A discussão sobre o futuro da aviação de caça da Marinha do Brasil (MB) vai muito além da substituição de seus os atuais caças AF-1. O que está em jogo não é apenas a continuidade de uma frota de aeronaves, mas a preservação de uma capacidade estratégica, conhecimento e ambição marítima nacional.
O Primeiro Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1) é hoje o principal depositário da doutrina de aviação de caça naval do Brasil e sua existência garante que a MB mantenha pilotos, técnicos, procedimentos e conhecimentos essenciais para operações de asa fixa, uma capacidade presente apenas nas marinhas mais sofisticadas do mundo. A importância dessa capacidade torna-se ainda mais evidente quando se observa a história da própria aviação militar brasileira. A aviação nasceu na Marinha.
Em 1916, foi criada a Escola de Aviação Naval, tornando-se pioneira na introdução do poder aéreo militar no país. Décadas antes da criação da Força Aérea Brasileira (FAB), aviadores navais já operavam aeronaves e desenvolviam conceitos de emprego militar do poder aéreo.
Da mesma forma o próprio batismo de fogo da FAB ocorreu sobre o mar, durante a Segunda Guerra Mundial, antes mesmo da consagrada campanha do 1º Grupo de Aviação de Caça (1.º GAC), na Itália, quando suas aeronaves já combatiam no Atlântico Sul em missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino, protegendo comboios e rotas vitais para o esforço de guerra aliado. Ou seja, a importância do mar sempre esteve presente.
Essa ligação histórica entre o poder naval e o poder aéreo permanece atual, em um mundo marcado pela crescente competição geopolítica, pela disputa de recursos estratégicos e pela necessidade de proteger rotas marítimas (que correspondem a cerca de 90% de tudo que importamos e exportamos), a capacidade de projetar poder além do horizonte continua sendo um dos pilares das grandes marinhas. E os caças navais desempenham papel central nessa missão.
Mesmo operando a partir de bases no continente, ou insulares, podem realizar missões de defesa da frota, esclarecimento da naval, ataque antinavio, defesa aérea e treinamento avançado. Podem atuar em ilhas, bases expedicionárias ou em operações conjuntas com outras forças, além de participar de exercícios internacionais e coalizões multinacionais. Mais importante ainda, eles mantêm viva a cultura operacional da aviação embarcada, pois existe uma relação direta entre a manutenção da aviação de caça naval e a possibilidade de o Brasil voltar a operar um navio-aeródromo no futuro.

Um porta-aviões não é apenas um navio de combate, mas representa o ápice de uma complexa estrutura doutrinária, operacional e humana que leva décadas para ser construída e, nenhuma marinha compra um porta-aviões e cria sua aviação embarcada do zero. O processo ocorre justamente ao contrário: primeiro preserva-se a doutrina, os pilotos, os instrutores, os mantenedores e a experiência operacional; depois, quando as condições políticas e econômicas permitem, adquire-se a plataforma naval.
Se a MB perder sua capacidade de operar aeronaves de caça, perderá muito mais do que aviões: perderá a formação de futuras gerações de pilotos aeronavais; perderá a experiência acumulada ao longo de décadas; perderá sua capacidade de evoluir conceitos operacionais de emprego aeronaval; e perderá, sobretudo, a possibilidade realista de voltar a operar um porta-aviões. A experiência demonstra que reconstruir uma capacidade perdida custa muito mais caro do que preservá-la.
Os AF-1 Falcão (nomenclatura dada aos McDonnell Douglas A-4 Skyhawk adquiridos do Kuwait, já bastante usados, em 1998) estão chegando ao final de sua vida operacional e deverão deixar de voar por volta de 2030. Isso significa que a janela para uma decisão estratégica está se fechando rapidamente, ou seja, a urgência dessa discussão é evidente.
O Brasil possui a maior costa da América do Sul, uma das maiores zonas econômicas exclusivas do planeta, vastas reservas energéticas offshore e responsabilidades crescentes no Atlântico Sul. Uma nação com essas características não pode renunciar a capacidades que ampliem sua projeção de poder e sua capacidade de proteger interesses marítimos.
O destino da aviação de caça naval brasileira será decidido em breve, e dessa decisão dependerá não apenas o futuro do VF-1, mas também o futuro da capacidade naval de cumprir sua missão.

