Apesar de formalmente ter uma história que remonta a 2001, a MBDA é o resultado da fusão de empresas com longa tradição na Defesa. Enquanto a Matra Defense (França) e a BAe Dynamics (Reino Unido) se fundiram em 1996, dando origem à Matra BAE Dynamics, a GEC-Marconi (Reino Unido) uniu-se à Alenia Difesa (Itália) em 1998, resultando na Alenia Marconi Systems. Posteriormente, a EADS Aerospatiale Matra Missiles juntou-se ao grupo, dando origem à MBDA, que, em 2006, incorporou a participação da Alemanha e, em 2010, a da Espanha.
Com sede em Le Plessis-Robinson, próximo a Paris, seus produtos equipam mais de 90 países nos domínios do espaço aéreo, das forças terrestres, da defesa antiaérea e do poder naval. A empresa registrou em 2025 uma receita de 5,6 bilhões de euros, com uma carteira de pedidos de 13,2 bilhões de euros e um backlog de 44,4 bilhões de euros. A MBDA detém 40% do mercado europeu e 16% do mercado global. Atualmente, 45 de seus programas estão em serviço operacional, enquanto outros 15 encontram-se em desenvolvimento.
Na América Latina, a MBDA possui forte presença em países como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador e Peru, e tem ampliado essa participação por meio da inauguração do seu escritório no Brasil, que agrega ainda mais capacidades de suporte pós-venda, desenvolvimento e engenharia.
Nesta entrevista com Ricardo Mantovani, vice-presidente de Vendas de Exportação para as Américas na MBDA, exploramos os principais aspectos da presença da empresa na região.
Tecnologia & Defesa – Qual é a visão da empresa em termos de América Latina e como o mercado da região impacta a operação da empresa em nível global?
Ricardo Mantovani – Sou o novo vice-presidente de Vendas de Exportação para as Américas na MBDA. Estou há pouco tempo no cargo, mas tenho vários anos de atuação na companhia. A América Latina é um mercado extremamente importante para a MBDA.
Em alguns países, estamos presentes há mais de 50 anos, o que nos garante um alto nível de confiança por parte dos clientes, renovado a cada aquisição de novas plataformas. Estamos presentes na maioria das grandes plataformas da região, o que reforça a relevância desse mercado para nós.
Prova disso é que recentemente abrimos, no Rio de Janeiro, o nosso primeiro escritório na América Latina, uma unidade que tem crescido e cujo objetivo é ampliar a cooperação com a indústria brasileira.
T&D – Nesse sentido, há alguns anos foi firmada uma parceria com a Xmobots para integrar o míssil Enforcer ao Nauru 1000. Como está esse acordo?
RM – Esse foi um dos projetos realizados em cooperação com a indústria brasileira. Vale lembrar que se tratava de uma prova de conceito, cujo objetivo era demonstrar que o drone Nauru 1000 poderia operar com mísseis, o que foi feito com o Enforcer.
Todo o planejamento foi executado com sucesso e o programa foi concluído com a validação da prova de conceito. Agora, cabe ao cliente decidir qual míssil deseja integrar e em que quantidade, seja no Nauru ou em outra plataforma.
Tudo foi realizado com recursos próprios e iniciativa da MBDA. Por meio do nosso escritório no Brasil, conseguimos catalisar essa ação com o apoio dos nossos engenheiros.
T&D – Muitos países do continente possuem o Exocet em seus arsenais. A MBDA está negociando a renovação desses estoques com versões mais modernas desse míssil antinavio?
RM – Não posso entrar em detalhes sobre cada país ou negociações em andamento, mas posso dizer que há uma demanda crescente pela renovação e aquisição de mísseis. Não apenas antinavio, como o Exocet, mas também de defesa antiaérea, segmento em que temos forte presença na região. Um exemplo é o míssil Mistral.
Essa expansão da demanda não se restringe a regiões específicas do mundo, ela também alcança a América Latina.
É importante destacar que a MBDA antecipou esse cenário de crescimento há cerca de dois anos. Nesse período, dobramos nossa capacidade de produção de mísseis e, em 2026, ela deve crescer mais 40%. Considerando que um míssil é composto por dezenas de milhares de componentes, trata-se de um desafio significativo.
Ampliamos nosso quadro de funcionários, hoje contamos com cerca de 22 mil colaboradores (em 2024 eram 15 mil) e, em algumas fábricas, implementamos turnos noturnos. Ou seja, há unidades operando 24 horas por dia, algo que até poucos anos atrás era impensável.

