Espanha cancela modernização dos Leopard 2 e o Brasil segue em busca do sucessor do Leopard 1

A decisão do Ministério da Defesa da Espanha de congelar a injeção de quase 2 bilhões de euros destinada à modernização de sua frota de carros de combate Leopard 2E revela uma discussão que começa a ganhar força dentro da própria OTAN: até que ponto ainda vale a pena investir fortunas em plataformas pesadas concebidas durante a Guerra Fria?

A medida espanhola não é trivial: Madrid possui uma das maiores e mais modernas frotas de Leopard da Europa, composta por cerca de 219 Leopard 2E (versão aperfeiçoada dos Leopard 2A6), ainda assim, o governo decidiu frear o programa enquanto reavalia prioridades estratégicas, industriais e orçamentárias.

O CUSTO ESTRATOSFÉRICO

Os 2 bilhões de euros previstos para modernização equivalem a aproximadamente 9 milhões de euros por veículo. Em outras palavras, a Espanha gastaria cerca de 12 bilhões de reais apenas para atualizar tanques que já estão em operação há mais de duas décadas. O problema é que os números começam a revelar uma contradição desconfortável.

Os contratos mais recentes do Leopard 2A8 (versão mais moderna do blindado alemão) indicam custos que ultrapassam os 30 milhões de euros por unidade (mais de 180 milhões de reais), dependendo do pacote logístico, munições, treinamento e suporte industrial.

A situação torna-se ainda mais controversa quando lembramos da oferta feita pela Alemanha ao Brasil no ano passado. O pacote envolvia Leopard 2A6 armazenados há décadas, com células produzidas originalmente nos anos 1980, ao custo aproximado de 15 milhões de euros por unidade. Ou seja, veículos com quase 40 anos de fabricação estavam sendo oferecidos por um valor extremamente elevado e que operacionalmente não pode ser comparado com um tanque da nova geração.

Isso ajuda a explicar por que cresce, dentro de diversos exércitos europeus, a percepção de que programas de modernização de blindados pesados podem estar entrando em uma zona de retorno estratégico duvidoso.

A Alemanha ofereceu pra o Brasil os Leopard 2A6 que foram, recusados para modernização, por 15 milhões de euros, cada!

A INCERTEZA SE INTENSIFICA

A Guerra da Ucrânia acelerou brutalmente esse debate, pois os Leopard 2A6 enviados para o conflito demonstraram elevado poder de fogo e proteção, mas também evidenciaram vulnerabilidades severas diante de armas sofisticadas, como as munições vagantes (“loitering munitions”), misseis guiados e outras armas de precisão, e das mais simples, como os drones do tipo FPV (“first-Person view”). Em vários casos, veículos extremamente caros foram neutralizados por sistemas que custavam apenas uma fração de seu valor.

Além disso, os problemas logísticos apareceram rapidamente: dificuldade de reposição de peças, manutenção complexa, baixa disponibilidade operacional e dependência de uma cadeia industrial altamente especializada.

O resultado é que muitos países da OTAN começam a se perguntar se bilhões investidos em carros de combate pesados representam realmente a melhor aplicação de recursos em um cenário de guerra cada vez mais dominado por drones, sensores, inteligência artificial, guerra eletrônica e munições inteligentes.

Aqui o debate deixa de ser apenas técnico e passa a ser estratégico, pois modernizar Leopard não significa necessariamente modernizar um exército.


A IMPORTÂNCIA DO TANQUE NO CAMPO DE BATALHA

Naturalmente, isso não significa que os carros de combate perderam sua utilidade nos combates atuais, muito longe disso: eles continuam essenciais para operações ofensivas, choque e controle territorial. Porém, a guerra moderna mostra que eles não podem mais operar como o centro absoluto da manobra terrestre e, principalmente, isolados.

Hoje, um carro de combate sem a cobertura da infantaria e de viaturas blindadas de combate de fuzileiros (VBC Fuz), capacidade antidrone, proteção ativa integrada, consciência situacional em rede e apoio permanente de ISR, torna-se extremamente vulnerável para justificar, sozinho, investimentos bilionários.

