Tive a oportunidade de participar de algumas festas da Aviação de Caça. Olhando para trás, vejo que, entre todas elas, a de 2005 marcou o início e o encerramento de ciclos importantes.
Anualmente, a Força Aérea Brasileira (FAB) comemora essa data na Base Aérea de Santa Cruz, relembrando os feitos heroicos do 1º Grupo de Aviação de Caça no Teatro de Operações europeu durante a Segunda Guerra Mundial. Atuando no norte da Itália, em 22 de abril de 1945, o esquadrão, com seus bravos pilotos a bordo dos míticos Republic P-47D Thunderbolt, cumpriu 11 missões, totalizando 44 saídas e deixando um rastro de 100 alvos destruídos. A poucos dias da rendição alemã, o Brasil já havia perdido vários pilotos em decorrência das missões de guerra, alguns por motivos de saúde, outros feitos prisioneiros ou abatidos pela artilharia antiaérea inimiga.
Mas, voltando a 2005, aquela foi a primeira vez em que pude testemunhar esse evento. No dia 22, propriamente dito, não estive presente, mas acompanhei a chegada dos esquadrões em 14 de abril, para participarem da Reunião da Aviação de Caça (RAC).
Ao longo de toda a manhã, um a um, os esquadrões se apresentaram. Naquele ano, a Caça brasileira vivia uma transição entre equipamentos já ultrapassados e aeronaves mais modernas. O AMX e o Super Tucano representavam, à época, o que havia de mais avançado. Olhando para a Força como um todo, outras aviações passavam pela mesma situação.
O 1º Grupo de Defesa Aérea participaria, pela última vez, com os Dassault Mirage IIIE/D, que, em dezembro daquele ano, foram definitivamente desativados após mais de 33 anos de operação.



Mesmo no fim de sua carreira, o “Esquadrão Jaguar” chegou em grande estilo, com nove aeronaves, incluindo o FAB 4904, voado por Ayrton Senna em 29 de março de 1989, após conquistar seu primeiro campeonato mundial de Fórmula 1, e o FAB 4922, com pintura comemorativa dos 30 anos de serviço.
Outro destaque foram os esquadrões do chamado 3º Grupo de Aviação. Aquela seria a última vez que o 1º/3º GAV “Esquadrão Escorpião” e o 2º/3º GAV “Esquadrão Grifo” se apresentariam com o Embraer EMB-312 A-27 Tucano, já que, no final daquele ano, iniciaram a conversão para o A-29 Super Tucano. O 3º/3º GAV “Esquadrão Flecha” só realizaria essa transição a partir de maio de 2006 e participaria com os Tucaninhos ainda em 2007, outro evento que eu testemunhei.














As duas primeiras unidades chegaram com oito aeronaves cada, enquanto o 3º/3º participou com seis aviões. Os Tucanos do Escorpião eram fáceis de serem identificados pelo próprio escorpião aplicado na cauda. Naquela época, a FAB deixou de usar designativos de base e unidades aéreas nos seus aviões. Uma pena.
Outra aparição marcante foi a do EMB-326GB Xavante, com o característico ronco do motor Rolls-Royce Viper. O jato de treinamento avançado e ataque leve ostentava a bolacha do saudoso 1º/4º GAV “Esquadrão Pacau”, desativado em 2022. Sediada na Base Aérea de Natal, à época, a unidade ainda realizava o curso de liderança para pilotos de caça, após a formação no 2º/5º GAV “Esquadrão Joker”.




Falando no Joker, o esquadrão estreou naquele ano com seis Embraer A-29 Super Tucano. Essas aeronaves foram recebidas novas de fábrica em outubro de 2004, sendo o Joker a primeira unidade aérea a operar aquele que viria a se tornar um grande sucesso de exportação da Embraer. Vale uma curiosidade: por um curto período, a unidade operou simultaneamente o A-29A, empregado em missões de alerta de defesa aérea, e o A-29B, na formação dos pilotos de caça. Posteriormente, a frota foi padronizada nos biplaces.









Mas ainda havia mais chegadas. Da Base Aérea de Canoas, o 1º/14º GAV “Esquadrão Pampa” participou com quatro F-5E Tiger II. Um deles, o FAB 4858, ostentava a bela pintura comemorativa dos 58 anos do esquadrão. Os demais apresentavam o “canopy falso” pintado sob o cockpit, enquanto outro tinha parte significativa das asas apenas com o primer amarelo, sem a camuflagem de superioridade aérea. Aquela também foi a última vez que o F-5E se apresentou isoladamente, pois, a partir de 2006, o Pampa já operava o F-5EM modernizado.






De Santa Maria, o 1º/10º GAV “Esquadrão Poker” participou com dois A-1A e dois A-1B, enquanto o 3º/10º GAV “Esquadrão Centauro” compareceu com dois A-1A e um A-1B.










Todas essas aeronaves, cerca de 59 no total, ficaram dispostas no pátio, alinhadas lado a lado, junto ao imponente e singular Hangar do Zeppelin.
Havia ainda um H-34 Super Puma do 3º/8º GAV “Esquadrão Puma”, um Bell UH-1H do 2º/10º GAV “Esquadrão Pelicano”, um Neiva T-25 Universal da Academia da Força Aérea, um Hawker 800XP do Grupo Especial de Inspeção em Voo e um E-99 (antigo R-99A) do 2º/6º GAV “Esquadrão Guardião”.


Em Santa Cruz, os anfitriões eram o 1º Grupo de Aviação de Caça e o saudoso 1º/16º GAV “Esquadrão Adelphi”, desativado em 2016. As aeronaves dessas unidades não se somaram ao pátio com as demais.


Ao fim do dia, antes do retorno para casa, fotografei alguns monumentos, inclusive uma maquete do AMX quase em escala real no portão principal da Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá.
Nos meus 21 anos de idade, aquilo tudo era novidade, eu sequer entendia com profundidade as tradições que envolvem o 22 de abril. E peço desculpas pela qualidade das fotos e por não aprofundar mais em detalhes. Eram outras épocas. A fotografia era uma novidade para mim e as informações que eu não achava tão relevantes, como as matrículas das aeronaves, eu não anotei. Mas, o que eu notei, foi o contraste daquele 22 de abril.




