, permitiria criar uma capacidade permanente de vigilância marítima, complementando os helicópteros embarcados e as futuras aeronaves de patrulha marítima. Em operações anfíbias, esses sistemas forneceriam reconhecimento contínuo das praias de desembarque, identificação de posições inimigas e apoio às tropas em terra.

Além disso, SARP equipados com sensores de guerra eletrônica poderiam detectar radares inimigos, interceptar emissões de comunicações e contribuir para a construção da consciência situacional do comandante da força-tarefa antes mesmo do início de uma operação.

Navio-Aeródromo Multipropósito pode ser empregado como um “porta-drones” (Foto: MB)

O FATOR CUSTO

O emprego de SARP reduz significativamente os custos operacionais quando comparado ao uso contínuo de aeronaves tripuladas. Permite aumentar o tempo de permanência sobre a área de interesse, reduz riscos para as tripulações e amplia a disponibilidade operacional dos meios navais.

Diversas marinhas já compreenderam essa mudança. Estados Unidos, Turquia, Reino Unido, França, Itália, China e Índia aceleram investimentos em sistemas não tripulados embarcados e em operações integradas entre navios, aeronaves tripuladas e drones. A tendência é clara: o futuro da guerra naval será caracterizado pela atuação conjunta de plataformas tripuladas e não tripuladas.

Se analisarmos somente a capacidade operacional, um SARP, como o TB3 ou equivalentes, não seriam a melhor solução para a substituição de um caça naval como o Skyhawk, porém, devido a urgência da situação e as opções atuais do mercado, podem ser a única. E com isso não podemos cair em armadilhas como “Dilema da Ferrari”.

O SARP turco Bayraktar TB3  já demonstrou algumas possibilidades de emprego para os SARPs embarcados (Foto: Baykar)

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Uma resposta

  1. Na minha opinião, 12 M-346 FA na pior hipótese ou 12 Gripen E/F na melhor, baseados em terra para ataque a partir da costa (como o fazem os suecos) seria a melhor solução dentro do fator “levar defesa a sério”.

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