Por Paulo Bastos
A discussão sobre a modernização de forças terrestres costuma concentrar-se na aquisição de carros de combate de última geração, entre eles o Leopard 2, que é amplamente reconhecido como um dos mais capazes do mundo, já que reúnem elevado poder de fogo, proteção avançada e sistemas modernos de comando e controle. No entanto, no contexto brasileiro, essa discussão não pode ser dissociada da realidade orçamentária do Exército. A limitação de recursos impõe uma escolha crítica: investir em uma capacidade isolada ou estruturar uma força blindada completa e coerente.
O carro de combate moderno não foi concebido para operar de forma isolada – a evolução das doutrinas de armas combinadas consolidou o entendimento de que blindados, infantaria, artilharia e demais elementos devem atuar de maneira integrada no campo de batalha. Nesse contexto, o carro de combate oferece elevada capacidade de engajamento, proteção e sensores avançados, mas apresenta limitações relevantes, especialmente em ambientes complexos, como áreas urbanas ou cenários saturados por ameaças assimétricas. Por essa razão, no combate contemporâneo tornou-se praticamente mandatória a atuação em binômio operacional com um viatura blindada de combate de fuzileiros (VBC Fuz). Esse vetor, idealmente equipado com canhão automático de 30x173mm, assegura proteção aproximada, engajamento de ameaças leves, neutralização de infantaria inimiga e ampliação da consciência situacional. Sem esse binômio, o carro de combate perde efetividade e torna-se significativamente mais vulnerável.
Além disso, a evolução recente do campo de batalha evidenciou outro fator crítico: carros de combate principais operando sem a devida proteção das VBC Fuz tornam-se alvos relativamente fáceis para mísseis anticarro e drones suicidas. A ausência de infantaria blindada para prover segurança aproximada, identificar ameaças e neutralizar equipes antitanque expõe o blindado a engajamentos a curta distância e ataques por múltiplos vetores, reduzindo drasticamente sua sobrevivência no campo de batalha moderno.
A VBC Fuz não é um complemento, mas parte integrante e indispensável do sistema, viabilizando o transporte protegido da tropa, o desembarque em áreas contestadas, a ocupação do terreno e a proteção direta dos carros de combate. Mais do que isso, garante a presença física necessária para consolidar ganhos táticos – algo que o carro de combate, por si só, não é capaz de realizar. No combate moderno, destruir alvos não é suficiente; é necessário controlar o espaço, e isso só é possível com a infantaria blindada devidamente protegida.
As principais forças terrestres do mundo estruturam suas capacidades blindadas com base em famílias de veículos integrados, combinando carros de combate e VBC Fuz que operam de forma coordenada, com mobilidade, proteção e sistemas compatíveis. A evolução mais recente desse conceito, contudo, vai além da simples combinação de plataformas distintas. Observa-se uma tendência clara para o desenvolvimento de famílias baseadas em uma mesma plataforma, da qual derivam tanto carros de combate quanto VBC Fuz. Esse modelo proporciona elevado grau de integração logística, padronização de componentes, simplificação da manutenção e racionalização do treinamento de tripulações e equipes de apoio.

A adoção de uma família comum de plataformas gera ganhos operacionais expressivos. Sob a ótica logística, reduz a complexidade da cadeia de suprimentos, facilita a gestão de peças de reposição e eleva a disponibilidade dos meios. No campo do treinamento, permite maior intercambialidade entre tripulações e reduz o tempo necessário para qualificação operacional. Do ponto de vista tático, assegura que diferentes vetores compartilhem níveis semelhantes de mobilidade, proteção e capacidade de operar no mesmo ritmo – um fator crítico no ambiente de combate atual.
Entretanto, a realidade orçamentária do Exército Brasileiro (EB) impõe restrições concretas e, a aquisição simultânea de um carro de combate moderno como o Leopard 2 e de uma frota significativa de VBC Fuz de última geração representa um investimento elevado, muitas vezes incompatível com os níveis atuais de financiamento. Esse cenário leva a um dilema estratégico: priorizar a aquisição de um vetor de alto desempenho, porém isolado, ou investir em uma solução mais equilibrada, ainda que potencialmente menos sofisticada individualmente, mas coerente como sistema.
