Rádios Definidos por Software: Moldando o futuro da comunicação militar brasileira

Por Gabriel Ribas

Entender a história e as propostas dos rádios definido por software (RDS) desenvolvidos atualmente no Brasil é uma tarefa desafiadora, em grande parte devido à escassez de fontes primárias. Mesmo quando essas fontes existem, as informações frequentemente apresentam-se de forma escassa ou confusa. A proposta deste artigo é reunir e consolidar fontes primárias disponíveis, apresentando de forma objetiva e estruturada a história por trás do desenvolvimento e das capacidades dos rádios RDS desenvolvidos atualmente no Brasil: TRC-1222 RONDON e RDS-DEFESA.

Ao longo do artigo, sempre que necessário, serão apresentados breves esclarecimentos conceituais sobre termos técnicos fundamentais como frequência, largura de banda, Arquitetura de Comunicação por software e salto de frequência, com o objetivo de facilitar a compreensão do leitor e manter a clareza da exposição.

TRC-1222V comparado ao RDS-DEFESA v4 (Foto: CTEx)


O QUE É O RDS

O conceito básico dos RDS é que se tratam de sistemas nos quais o processamento do sinal é realizado por meio de software executado em um processador, reduzindo a necessidade de hardware dedicado para interpretar o sinal e entregá-lo à aplicação. É uma tecnologia com alto grau de flexibilidade, pois problemas que, em rádios convencionais, exigiriam modificações físicas, passam a ser resolvidos por meio de alterações no software.

Na prática, isso significa que se trata de um sistema flexível, capaz de ser ajustado a diferentes tipos de missão por meio de modificações no software. Em um rádio baseado predominantemente em hardware dedicado, seria necessário realizar a substituição física de componentes internos ou externos, conforme as exigências da missão.

Para exemplificar, em rádios convencionais o hardware é projetado para executar funções específicas, geralmente associadas a um único tipo de missão ou forma de comunicação, já nos RDS, o hardware é programável e controlado por software, permitindo que um mesmo equipamento execute diferentes funções conforme as necessidades da missão. Rádios modernos que não são RDS também podem possuir software em algum nível, porém, nesse caso, o hardware não é totalmente programável nem controlado por software.

Exemplos de hardware e software


RDS-DEFESA E RONDON

A primeira referência pública ao Projeto Rádio Definido por Software do Ministério da Defesa (RDS-DEFESA) ocorreu por meio da Portaria nº 2.110 do Ministério da Defesa, de 09 de agosto de 2012, instrumento normativo que formalizou a aprovação do projeto e atribuiu ao Exército Brasileiro (EB) a responsabilidade pelo seu desenvolvimento. A execução técnica foi delegada ao Centro Tecnológico do Exército (CTEx), com o apoio acadêmico e científico do Instituto Militar de Engenharia (IME).

O objetivo estratégico do Projeto RDS-DEFESA consiste em promover a interoperabilidade das comunicações táticas no âmbito das Forças Armadas, por meio do desenvolvimento de uma arquitetura nacional de rádios definidos por software, capaz de assegurar flexibilidade operacional, resiliência e segurança das comunicações. Adicionalmente, o projeto visa garantir independência no domínio do espaço cibernético, assegurando liberdade de ação e robustez sistêmica em ambientes operacionais complexos e contestados.

Originalmente, além da versão veicular, o escopo do projeto contemplava o desenvolvimento de rádios nas configurações “Handheld” (portáteis) e “Manpack” (estações táticas). Entretanto, com a incorporação da família de rádios “RONDON”, desenvolvida pela IMBEL e formalizada em 2023, por meio de um termo de execução descentralizada (TED), o rádio portátil TRC-1222HH (Handheld) passou a integrar o escopo do programa RDS-DEFESA e já se encontra em fase de produção seriada. No que se refere à versão “Manpack” da família Rondon, sua conclusão está prevista para 2027, com desenvolvimento conduzido de forma conjunta entre a IMBEL e o CTEx.

