Gabriel Ribas
Em 22 de junho, data da redação deste artigo, a KNDS Deutschland entregou à Administração Sueca de Materiais de Defesa (Försvarets materielverk – FMV) o primeiro dos 110 carros de combate Stridsvagn 123A (Strv 123A) encomendados, uma atualização do Stridsvagn 122 (Strv 122), baseado na plataforma Leopard 2A5.
O Strv 122 foi encomendado em 1994 como substituto do famoso carro de combate sem torre Stridsvagn 103 (Strv 103), o lendário S-TANK. Embora fosse baseado no Leopard 2A5, apresentava diferenças significativas em relação aos demais modelos da família Leopard 2, incorporando todos os kits de blindagem desenvolvidos para o programa KWS II, que tinha como objetivo aumentar a capacidade de sobrevivência da plataforma.
Como resultado, o Strv 122 recebeu um conjunto robusto de blindagem adicional, cobrindo a frente do casco, a placa frontal superior, parte das laterais e o teto da torre, além de contar com revestimento antiestilhaços (“spall liner”) em seu interior. Outra diferença importante eram as saias laterais multicamadas de segunda geração, introduzidas inicialmente a partir do oitavo lote de produção dos Leopard 2A4.
MAIS PODER
A mudança mais notável da nova versão externamente é o canhão L55A1 da Rheinmetall, que substituiu o L44, utilizado desde 1979 nos primeiros lotes do Leopard 2. O L55A1 é o canhão de 120mm mais avançado e potente da Rheinmetall, tendo entrado em serviço pela primeira vez no Leopard 2A7V (“Verbessert”, ou “Aprimorado”) em 2021.
O L55A1 é 1,30 metro mais longo que o L44 e é fabricado com aço de maior resistência, permitindo suportar pressões significativamente mais elevadas. Isso possibilita o emprego de munições mais potentes, aumentando a energia cinética dos projéteis e melhorando o desempenho balístico e a capacidade de penetração.

A culatra também recebeu modificações para suportar as maiores pressões geradas por essas munições e permitir o uso de projéteis programáveis, como o DM11, capaz de operar nos modos de explosão aérea (“airburst”), explosão por impacto e detonação retardada para penetração de estruturas de concreto reforçado ou veículos leves.
O L55A1 é atualmente o único canhão alemão capaz de operar com a nova munição flecha DM73, alegadamente a primeira de sua categoria a utilizar propelente SCDB (Surface-Coated Double-Base). Segundo a Rheinmetall, essa munição alcança velocidade inicial de 1.780 m/s e um alcance de engajamento de até 5 km. Em comparação com a DM63A1 disparada pelo canhão L55, isso representa um aumento aproximado de 3,5% na velocidade inicial e 25% no alcance de engajamento.
A KNDS DE manteve o sistema de observação panorâmica do comandante PERI-R17A2, da Zeiss, e o complexo de mira EMES-15 do artilheiro. Embora não tenha sido especificado quais sistemas optrônicos foram instalados nesses conjuntos, a empresa afirmou que o STRV 123A compartilha componentes com o Leopard 2A8. Dessa forma, é possível que o veículo utilize as mesmas câmeras diurnas empregadas no Leopard 2A8, enquanto os termovisores têm uma boa chance de serem os ATTICA, da HENSOLDT, de terceira geração e alto desempenho, que trabalham nas faixas LWIR ou MWIR.

O motorista recebeu câmeras SPECTUS da HENSOLDT na dianteira e na traseira do veículo. Cada módulo SPECTUS conta com uma câmera termal LWIR e uma câmera de infravermelho próximo (NIR). Ambas as imagens podem ser fundidas para melhorar a consciência situacional, já que os termovisores não conseguem ver sombras, por exemplo.
Uma curiosidade notável é que o módulo instalado a dianteira do casco está envolto por uma blindagem mais espessa do que a observada em outras versões do Leopard.
Para operação com o motor desligado, o STRV 123A recebeu uma unidade de potência auxiliar (APU), cuja exaustão e porta de acesso podem ser vistas na parte traseira do casco, no lado esquerdo. O Leopard 2 possui várias opções de APU. Esses sistemas servem para manter os equipamentos eletrônicos funcionando enquanto o motor principal permanece desligado, reduzindo a assinatura térmica e acústica do veículo.

E O CUSTO DE TUDO ISSO?
De acordo com a FMV, em janeiro de 2025, o valor combinado dos contratos para os programas de modernização do Stridsvagn 123A e 123B (Leopard 2A8) totalizou 20 bilhões de coroas suecas, cerca de US$ 2,1 bilhões. Dividido pelos 110 veículos previstos, isso corresponde a um custo médio de aproximadamente US$ 19 milhões por veículo.
Em comparação, cada Leopard 2A6 oferecido recentemente para o Exército Brasileiro custa cerca de US$ 17 milhões (cerca de € 15 milhões). Estes não têm nenhum tipo de modernização inclusa, sendo basicamente os mesmos veículos entregues à Exército Alemão há 25 anos, em 2001.

NOTA DO AUTOR: Embora, obviamente, muitos novos sistemas e subsistemas possam ter sido deixados de lado, este artigo buscou apresentar o máximo de informações possível com base no que sabemos e no que pode ser observado nas imagens divulgadas pela KNDS.