Por décadas, as Forças Armadas brasileiras convivem com um problema silencioso, mas devastador para sua capacidade operacional: o “Dilema da Ferrari”.
A lógica é simples: Todos querem uma Ferrari. Ela é bonita, sofisticada, poderosa, admirada. Representa status, prestígio e excelência tecnológica, o problema é que Ferraris são extremamente caras para comprar e ainda mais caras para manter, além de exigir infraestrutura específica, manutenção complexa, peças de custo elevados e necessidade de recursos constantes. Na prática, poucas pessoas realmente conseguem sustentar uma Ferrari no cotidiano.
Em praticamente todos os programas militares brasileiros (blindados, helicópteros, caças, fragatas) existe uma obsessão recorrente por plataformas de altíssima complexidade e custo, muitas vezes incompatíveis com a realidade orçamentária do país. Busca-se sempre o equipamento “topo de linha”, o mais sofisticado do mundo, o mais moderno, o que gera maior prestígio institucional, porém, entre desejar e poder existe um abismo quando se fala de verbas públicas. Enquanto isso, soluções mais simples, disponíveis, acessíveis e operacionalmente adequadas acabam sendo descartadas porque “não são Ferrari”.
O problema é que a guerra real não costuma premiar quem sonha mais alto, mas sim quem possui capacidade operacional disponível, sustentável e numericamente suficiente. De que adianta sonhar durante vinte anos com um caça perfeito e acabar recebendo meia dúzia de aeronaves incapazes de cobrir um território continental? Qual o sentido de buscar o blindado mais sofisticado do planeta se o orçamento não permite comprar quantidade suficiente nem manter a frota operacional? Que vantagem existe em desejar navios extremamente complexos se a consequência prática é permanecer décadas sem renovação naval?
Muitas vezes, uma solução intermediária resolveria 80% dos problemas por 30% do custo, e a sabedoria popular tem uma expressão excelente para isso: “o ótimo é inimigo do bom”. O Brasil frequentemente cai na armadilha oposta, onde se busca o ideal absoluto e termina sem nada.
No mercado existem inúmeras “não Ferraris”, plataformas robustas, modernas, eficientes e financeiramente viáveis, que não possuem o glamour da elite tecnológica, mas cumprem suas missões. Levam os filhos à escola, fazem viagens, vão ao supermercado e funcionam todos os dias, ou seja, são acessíveis, sustentáveis e disponíveis.
No ambiente militar, isso significa equipamentos que podem ser adquiridos em maior número, com manutenção viável, logística simplificada e alta disponibilidade operacional. Uma força armada eficiente não é necessariamente aquela que possui o equipamento mais sofisticado do planeta. É aquela que consegue manter meios operacionais suficientes, prontos e sustentáveis ao longo do tempo.
A história recente mostra isso de maneira clara. Programas estratégicos se arrastam por décadas entre estudos, exigências irreais, mudanças de requisitos e sucessivos adiamentos. O resultado costuma ser conhecido: envelhecimento das frotas, redução numérica dos meios e perda gradual de capacidade operacional.
O “Dilema da Ferrari” também produz outro efeito nocivo: a incapacidade de aceitar soluções temporárias ou intermediárias. Muitas vezes, rejeita-se um equipamento disponível imediatamente porque ele não atende ao padrão idealizado e a consequência é permanecer anos aguardando um sistema “perfeito” que talvez nunca chegue.
ENQUANTO ISSO A CAPACIDADE OPERACIONAL DESAPARECE
A aviação de caça vive isso constantemente, com a busca por aeronaves de última geração e frequentemente ignorando o custo real de aquisição e operação. Sonha-se com capacidades estratégicas de países ricos, mas com orçamentos incompatíveis. O resultado é a redução contínua do número de aeronaves disponíveis.
Na área naval, o problema se repete. Desejam-se navios extremamente sofisticados enquanto embarcações mais simples, porém úteis e disponíveis, são descartadas. O efeito prático é uma esquadra cada vez menor e mais envelhecida.
Nos blindados e helicópteros, a lógica é semelhante. Em vez de priorizar disponibilidade, quantidade e sustentabilidade, muitas vezes prevalece a busca pelo equipamento prestigiado, mesmo que economicamente inviável.
Existe ainda um componente psicológico e institucional importante: equipamentos militares não são apenas ferramentas de combate, também carregam prestígio político, simbólico e corporativo. Possuir a “Ferrari” tecnológica gera status internacional e projeção institucional, mas o problema começa quando o desejo pelo símbolo supera a necessidade operacional real.
NEM AS GRANDES POTÊNCIAS POSSUEM RECURSOS INFINITOS
Os Estados Unidos, por exemplo, combinam sistemas extremamente sofisticados com plataformas mais simples, numerosas e baratas. A própria Ucrânia demonstrou na guerra atual que soluções acessíveis, produzidas em massa e rapidamente disponíveis podem gerar impacto estratégico muito superior ao de programas bilionários extremamente limitados em quantidade. No fim, capacidade operacional vale mais do que ambição não financiável.
Uma força armada precisa ser construída sobre realismo estratégico, sustentabilidade econômica e disponibilidade operacional. Não sobre desejos irreais incompatíveis com o orçamento nacional.
Querer não é poder, especialmente quando se fala de dinheiro público.
Talvez o maior desafio das Forças Armadas brasileiras nas próximas décadas não seja escolher a “Ferrari” perfeita, mas aprender finalmente que, em muitos casos, é melhor possuir uma frota completa de veículos eficientes e sustentáveis do que passar trinta anos sonhando com um carro impossível de manter na garagem.
Porque, no final, pior do que não ter uma Ferrari é acabar sem carro algum…
Respostas de 8
Perfeito
Excelente análise.
É melhor construir localmente algo bom o suficiente e exportar para os vizinhos. Se não é como trocar a tal “ferrari” por um volks alemão. Continuaremos impedidos de manter se a situação apertar e não aprenderemos nada, sempre teremos de trocar de produto.
Parabéns.
Excelente editorial Sr.Paulo Bastos.
Pensamento corretíssimo. Falta este governo atual/ próximo, tomar vergonha onde nos próximos anos podemos ter outra(as) nações batendo em nossa porta com os dois pés.
Independente qual seja o próximo governo sendo de direita ou esquerda o pior inimigo mestre momento é o relógio.
Editorial muito inteligente.
Bastos, seu texto deveria estar no mural dos Estados Maiores das Forças Armadas!
Sensacional e irretocável Bastos 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽
Só vão aprender quando pararem de se medir pela régua dos outros.