A necessidade da substituição do Leopard 1A5 em um mundo em guerra

A segurança nacional no cenário atual não é mais tão permissiva como no passado, e decisões não podem mais ser adiadas.

Por Paulo Bastos

Mesmo em um mundo que sempre operou sob a lógica da competição entre as grandes potências, conflitos regionais e chantagens por interesses estratégicos e comerciais, uma nova variável surgiu para complicar mais a geopolítica: a insegurança perante aqueles que sempre tivemos como aliados, mas que agora parecem mudar de opinião de um dia para o outro, impondo de forma unilateral seus interesses e colocando em ponto de rupturas alianças que acreditávamos serem sólidas.

Em termos práticos, já estamos inseridos em um ambiente de guerra, ainda que não formalmente declarado para muitos países e, é nesse cenário que se torna cada vez mais difícil adquirir, produzir e, principalmente, receber meios para garantia da soberania no tempo necessário.

Para o Brasil, isso tem consequências diretas: a disputa global por equipamentos, a priorização de países em conflito e as restrições industriais transformam qualquer atraso decisório em um risco estratégico. Ou seja, esperar deixou de ser uma opção confortável e passou a ser um sinal claro de vulnerabilidade, destacando uma frase comum ao mercado financeiro, mas que pode ser transportada para a defesa “quem decide tarde, recebe tarde — ou paga mais caro e com maiores limitações”.

E nesse contexto a permanência da viatura blindada de combate carro de combate (VBC CC) Leopard 1A5 BR como principal meio da Cavalaria blindada do Exército Brasileiro (EB) se torna cada vez mais preocupante.

O Leopard 1A5BR ainda é um carro de combate que pode ser empregado até em alguns cenários atuais, mas sua crescente indisponibilidade, por falta de componentes, está colocando a Força Blindada em risco (Foto: Hélio Higuchi)

NECESSIDADE DE SUBSTITUIÇÃO IMEDIATA

O Leopard 1A5 é um sistema de armas concebido em outra era, para enfrentar ameaças diferentes das encontradas nos dias de hoje e cuja modernização não resolve suas limitações fundamentais. No cenário proposto para sua aquisição ela era plenamente válida, mas diante do atual, sua relevância operacional se reduz progressivamente em um campo de batalha moderno.

Durante anos se trabalhou com o horizonte de 2027/2028 como um marco para sua substituição, já que inicialmente ele serviria apenas como um elemento de transição de uma força de blindados analógica, que ainda operava em conceitos oriundos da Segunda Guerra Mundial, para uma força mais moderna, porém com um menor risco operacional. Todavia hoje, esse prazo deve ser encarado como um limite crítico.

O EB necessita de um sistema moderno, coerente com o campo de batalha atual e isso implica, necessariamente, um veículo equipado com canhão de 120mm, padrão consolidado no Ocidente, capaz de enfrentar ameaças atuais (e futuras) e já adotado pelo novo vetor da Cavalaria Mecanizada, o Centauro II BR. Ao mesmo tempo, a plataforma deve situar-se na faixa de aproximadamente 45/55 toneladas, garantindo equilíbrio entre proteção, mobilidade e viabilidade logística dentro da realidade brasileira atual.

Os conflitos recentes, especialmente na Ucrânia e no Oriente Médio, demonstram que o campo de batalha mudou profundamente. A proliferação de drones, munições vagantes, sensores persistentes e armas de precisão exige plataformas com maior proteção, integração em rede, consciência situacional e capacidade de sobrevivência contra ameaças como ataques pelo topo, ou seja, apenas proteção blindada não é mais a garantia de sobrevivência no campo de batalha, e permanecer preso a conceitos e doutrinas herdadas de conflitos antigos é um erro estratégico que o Brasil não pode se permitir.

Nesse contexto, a substituição do Leopard 1A5 deve ser parte de algo maior: a criação de toda uma nova família de blindados sobre lagartas, como preconiza o próprio EB há mais de dez anos.

Essa família deve incluir não apenas uma nova VBC CC, mas também uma viatura blindada de combate de fuzileiros (VBC Fuz), capaz de transportar e apoiar a infantaria mecanizada com proteção e poder de fogo compatíveis com o ambiente atual, pois, uma força tarefa blindada baseada em uma plataforma comum, é essencial para garantir eficiência operacional, padronização logística e sustentabilidade ao longo do tempo.

Programas de escolha dessa magnitude exigem tempo: definição de requisitos, seleção de parceiro, negociação, transferência de tecnologia, produção e entrada em serviço. Cada ano perdido amplia o risco de um vazio de capacidade no futuro próximo. Mas não basta apenas substituir, é preciso substituir corretamente, pois uma decisão errada agora vai impactar diretamente o futuro da capacidade operacional de toda a Força Blindada.

Essa aquisição deve ser feita com base em critérios claros, sendo fundamental selecionar um projeto moderno e já existente, para evitar riscos (e custos) de um desenvolvimento do zero, mas maleável o suficiente para poder ser adaptado a doutrina da Força Terrestre e não o contrário.

A escolha do parceiro internacional para essa empreitada é outro desafio, pois, ele deverá ser o mais confiável possível, possuir afinidade política com o Brasil e, sobretudo, não impor restrições para transferência de tecnologia, emprego operacional ou mesmo futuras exportações. Em um ambiente global cada vez mais complexos, depender de fornecedores sujeitos a vetos, ou dotados de agências de controles com claros interesses políticos, representa uma vulnerabilidade estratégica inaceitável.

Outro aspecto essencial é a comunalidade com os meios já em uso no EB, reduzindo complexidade logística e facilitando a transição. E, acima de tudo, o programa deve ser estruturado para permitir produção no Brasil, principalmente na parte de componentes críticos, com ampla participação da indústria metalúrgica, automobilística e de defesa, além do desenvolvimento de tecnologias próprias. Não se trata apenas de adquirir veículos, mas de construir uma capacidade industrial real, gerando empregos qualificados e ampliando a autonomia estratégica do país.

A situação das VBC M60A3 ainda é mais complicada. Restritas ao 20º RCB, em Campo Grande (MS), sua cadeia de suprimentos simplesmente não existe mais (Foto: João Paulo Moralez)

O RISTO DA FALTA DE DECISÃO

A demora na tomada de decisão leva a um cenário previsível (como o que já está ocorrendo): envelhecimento acelerado da frota, aumento de custos de manutenção, queda de disponibilidade e perda de capacidade operacional. E isso está levando o EB à adoção de soluções emergenciais — inevitavelmente mais caras, menos eficientes e estrategicamente frágeis.

A substituição das VBC CC Leopard 1A5, dentro do Projeto da Nova Família de Blindados sobre Lagartas, dentro do Programa Estratégico do Exército Forças Blindadas, tem por objetivo não só a substituição das viaturas, mas a continuidade da modernização da capacidade operacional de toda a Força Terrestre, iniciada com a Família Guarani, para enfrentar os desafios de uma nova era.

Nesse caso o Brasil ainda possui uma janela de oportunidade, mas ela está se fechando rapidamente, e como será uma decisão estratégica que definirá a capacidade de combate do EB pelas próximas décadas. No cenário atual, o tempo deixou de ser um aliado.

As chamadas “compras de oportunidade”, como a oferta dos Leopard 2A6, podem parecer uma solução atraente para alguns, mas escondem armadilhas que o próprio EB já caiu em passado recente, e que não deverá repetir (Foto: Bundeswehr)



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