Quase duas décadas após sua aposentadoria, o lendário Grumman F-14 Tomcat pode voltar a voar nos Estados Unidos. Um projeto de lei apresentado no Congresso norte-americano pretende preservar os últimos exemplares armazenados no deserto do Arizona e abre caminho para que pelo menos um deles seja restaurado em condições de voo.
Chamado de Maverick Act of 2026 — referência ao personagem de Tom Cruise nos filmes Top Gun — o texto foi apresentado pelo congressista Abraham Hamadeh em abril, complementando outra proposta introduzida pelos senadores Tim Sheehy e Mark Kelly. No dia 28 de abril, o projeto foi aprovado por unanimidade no Senado dos EUA e agora segue para análise na Câmara dos Representantes.
A proposta cria uma exceção limitada às medidas adotadas pela Marinha dos Estados Unidos após a aposentadoria do Tomcat, em 2006. Na época, quase todos os aviões foram destruídos para impedir o contrabando de peças ao Irã, único operador estrangeiro do modelo. Exportados para Teerã nos anos 1970, os F-14 iranianos seguem em operação até hoje, mesmo décadas após o fim do suporte norte-americano.

Segundo Hamadeh, a legislação não reativa qualquer capacidade militar do caça, mas permite a preservação histórica da aeronave. “A Lei Maverick permite que os últimos Tomcats do mundo sejam desmilitarizados e transferidos para exibição pública e fins educacionais, sob rígidas medidas de segurança nacional”, afirmou o deputado.
Se aprovado definitivamente, o projeto determina a transferência de um F-14A Tomcat e dois F-14D Super Tomcat para a comissão responsável pelo museu do Centro Espacial e de Foguetes dos EUA, em Huntsville, Alabama. A Marinha deverá fornecer documentação técnica, manuais e peças sobressalentes excedentes, mas sem obrigação de financiar qualquer restauração.
O ponto mais importante do texto é justamente a possibilidade de devolver um dos aviões às condições de voo. O projeto prevê o fornecimento de peças excedentes para tornar um dos F-14D “operacional ou capaz de completar uma exibição estática”, desde que nenhum novo item seja adquirido especificamente para isso. Todo o custo do processo ficará sob responsabilidade da comissão e de organizações parceiras sem fins lucrativos.

Os três aviões estão atualmente preservados no 309th Aerospace Maintenance and Regeneration Group, conhecido mundialmente como o “cemitério de aviões” da Força Aérea dos EUA. O local abriga cerca de quatro mil aeronaves militares de diferentes épocas e funções.
Entre os exemplares, o F-14A de matrícula 159437 possui um histórico particularmente relevante. Em 4 de janeiro de 1989, ele participou do segundo Incidente do Golfo de Sidra, quando dois Tomcats da Marinha dos EUA derrubaram dois caças líbios Mikoyan-Gurevich MiG-23 em uma das raras ocasiões em que o F-14 entrou em combate aéreo real pela Marinha dos Estados Unidos.
Apesar do entusiasmo dos fãs e entusiastas da aviação militar, colocar um Tomcat de volta no ar está longe de ser uma tarefa simples. As aeronaves estão armazenadas há mais de 20 anos e exigiriam inspeções estruturais profundas, restauração de sistemas complexos e posterior certificação junto à FAA, autoridade de aviação civil dos EUA.
Além disso, o F-14 sempre foi conhecido por seus custos operacionais extremamente elevados. O caça exigia entre 40 e 60 horas de manutenção para cada hora voada, especialmente por conta dos complexos sistemas ligados às asas de geometria variável.
No fim da carreira operacional, o custo por hora de voo chegava a cerca de US$ 40 mil, um dos fatores que contribuíram para sua substituição pelo Boeing F/A-18E/F Super Hornet na aviação naval norte-americana.
Mesmo assim, o avanço do projeto representa uma rara possibilidade de ver novamente em voo um dos caças mais icônicos da Guerra Fria e da aviação naval moderna.