Essa limitação torna-se ainda mais evidente quando se observam os custos associados às versões mais modernas do Leopard 2. Configurações recentes, como o padrão 2A8, podem atingir valores na ordem de dezenas de milhões de euros por unidade — frequentemente na faixa de 30 milhões de euros — sem incluir suporte logístico, manutenção, treinamento ou qualquer nível de produção local. Trata-se, portanto, de um custo base que, na prática, cresce de forma significativa. Para a realidade orçamentária brasileira, esse nível de investimento é extremamente desafiador.
Além disso, mesmo países europeus integrantes da OTAN têm recorrido a mecanismos de financiamento estruturado, como o Security Action for Europe (SAFE), para viabilizar a aquisição de meios como o Leopard 2. Esses modelos permitem diluir custos e realizar aquisições em escala — instrumentos aos quais o Brasil não tem acesso, ampliando ainda mais a assimetria de condições.
Somam-se a isso limitações estruturais relevantes. Veículos dessa categoria apresentam elevado peso, o que impõe restrições à mobilidade no território nacional. Muitas pontes não suportariam esse tipo de blindado sem reforços estruturais, exigindo investimentos adicionais. Da mesma forma, seria necessário adquirir novas pranchas de transporte e adaptar pátios, garagens e instalações militares. Ou seja, o impacto financeiro extrapola a aquisição e se estende a toda a infraestrutura de apoio.
Outro fator crítico diz respeito à política de obtenção de capacidades do EB, que historicamente busca transferência de tecnologia, desenvolvimento industrial local e autonomia logística. Nesse contexto, soluções sujeitas a restrições como o International Traffic in Arms Regulations (ITAR), dos Estados Unidos, ou a limitações impostas pela Bundesamt für Wirtschaft und Ausfuhrkontrolle (BAFA), da Alemanha, tendem a restringir a liberdade de emprego, a transferência de conhecimento e a possibilidade de produção local, reduzindo o retorno estratégico do investimento.
A escolha por um carro de combate sem a correspondente estrutura de VBC Fuz — e sem uma lógica de família — gera desalinhamento entre capacidade e doutrina. Isso pode resultar em emprego inadequado dos meios, aumento da vulnerabilidade em combate e limitação da capacidade ofensiva. Na prática, trata-se de operar um sistema de alta tecnologia de forma incompleta.
O campo de batalha contemporâneo é marcado por elevada letalidade, ampla disseminação de sensores, uso intensivo de sistemas não tripulados e crescente eficácia de armamentos anticarro. Nesse ambiente, a sobrevivência e a efetividade dependem diretamente da integração. O carro de combate permanece um elemento central, mas apenas quando inserido em um sistema que inclua infantaria blindada, proteção aproximada, consciência situacional e apoio em múltiplas camadas.
Assim, a questão central não é apenas dispor de um carro de combate moderno como o Leopard 2, mas sim estruturar uma força blindada coerente, concebida como um sistema integrado. Isso implica não apenas no binômio entre carro de combate e VBC com canhão de 30mm, com capacidade de emprego de munição de explosão programável (“Airburst Munition” – ABM), mas também na adoção de uma família de veículos baseada em uma mesma plataforma, com plena integração logística, operacional e de treinamento.
Em um cenário de restrição orçamentária e limitações estruturais, a decisão estratégica mais relevante não é escolher o equipamento mais avançado individualmente, mas sim construir uma capacidade efetiva, equilibrada, sustentável e compatível com a realidade nacional.


Respostas de 4
Excelente e oportuna análise. Pessoal quer carro de garagem para desfilar no final de semana e esquece que precisa é para o dia-a-dia.
Nunca vamos ter condição de operar um Leopard 2. Tem gente que vive no mundo da Lua. Precisamos de uma família de blindados leves e modernos que a gente tenha condição de adquirir e sustentar.
Bem eu ainda sou da turma que acha que um núcleo pessado, podendo ser “importado”, aliado com uma família média nacional mais coerente. Pois você não ficaria com uma blindagem incapaz em alguns casos (aqueles 5% que o médio não fazem) mas também não terá as limitações de um equipamento exclusivamente pesado e/ou importado.
O meu pensamento seria 1:3 agora o número real de meios acho que seria superior aos atuais números e não só isso as versões especiais seria com base no nacional porém com capacidade de atuar com todos os blindados mais pesados no mercado…
Eu sou a favor do conceito família, na torcida pelo Tulpar da Otokar, nas versões VBC Fuz e VBC CC