T&D – Como a MBDA está trabalhando em soluções de combate a drones e enxames de drones?
RM – O aumento da produção não se limita ao volume, mas também à ampliação do portfólio com novas soluções.
Uma dessas novidades é o Sky Warden, que tem obtido grande sucesso. Trata-se de uma solução escalável, que pode assumir diferentes configurações, incluindo sistemas a laser, interferidores ou soluções de impacto direto.

T&D – O que o conflito com o Irã, que tem utilizado drones e mísseis para atacar países vizinhos, influencia a MBDA no aprimoramento das soluções de que já dispõe?
RM – Estamos acompanhando pela imprensa e observando que muitos dos nossos sistemas têm sido empregados, sem entrar em detalhes específicos sobre o Irã ou a Ucrânia, e com sucesso, apresentando elevadas taxas de probabilidade de neutralização.
No passado, buscávamos desenvolver o melhor produto possível. Hoje, precisamos desenvolver o melhor produto possível e fazê-lo com rapidez. Entramos em uma dinâmica em que a quantidade também se tornou um fator importante.
T&D – No cenário regional, qual foi a importância do disparo de dois mísseis Meteor pela FAB, no final de 2025? Qual foi o impacto dessa demonstração?
RM – Foi um divisor de águas. Trata-se de uma nova capacidade para a Força Aérea, da qual nós, da MBDA, temos muito orgulho de fazer parte.
Atuamos em conjunto com todas as entidades envolvidas na organização e execução desses dois disparos. Ver as imagens do Saab Gripen E sendo difundidas pelo mundo nos encheu de orgulho.
Hoje, há uma grande demanda pelo Meteor, um míssil presente em diversas plataformas, como o Gripen C, o Dassault Rafale, o Eurofighter Typhoon, o KAI KF-21 Boramae e o Lockheed Martin F-35.
Sem dúvida, foi uma demonstração de cooperação e transferência de conhecimento entre nossos técnicos e os profissionais brasileiros envolvidos nas campanhas de tiro. Ficou evidente a competência do lado brasileiro e a seriedade na condução dessa primeira experiência.

T&D – A presença da MBDA no Brasil serve como plataforma para expandir as atividades da empresa em todo o continente? Além das vendas, como a empresa trabalha o Brasil dentro do ciclo de suporte logístico, técnico e de engenharia?
RM – O escritório no Brasil foi criado inicialmente para ampliar nossas atividades no país. No campo da cooperação industrial, já mencionamos o projeto com a XMobots, e agora teremos o Suppliers Day da MBDA. Isso demonstra que queremos expandir nossa cadeia global de fornecedores, incluindo empresas brasileiras nela.
Em parceria com a Secretaria de Produtos de Defesa e com a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), realizaremos, ao longo de três dias, uma série de encontros com empresas para iniciar novas conversas e oportunidades de integração.
Vale destacar que já firmamos um primeiro contrato com um fornecedor brasileiro, que passa a integrar, pela primeira vez, a cadeia global de suprimentos da MBDA. E estamos apenas começando.
A Base Industrial de Defesa e Segurança do Brasil é altamente competente, e essa parceria é fundamental para a MBDA e para o seu crescimento na região.
Temos planos de abrir centros de manutenção de mísseis no Brasil, com mão de obra nacional formada por técnicos e engenheiros.
T&D – Falando no escritório da MBDA no Brasil, qual é o tamanho dessa estrutura?
RM – A estrutura ainda é pequena, pois está em operação há menos de dois anos. No entanto, dobramos o número de funcionários nesse período, incluindo a contratação de engenheiros. Nosso objetivo é ampliar cada vez mais a presença de engenheiros e técnicos brasileiros especializados em nossos produtos.
Há programas no Brasil nos quais a MBDA pode atuar, como o de defesa antiaérea de média altura. Caso participemos desse programa, queremos atender parte da demanda localmente, especialmente na área de manutenção, com mão de obra nacional.
Existe um plano de contratações já em andamento, que deverá ser intensificado caso esse contrato se concretize.