VEJA TAMBÉM
O fim dos A-4 se aproxima e a Marinha precisa decidir o futuro de sua aviação de caça
Respostas de 12
A Marinha precisa realmente substituir os A4. Acho que uma boa plataforma é dentro do orçamento dela seria os M346. Preparar a futura geração de pilotos que vai operar os F35 no novo NAe da MB.
A marinha precisa ter seus próprios aviões de caça. Se o VF1 fechar a MB nunca mais terá um NAe.
A MARINHA BRASILEIRA TEM QUE OLHAR PARA O FUTURO. NÃO MAIS CAÇA DE ALTO VALOR E DIFÍCIL MANUTENÇÃO. MAIS SIM DRONES DE ALTA PERFORMANCE E TECNOLOGIA. O NAVIO PORTA HELICÓPTERO PODERIA SER A BASE DESSE PROJETO.
rapaz compra logo os Av8B que estão sendo aposentados pelos Marines e já prepare os próprios para o F35, porém essa eh a minha opinião o mercado está cheio de opções V8b, F18, F16, Gripens, M346 aí vai depender da doutrina da Marinha e do $$$ se tem bilhões em emendas parlamentares para picaretas eu não entendo por que as forças armadas carecem de $$$ dinheiro tem só não tem vergonha na cara dos políticos e as ameaças externas vão aí crescendo e o Brasil deitado em berço esplêndido.
marinha precisa muito mais de uma aeronave tipo P-8 do que um caça
Acho que um país como o Brasil deveria racionalizar custo e formar aviadores que depois iriam pra marinha, força aérea etc… Vamos ser inteligentes e esquecer porta aviões! Caro e muito dinheiro num só alvo! A prioridade da Marinha deveria ser receber fragatas e submarinos, na parte aérea da esquadra deveria a Marinha receber a tarefa de patrulha oceânica, assim os substitutos do P-3 e do Bandeirulha seriam operados pela Marinha. Uma versão do Gripen baseado em terra poderia fazer ataque naval(como na Suécia) se deslocando rapidamente para bases avançadas previamente preparadas assim uma única esquadrilha poderia cuidar de toda Amazônia Azul.
A MB já tem problema demais para se preocupar com seus navios obsoletos e dando baixa aos monte na esquadra.
Aviação naval na marinha tem que ser extinta para o próprio bem da MB,assim ela pode se concentrar todo tempo e dinheiro em navios para recompor a esquadra.
Tem mau que vem para o bem.
Concordo com Sérgio Henrique .
A marinha deveria dar foco na esquadra ( fragatas / navios patrulhas / submarinos ) e aquisição de helicópteros. A experiência de compra do Foker / São Paulo , demonstrou uma incapacidade total do comando naval . Compramos uma sucata que na sua maior parte do tempo ficou em manutenção em estaleiro . Outra situação com relação a porta aviões , geralmente o efetivo é muito grande mais de 2.000 militares para sua total operação . Para a aquisição de mais 100 milhas marítimas precisamos ter uma marinha reconhecida , que somente se dará com a presença de um porta aviões ou uma esquadra reconhecida , capaz de proteger nossa costa. Sou de opinião aumentar nossa esquadra , valorizando nossa mão de obra , tecnologia e geração de empregos internamente .
Os A4 são ótimas aeronaves, mas já estão muito rodadas e a manutenção se torna cara e muito mais frequente. Acredito que o M346 seria uma ótima opção para que todo o processo e importância histórica da aviação naval não fique apenas na história e vá por água abaixo. O problema do Brasil não é dinheiro, mas como ele está sendo usado.
Com o fim do Nae são Paulo a Marinha passou a operar em terra, então porque não continuar assim e desenvolver a força de drones embarcados, seria uma visão de força de defesa com aeronaves tripuladas baseadas em terra e drones de ataque em um ocean da vida.
A marinha precisa manter a operacionalidade e a doutrina da asa fixa para futuramente operar novamente seu próprio NAe. Não podemos abandonar a aviação de caça naval e todo o investimento feito nas últimas três décadas.
Sempre fui favorável a aviação naval baseada em terra! Temos que defender nossa frota, não ego dos comandantes…
A MB já tem BAeNSPa, poderia assumir BARF ficando assim com duas bases. Por logística seria óbvio a compra de Gripen, pela comunalidade com os da FAB. A diferença seria basicamente no armamento anti navio.
Pelo lado econômico hoje, o indicado seria a versão naval do M346 com capacidade anti navio (fugiu a designação).
Não tem como sonhar com porta aviões, drones no NAM Atlântico, se não temos escoltas para esses navios nem defesa aérea para a frota!