Os carros de combate ainda são fundamentais na Guerra moderna (Foto: Luciano Souza)


E NO BRASIL?

Essa discussão possui enorme relevância para o Brasil, pois o Exército Brasileiro continua operando os antigos Leopard 1A5 e avalia alternativas para o futuro de sua força blindada. O problema é que o país enfrenta restrições orçamentárias ainda maiores que as europeias. Isso aliado a próprias dificuldades da logística de deslocamento rodoferroviária brasileiro, que foram postas à prova na operação ATLAS.

Realizada em meados do ano passado, a Operação ATLAS contou com o histórico translado de um esquadrão de carros de combate Leopard 1A5, pertencentes ao 3º Regimento de Carros de Combate (3º RCC), de Ponta Grossa (PR), em uma viagem de 6.700 km, por estradas e rios. A título de comparação, essa distância seria equivalente a um deslocamento entre as cidades de Lisboa, em Portugal, até Moscou, na Rússia, cruzando todo o continente europeu, mas sem contar com sua infraestrutura!

Ao todo foram 21 dias de translado (sem contar com o período de preparação), passando por oito Estados da Federação, mas cujo obstáculo mais desafiador foi, sem dúvida, as travessias das pontes da BR-174, única ligação de Boa Vista (RR) ao resto do país. Para quem acha que os problemas das pontes no Brasil é uma “lenda urbana”, de acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o limite para o tráfego geral na rodovia é de até 45 toneladas de peso bruto total combinado (PBTC), bem abaixo do peso combinado do Leopard 1A5 com prancha e unidade tratora (“cavalo-mecânico”). Isso indica que, se fosse um Leopard 2 essa operação seria realizada sem carros de combate ou exigiria uma capacidade de engenharia militar bem mais robusta, e que demandaria mais tempo de deslocamento.

Se o EB tivesse hoje carros de combate Leopard 2, devido aos seu peso, ele ficaria restrito a operar apenas em localidades servidas pelas principais rodovias da região Sul e Sudeste, e algumas da Centro-Oeste (Foto: EB)

Se a própria Espanha, um membro da OTAN, com uma boa infraestrutura logística, indústria forte e acesso direto à cadeia logística alemã, começa a questionar a viabilidade econômica de investir bilhões na família Leopard 2, isso mostra o tamanho do risco que programas semelhantes podem representar para países com orçamento mais limitado.

E o perigo não está apenas no custo inicial de aquisição: carros de combate pesados, também conhecidos como “main battle tank” (MBT), exigem infraestrutura específica, transporte especializado, manutenção complexa, estoques caros de peças e um ciclo logístico permanente. Em muitos casos, o custo operacional ao longo da vida útil supera largamente o valor da compra original.

Talvez o maior ensinamento da Ucrânia seja justamente este: a supremacia terrestre do século XXI não será definida apenas por blindagem mais espessa ou canhões mais potentes. Será definida por alta mobilidade, sensores modernos, integração sistêmica, capacidade de se adaptar rapidamente a situação e, principalmente, ter o equipamento disponível para utilizar no lugar certo.

Nesse novo ambiente, insistir em investir bilhões em plataformas pesadas e concebidas há quase meio século pode significar não apenas um enorme gasto financeiro, mas também o risco de preparar os exércitos para uma guerra que já está mudando diante dos olhos do mundo.

Todos os estudos do Exército Brasileiro apontam que um carro de combate com mais de 50 toneladas terá muita dificuldade de operar no Brasil

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Respostas de 2

  1. Parabéns pelo artigo!
    Hoje, acredito que seria mais interessante para o EB (e CFN) optar por MMBT por inúmeras razões mas principalmente custo e logística.
    Como disse o colega anterior, eu também acredito que a melhor opção é a família Tulpar, e um dos principais pontos é a possibilidade da utilização das torres HITFACT do Centauro II no MMBT e UT30 ou REMAX, ambas fabricadas no Brasil.

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