A incorporação da família RONDON ao escopo original do programa resultou, adicionalmente, na atualização de sua denominação oficial, passando de “RDS-DEFESA” para “RDS-RONDON DEFESA”, refletindo a integração das soluções tecnológicas previamente desenvolvidas no âmbito do projeto RONDON ao programa nacional de rádios definidos por software.

Todos os integrantes da família RDS-RONDON DEFESA (Foto: St Edimilson)

A família RDS-RONDON teve sua origem em 2013, no âmbito do macroprojeto “Sistema de Comunicações RONDON”, iniciativa estruturante voltada ao desenvolvimento de soluções nacionais de comunicações táticas. O projeto contou com apoio financeiro da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), e EB, sendo concebido com o objetivo de atender às demandas dos Sistemas Táticos de Comando e Controle das Forças Armadas, com ênfase nas necessidades operacionais da Força Terrestre.

A concepção da família RDS-RONDON foi orientada para prover comunicações táticas seguras, resilientes e interoperáveis entre diferentes escalões operacionais, pelotão, companhia, batalhão e brigada. permitindo a integração eficiente dos elementos de comando e controle no ambiente tático. Para atender a esses requisitos operacionais, os sistemas foram projetados para operar nas faixas de frequência HF (“high frequency”), VHF (“very high frequency”) e UHF (“ultra high frequency”), assegurando flexibilidade de emprego em diferentes cenários operacionais e condições de propagação.

O maior rádio da família é o RDS-DEFESA, em sua versão veicular (e única versão do modelo), com o mesmo nome do programa original. Atualmente, encontra-se em seu quarto protótipo.

Trata-se de um equipamento com dois módulos de radiofrequência independentes e intercambiáveis, com um módulo de processamento central. Graças a esses módulos independentes, o rádio consegue lidar com até dois canais simultaneamente, o que possibilita que um único equipamento estabeleça comunicação de voz e, ao mesmo tempo, transmita e receba dados de um sistema de gerenciamento no campo de batalha.

No caso do sistema GCB (gerenciamento do campo de batalha) utilizado nos Guarani, o veículo precisa de dois rádios VHF Harris Falcon III RF-7800V-V560. Com o RDS-DEFESA, apenas um equipamento é necessário.

O rádio é multibanda, operando na faixa de 2 a 512 MHz, englobando as bandas HF, VHF e UHF, com faixa HF é comumente utilizada para comunicações de longa distância, inclusive além do horizonte, por meio da reflexão na ionosfera. É empregada em operações marítimas, aéreas e terrestres, mas normalmente exige antenas maiores e mais elaboradas; Já a VHF é amplamente utilizada em comunicações de médio alcance, com boa estabilidade e qualidade de sinal. É ideal para comunicações entre veículos, tropas e centros de comando em terreno aberto, onde há linha de visada ou poucas obstruções E UHF é utilizada para comunicações de curto e médio alcance, também em linha de visada. Destaca-se pelo melhor desempenho em ambientes urbanos e densamente povoados, devido à maior capacidade de penetração em estruturas como edifícios.

Em resumo, HF garante alcance estratégico, VHF garante estabilidade em campo aberto e UHF permite estabilidade em ambiente urbano.

A quarta versão do RDS-DEFESA, desenvolvido em parceria com a AEL (Fonte: EB)

A arquitetura utilizada pelo software do sistema é a “Software communications architecture” (SCA) em sua versão 4.1, desenvolvida pelo Joint Tactical Networking Center (JTNC). O sistema também possui compatibilidade com a versão 2.2.2 do SCA, significativamente mais antiga.

Embora tenha sido criada nos Estados Unidos, a SCA não é controlada pelos EUA, trata-se de uma arquitetura ou padrão de organização de software voltado para rádios definidos por software. Dessa forma, o uso do SCA 4.1 não compromete a independência das comunicações, já que a arquitetura em si não concede controle externo sobre os sistemas que a utilizam.

Um ponto crítico do RDS-DEFESA é que as formas de onda (FO) e a criptografia foram desenvolvidos no Brasil. As FO fazem parte do software do rádio e definem como ocorre a comunicação no nível de enlace e rede, incluindo modulação, codificação, estrutura de dados e correção de erros.

