Lima Mendes e Rompe Mato: o piloto de caça e o caboclo da Umbanda

Quando se fala na história do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAVCA) da Força Aérea Brasileira (FAB), o nome Pedro de Lima Mendes está entre os mais importantes. O 2º tenente completou 95 missões nos céus da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, destacando-se pela habilidade nos comandos do “trator voador”, Republic P-47 Thunderbolt, validada pelas diversas condecorações recebidas. 

Limatão, como fora apelidado pelos companheiros, levava para o combate não só o treinamento e disciplina típica do militar. No cockpit carregava a fé católica da sua criação e também a crença de que era protegido por uma lendária figura da Umbanda: o caboclo Rompe-Mato.

Quem se interessa e pesquisa a aviação militar brasileira, vai acabar, inevitavelmente, cruzando com essas palavras. Elas são o grito de guerra do atual 2º Esquadrão do 1º GAVCA, Esquadrão Pif-Paf, diretamente ligado à trajetória de Lima Mendes.

De acordo com o site Jambock, do historiador Vicente Vazquez, Pedro de Lima Mendes nasceu em 30 de junho de 1920, no Rio de Janeiro. Filho de Augusto de Lima Mendes, famoso oficial da Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro, e de Candelária Coutinho de Lima Mendes, renomada professora de inglês, mudou-se ainda jovem para Porto Alegre.

2º Tenente Pedro de Lima Mendes. Nascido no Rio, se criou em Porto Alegre. Católico, tinha como protetor o caboclo Rompe Mato da umbanda brasileira. (Foto: Associação Brasileira de Pilotos de Caça)
Tenente Pedro de Lima Mendes. Nascido no Rio, se criou em Porto Alegre. Embora católico, tinha como protetor o caboclo Rompe Mato da umbanda brasileira. (Foto: Associação Brasileira de Pilotos de Caça)

Na capital gaúcha, incorporou hábitos e tradições gaúchas que mais tarde marcariam sua presença na Itália, em especial com a “Roda de Chimarrão do Lima Mendes”, momento de descontração e alívio entre os militares do “Senta a Púa”, enquanto dividiam o tradicional chá de erva mate ao redor de uma fogueira.

A formação militar começou na Escola Preparatória de Cadetes de Porto Alegre, atual Colégio Militar, e seguiu na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Transferido depois para a Escola de Aeronáutica, foi declarado Aspirante na turma de 1943 e, logo em seguida, tornou-se auxiliar de instrução de voo.

Em janeiro de 1944, foi designado para o recém-criado 1º GAVCA, cuja linha de frente era composta exclusivamente por voluntários. Dez meses depois, em 11 de novembro, realizou a primeira missão de combate na Itália, a primeira de mais de 90 ao longo da campanha no Teatro do Mediterrâneo. 

O porte alto e magro também serviu de inspiração para o então capitão Fortunato Câmara de Oliveira criar o avestruz que se tornaria símbolo da unidade. Coube a Lima Mendes, ainda, a tarefa de pintar a tradicional “bolacha” vermelha na carenagem dos P-47 do grupo.

Voando na linha de frente, consolidou-se como uma das principais referências do GAVCA. Integrante da esquadrilha azul, voava o avião de código C5, equipado com câmera K25 de alta resolução para registrar os resultados dos ataques.

A precisão dos ataques mesmo sob intenso fogo antiaéreo e a capacidade de documentar as missões renderam duas condecorações do Exército dos Estados Unidos: a Distinguished Flying Cross e a Air Medal, com mais quatro clusters; a Croix de Guerre Avec Palme da França; Ordem do Mérito Aeronáutico Cruz de Aviação de 3 Estrelas, Medalha de Campanha da Itália e Medalha da Campanha do Atlântico Sul, do Brasil. 

Mas a trajetória de Lima Mendes não se explica só com registros operacionais e condecorações acumuladas. Havia uma dimensão pessoal que acompanhava o aviador desde antes da guerra, e que ajuda a compreender sua experiência no combate.

Base Aérea de Pisa, 1945. Caças P-47D da esquadrilha azul do 1º GAVCA com os motores acionados. O C5 de Lima Mendes é visto em primeiro plano (FAB/Divulgação)
(FAB/Divulgação)

A ligação com o Caboclo Rompe Mato antecede a atuação no front. Segundo Vazquez, a crença surgiu ainda na juventude, quando uma empregada da família afirmou que o aviador era protegido pela entidade. A mãe do piloto, católica ferrenha, rejeitou a ideia. Lima Mendes, no entanto, fez o oposto: guardou essa crença e a levou consigo. 

A história da crença do aviador se confunde com a própria tradição da Umbanda. Como explica o professor Bàbá Hendrix Silveira de Oxalá de Orunmilá, doutor em Teologia e especialista em Ciências da Religião e História e Cultura Afro-Brasileira, não há registros históricos do caboclo enquanto em vida e sua presença se constrói pela oralidade: “Pela tradição oral e ritual, aparece como um caboclo guerreiro, que articula forças da mata com o campo de batalha espiritual.” 

Segundo Bàbá Hendrix e a Ialorixá Lilian de Oxum Pandá, a figura de Rompe Mato é cultuada especialmente na Umbanda Brasileira praticada no Rio Grande do Sul. Seria um homem índigena que atua na cura, orientação, proteção e fortalecimento espiritual, com postura firme e equilibrada. É associado à linha de Ogum, embora mantenha vínculos simbólicos com Oxóssi pela ligação com as matas.

O próprio nome sintetiza a identidade guerreira. Aquele que abre caminhos onde não há passagem, avançando com coragem, foco, precisão e estratégia. Dentro da Umbanda gaúcha, ele não é visto como uma entidade genérica, mas como um caboclo específico, com história própria de culto e linhagem espiritual, afirma Hendrix. 

