A compra dos F-16 pelo Peru e a pressão aberta dos Estados Unidos

F-16 Block 70 da Força Aérea Búlgara. (Lockheed Martin/Divulgação)

Após semanas de incerteza política, interferências externas e sucessivos recuos, o Peru oficializou a escolha do F-16 Block 70 Viper, da Lockheed Martin, como seu novo avião de combate. O modelo superou concorrentes como o Dassault Rafale e o Saab Gripen na disputa para substituir os Dassault Mirage 2000 da Força Aérea Peruana (FAP), em um processo marcado por forte instabilidade interna e, também, pela crescente influência dos Estados Unidos.

A preferência de Lima pelo F-16 já vinha sendo sinalizada há meses. Em fevereiro, o então chefe do Conselho de Ministros, Ernesto Álvarez, indicou que a escolha levaria em conta a posição de liderança global dos EUA. Em março, o presidente interino José María Balcázar chegou a confirmar a seleção do Viper, mas recuou no dia seguinte, alegando que o processo ainda estava em andamento, um reflexo direto do complexo e bagunçado cenário político peruano.

A crise se intensificou em abril, quando Balcázar anunciou a suspensão da compra, estimada em US$ 3 bilhões. A decisão provocou reação imediata: associações militares criticaram o adiamento, enquanto o ministro da Defesa e o chanceler deixaram seus cargos em protesto. O episódio expôs a fragilidade política do governo e aumentou a pressão por uma definição rápida para uma compra que se arrasta há anos.

Nesse contexto, chamou atenção a atuação direta e aberta dos Estados Unidos. Algo que já se desenrolava nos bastidores ganhou luz quando o embaixador em Lima, Bernie Navarro, adotou um tom público incomum ao afirmar que utilizaria “todas as ferramentas disponíveis” para proteger os interesses norte-americanos. Sem citar diretamente o programa de caça, a declaração foi interpretada como um recado claro diante da possibilidade de o Peru optar por fornecedores europeus.

Ao final, o contrato foi oficializado – inclusive com o vazamento do comprovante do primeiro pagamento nas redes sociais – encerrando um processo marcado por muitas idas e vindas. A escolha pelo F-16 consolida o alinhamento estratégico entre Lima e Washington, mas também evidencia como fatores políticos internos e articulações externas podem influenciar decisões de defesa de longo prazo.

Logicamente esse tipo de movimentação não é novidade, especialmente em negociações desse tipo. No entanto, as declarações de Navarro tomam proporções diferentes e refletem a nova postura diplomática de Washington durante a segunda administração de Donald Trump.

Para o pesquisador e mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), João Gabriel Araujo, o presidente Balcázar teve uma postura sensata e pragmática ao não querer se comprometer com uma aquisição desse nível estratégico, enquanto líder de um governo de transição.

Ainda assim, segundo ele, uma eventual escolha pelo Gripen ou pelo Rafale poderia gerar um efeito dominó regional, contrariando o objetivo dos EUA de reforçar sua influência no continente, um dos principais pilares da nova doutrina norte-americana. “Muito possivelmente, em outro governo, essa decisão se arrastaria por anos e o caça vencedor poderia ser outro. O redirecionamento da política externa americana visa justamente restabelecer essa influência, diante da diversificação de parcerias na região”, avalia.

Cargas úteis para o F-16 Block 70/72. O Peru recebeu autorização inicial para comprar mísseis AIM-120C-8 AMRAAM, AIM-9X Sidewinder Block II e o pod Litening (Lockheed Martin/Divulgação)
Cargas úteis para o F-16 Block 70/72. O Peru recebeu autorização inicial para comprar mísseis AIM-120C-8 AMRAAM, AIM-9X Sidewinder Block II e o pod Litening (Lockheed Martin/Divulgação)

Na mesma linha, o professor de Relações Internacionais na UniRitter e doutorando da UFRGS, João Gabriel Burmann, avalia que a decisão peruana acende um alerta para o Brasil. Não pela aeronave em si –  versão mais moderna do caça de maior sucesso comercial atualmente – mas pelo ganho de espaço estratégico dos EUA na América do Sul. Para ele, o caso é um exemplo claro de “diplomacia militar”, envolvendo articulações de bastidores entre a elite peruana, lobistas da Lockheed Martin e agentes governamentais.

“É uma alteração da balança de poder no médio prazo. Apesar de parcerias e boas relações entre nossos militares e os norte-americanos, esse interesse estratégico dos EUA na região é uma ameaça. Não diretamente às fronteiras, mas aos interesses brasileiros”, enfatiza Burmann.

Araujo acrescenta que o impacto mais imediato para o Brasil está na perda de um potencial parceiro regional para a consolidação de um cluster da Base Industrial de Defesa. Pelo acordo com a Saab, o Brasil tem papel central na prospecção e eventual produção regional do JAS-39 Gripen E/F.

A escolha peruana reduz as possibilidades de cooperação e enfraquece essa cadeia, com reflexos indiretos inclusive em programas como o Embraer KC-390 Millennium, já que o F-16 utiliza o sistema de reabastecimento por lança (boom), diferente do padrão de cesta adotado pelo cargueiro brasileiro.

Linha de produção do Gripen na Embraer deve entregar primeiro avião até o próximo mês.
Linha de produção do Gripen na Embraer. (Divulgação)

Enquanto o debate público parece se concentrar nas comparações diretas (e bastante superficiais) entre o novo vetor da FAP e os modelos que já estão voando na América do Sul, essa aquisição toma outras proporções se examinada de um ponto vista geopolítico, especialmente quando contextualizada nesta nova postura estadunidense.

Mais do que a simples substituição de uma frota de caças, a decisão peruana expõe uma dinâmica mais ampla de reposicionamento estratégico na região. A atuação direta de Washington, somada ao contexto político interno do Peru, evidencia como decisões de defesa podem ser moldadas por pressões externas e interesses geopolíticos de maior escala.

Para o Brasil, o episódio reforça a necessidade de observar o cenário regional além da dimensão técnica das aquisições militares. A ampliação da presença dos Estados Unidos na América do Sul, em um momento de diplomacia mais assertiva e por vezes conturbada, sugere impactos que vão além do campo militar, atingindo diretamente projetos industriais, parcerias estratégicas e o próprio equilíbrio de influência no continente.

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