Para ficar claro:

  • Software é o conjunto de programas que controla o rádio (sistema operacional, aplicações, gerenciamento e execução de formas de onda);
  • SCA é a arquitetura/padrão que organiza esse software e permite interoperabilidade entre componentes; e
  • FO é o conjunto de algoritmos e protocolos que define como a informação é transmitida pelo rádio.

A segurança é garantida por um módulo criptográfico dedicado (criptocomputador) fornecido pela Kryptus. Ele atua na proteção e gestão de chaves criptográficas e algoritmos criptográficos do rádio.

O RDS-DEFESA na Operação ATLAS (Foto: CTEx)

Como explicado anteriormente, o principal objetivo deste rádio é a interoperabilidade entre as Forças Armadas. Em setembro de 2025, na Operação Atlas, o rádio demonstrou seu potencial no âmbito do Programa Estratégico de Comando e Controle de Defesa (PEC2), ao ser integrado ao STERNA (Sistema Tático de Enlace em Rádiopropagação Naval), GBC (Gerenciamento do Campo de Batalha) do EB e Link-BR2 da Força Aérea Brasileira (FAB). A compatibilização dos dados entre os diversos sistemas é garantida pelo MDLP (Multi Data Link Processor), desenvolvido pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV).

O TRC-1222HH foi o primeiro rádio do macroprojeto Sistema de Comunicações RONDON, iniciado em 2013 e foi o primeiro rádio RDS “Handheld” desenvolvido e fabricado em território nacional. Opera na faixa reduzida de HF (8 a 16 MHz), VHF tático (30 a 108 MHz) e no chamado VHF terra-avião (117 a 148 MHz).

Graças à faixa reduzida de HF, o rádio pode utilizar antenas mais compactas e menos exigentes, de forma a não comprometer a mobilidade do usuário, ao mesmo tempo em que fornece comunicação além da linha do horizonte.

Os rádios TRC-1222HH, TRC-1222M e TRV-1222V (Fotos: IMBEL)

A partir de 2023, iniciou-se uma integração das formas de onda, com a família RONDON absorvendo as formas de onda desenvolvidas para o RDS-DEFESA. A Kryptus também é responsável pelo módulo criptográfico do rádio. A Imbel, juntamente com a Ocellott, também desenvolve o projeto Sistemas de Comunicações Além da Linha do Horizonte Empregando Equipamentos Táticos Definidos por Software (SCALHEETDS), que visa criar um módulo portátil para os rádios TRC-1222, permitindo que os equipamentos transmitam e recebam sinais na banda X (8 a 12 GHz), utilizando como repetidor o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC). O sistema permitirá comunicações além da linha do horizonte de forma praticamente instantânea entre veículos, navios e tropas em terra, independentemente das condições atmosféricas.

O TRC-1222V (Veicular) é um rádio veicular multicanal extremamente compacto, operando na faixa de 2 a 512 MHz, cobrindo HF, VHF e UHF. É ideal para dotar veículos, embarcações e outras plataformas com uma capacidade robusta de comunicações, mas em um sistema extremamente compacto.

Já o TRC-1222M (Manpack) é um rádio portátil de canal simples que opera na faixa de 2 a 512 MHz, cobrindo HF, VHF e UHF. Os rádios “Manpack” são projetados para serem transportados por um operador ou instalados em veículos, oferecendo comunicações críticas mesmo longe de infraestruturas convencionais. Isso ocorre porque utilizam antenas maiores e mais eficientes, além de operarem em faixas de frequência mais amplas e com maior potência do que rádios “Handheld”.

Em um mundo cada vez mais incerto, o projeto RDS-RONDON DEFESA destaca-se por oferecer ao Brasil uma família completa de rádios definidos por software conceitualmente avançados, garantindo soberania nacional no campo das comunicações táticas militares.

O nome Rondon é uma homenagem ao marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, Patrono da Arma de Comunicações do Exército (Foto: EB)

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