Essa presença também se manifesta na formação de casas religiosas. Hendrix relata a ligação familiar com Mãe Augusta, sua tia-bisavó, que tinha a entidade como guia espiritual e fundou o Centro de Umbanda Reino de Ogum Rompe-Mato, em Porto Alegre.

Pilotos do 1º GAVCA no retorno ao Brasil após o final da Guerra. Lima Mendes é o terceiro em pé, da esquerda para a direita. (FAB/Divulgação)

O contexto regional ajuda a explicar essa presença. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Rio Grande do Sul concentra a maior proporção de adeptos de religiões de matriz africana no Brasil, com cerca de 3,2% da população. Ainda conforme dados do Instituto, o número de praticantes passou de 0,3% em 2010 para 1% da população em 2022. 

Lima Mendes carregou a fé em Rompe Mato para o céu de guerra na Itália. Como contavam os veteranos, ele mesmo dizia ser protegido pela entidade das matas. Voando pela Esquadrilha Azul, pilotou o P-47 de código C5, que também foi batizado como Rompe Mato. Coincidência ou não, conta a história que enquanto esteve nos comandos do caça, jamais foi atingido pela antiaérea alemã.

“Bolacha” do 2º/1º GAVCA. (Via Marcelo Lobo/Aviação em Floripa)

O Grupo de Caça teve dois C5: o primeiro foi um P-47D-27-RE de matrícula 42-26782, abatido em 06/11/1944 (ou seja, dias antes da primeira missão de Lima Mendes), pilotado pelo 2º Ten. Av. John Richardson Cordeiro e Silva, que faleceu quando o avião caiu  em Livergnano. Já o segundo C5 era um P-47D-28-RE de registro s/n 44-19660, que sobreviveu a guerra inteira, mas foi perdido em um acidente na Baía de Sepetiba em junho de 1946. 

A perda do C5 de Limatão antecedeu em pouco mais de um mês a trágica perda do jovem veterano de guerra. De volta ao país, atuava como instrutor no 2º GAVCA, responsável pela formação de novos pilotos de caça. Em 31 de julho de 1946, durante um voo de treinamento com o North American T-6, seu ala acabou por colidir no seu avião no momento do pouso na Base Aérea de Santa Cruz.

Aos 26 anos e 1 dia, Limatão teve morte instantânea no impacto. Deixou para trás uma carreira promissora, entrando definitivamente para a história da aviação militar brasileira. Tornou-se patrono da unidade em que servia como instrutor, hoje o 2º/1º GAVCA, Esquadrão Pif-Paf.

Oitenta anos depois, sua trajetória continua reverberando, seja como referência de piloto de combate ou como uma pequena parte de uma narrativa da Umbanda Brasileira.

Para a Mãe Lilian, o nome de Rompe Mato como um dos gritos de guerra da FAB evoca força e coragem, além de ser uma forma carinhosa e honrosa de prestar homenagem ao tenente por sua devoção e fé. “O Caboclo rompendo a mata e o tenente rompendo o ar”, pontua.

Já o Professor Hendrix vê na história um ponto de contato mais profundo entre fé e experiência vivida. “Dentro da nossa cosmopercepção, isso revela uma relação com a dimensão espiritual. Uma força que acompanha, orienta e protege. O fato de seu avião não ter sido atingido em combate reforça essa leitura, ainda que não se trate de uma prova no sentido científico, mas de uma experiência vivida e reconhecida.”

Imagem física do Caboclo Rompe Mato. (via Bàbá Hendrix Silveira)
Algumas usam esta arte, representativa dos Índios Guaicurus, para ilustrar a entidade. (via Perdido em Pensamentos/Créditos ao autor original)

Ao mesmo tempo, ele aponta um contraste: enquanto símbolos de origem afro-brasileira são incorporados em espaços institucionais, as tradições que os sustentam nem sempre recebem o mesmo reconhecimento. “Isso também nos provoca a pensar o quanto essas mesmas tradições ainda são marginalizadas em outros espaços. Nem sempre há o reconhecimento pleno do povo de terreiro e da sua teologia”, conclui o pesquisador.

Entre memórias documentais e narrativas de sua fé, a trajetória de Pedro de Lima Mendes permanece viva em múltiplas camadas. Enquanto sua atuação na Segunda Guerra Mundial consolida o aviador como referência histórica, por outro, a permanência de símbolos como o “Rompe Mato” revela como essa memória também é preservada no cotidiano da Força Aérea Brasileira. Nas bases aéreas, nas tradições vivas e nos relatos transmitidos entre gerações de militares, seu nome se faz presente não apenas como parte do passado, mas como elemento ativo da identidade da aviação de caça.

Contribuíram: ABRA-PC, Aviação em Floripa, Felipe Leite, História da Força Aérea Brasileira, Jambock.com.br.

Segundo Tenente Pedro de Lima Mendes (1920 – 1946 | via Jambock.com.br)
Escudo do 2º/1º GAVCA. (Via Marcelo Lobo/Aviação em Floripa)
A bolacha do 2º GAVCA, de autoria do major-brigadeiro Fortunato. (Acervo da Sala Histórica do 1º GAVCA, via Vicente Vazquez)
O P-47D thunderbolt de Lima Mendes, representado no jogo online War Thunder (textura e screenshot de Felipe Leite)
O P-47D thunderbolt de Lima Mendes, representado no jogo online War Thunder (textura e screenshot de Felipe Leite)

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Respostas de 4

  1. Esse avião P 47 é lendário desde seu projeto de fabricação em tempo recorde. Uma das peças, entre outras, feitas para ganhar aquela guerra.

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