Os últimos Tomcats: o destino incerto dos F-14 iranianos

F-14A Tomcat da Força Aérea do Irã. (Foto: Shahram Sharifi)

Poucas aeronaves de combate possuem uma mística tão grande quanto o Grumman F-14 Tomcat. Feito para defender os porta-aviões dos Estados Unidos em uma Guerra Fria que nunca esquentou, o caça manteve sua reputação mesmo quase duas décadas após ser retirado de serviço. Hoje, porém, os últimos exemplares em operação pertencem à Força Aérea da República Islâmica do Irã (IRIAF). E seu destino voltou ao centro das atenções com a escalada recente no Oriente Médio.

Assim que Estados Unidos e Israel iniciaram os movimentos que antecederam as operações Epic Fury e Roaring Lion, surgiram questionamentos sobre as condições operacionais da frota iraniana de Tomcats. As dúvidas rapidamente se espalharam pelas redes sociais, acompanhadas de memes sobre os “Alicat”, como os jatos foram chamados pela Grumman à época da venda ao Irã

Perguntas nesse estilo inundaram as redes sociais, junto, é claro, de inúmeros memes sobre os “gatos persas” da Força Aérea da República Islâmica do Irã (IRIAF).

No dia 08 de março, as Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram um ataque massivo contra a 8ª Base Aérea Tática da IRIAF, em Isfahan. Distante cerca de 340km da capital teerã, Isfahan é sede dos 81º, 82º e 83º Esquadrões de Caça Tático, últimos operadores da frota de Tomcats do Irã.

Pelo X (antigo Twitter), a IDF disse que a missão atingiu “complexos onde estavam armazenados os caças F-14 do regime terrorista iraniano”,  como parte dos esforços “para consolidar a superioridade aérea da Força Aérea no espaço aéreo iraniano.”

Dias depois, imagens de satélite obtidas pela empresa Vantor confirmaram danos significativos na base. Pelo menos dois F-14 foram destruídos, além de outras aeronaves e estruturas. As imagens também indicam impactos em hangares reforçados, indicando que parte da infraestrutura destinada à proteção e manutenção da frota foi atingida.

Caças do Xá

A história dos Tomcats do Irã começa com um problema. Na década de 1970, o então Império do Irã, comandado pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi e com excelentes relações com o Ocidente, tinha uma das forças aéreas mais poderosas no Oriente Médio. Servida de caças modernos (para a época) e com um bom número de aeronaves

No entanto, o caça mais potente do país, o F-4 Phantom II, não era capaz de interceptar os altamente velozes MiG-25 Foxbat da URSS, que realizavam diversos voos de reconhecimento no espaço aéreo iraniano. Diante do problema, Washington autorizou Teerã a avaliar os dois caças mais avançados disponíveis à época: o McDonnell Douglas F-15 Eagle e o F-14.

Uma demonstração dos dois caças bimotores selou a vitória do jato da Grumman em 1974. Teerã assinou um acordo de US$ 2 bilhões (cerca US$ 13,5 bilhões na inflação atual) para a compra de 80 F-14A, mais de 700 mísseis AIM-54 Phoenix, além dos tradicionais AIM-7 Sparrow e AIM-9 Sidewinder, suportados por uma ampla infraestrutura de apoio logístico. Os aviões começaram a chegar em 1976, mas três anos depois veio a Revolução Islâmica.

Pilotos de F-14 da então Força Aérea Imperial do Irã. (Via Wikimedia)
Pilotos de F-14 da então Força Aérea Imperial do Irã (Via Wikimedia)

Os embargos dos EUA cortaram todo e qualquer suprimento para a “nova” IRIAF. Ao mesmo tempo, o novo regime perseguiu os militares: a maioria dos que não fugiram do país foram executados ou presos. Quem estava na prisão acabou sendo libertado no ano seguinte para voar na Guerra Irã-Iraque.

Caças do Aiatolá

Dos 80 aviões comprados, o Irã só não recebeu a última unidade, retida nos EUA por conta da Revolução de 1979. Mesmo assim, os Tomcats iranianos tiveram papel importante na Guerra Irã-Iraque. Equipados com o radar AN/AWG-9 e os mísseis Phoenix, os F-14 da IRIAF teriam conquistado cerca de 130 abates confirmados, principalmente contra caças iraquianos Mikoyan-Gurevich MiG-21 e Mikoyan-Gurevich MiG-23.

Sem acesso ao suporte da fabricante, o Irã precisou desenvolver soluções próprias para manter a frota operacional. Isso incluiu canibalização de aeronaves, engenharia reversa de componentes e a integração de armamentos alternativos, como o míssil russo Vympel R-27 e até adaptações do míssil antiaéreo MIM-23 Hawk para emprego ar-ar.

Ao fim do conflito com o Iraque em 1988, o Irã tinha cerca de 30 F-14A em condições de voo, segundo o The National Interest. 

Em 2006, a Marinha dos EUA aposentou seus últimos F-14, que deram espaço aos F/A-18E/F Super Hornet. Para evitar o contrabando de peças, Washington ordenou a destruição da maioria dos exemplares remanescentes que não fossem preservados em museus. Hoje restam oito F-14 no cemitério de aviões da Força Aérea dos EUA no Arizona, segundo dados do site AMARC Experience, que compila as aeronaves preservadas no 309º Grupo de Manutenção e Regeneração Aeroespacial.

 

Tomcats da IRIAF sobrevoando a Cordilheira Alborze. Detalhe pra aeronave em primeiro plano carregando mísseis terra-ar MIM-23 Hawk, convertidos para emprego ar-ar. (Foto via @M4RDUK_701)
Tomcats da IRIAF sobrevoando a Cordilheira Alborze. Detalhe pra aeronave em primeiro plano carregando mísseis terra-ar MIM-23 Hawk, convertidos para emprego ar-ar (Foto via @M4RDUK_701)

Obter números precisos sobre a frota iraniana ainda é difícil. Segundo o levantamento World Air Forces 2026, publicado pela Flightglobal, o país possuía 41 F-14 em inventário até o final de 2025. No entanto, nem todos estariam totalmente operacionais.

Mesmo em condições de voo, não eram todos os Tomcats que estavam em plenas condições de combate. Como observa o The War Zone, a frota era dividida “entre aeronaves com radares totalmente funcionais e aquelas com capacidades mais reduzidas.” Ao mesmo tempo, o portal também contrapõe o levantamento de Flightglobal, afirmando que “as estimativas de quantos Tomcats iranianos ainda estão em condições de voo variam bastante nos últimos anos, de apenas alguns a talvez até 25.”

Dos 12 Dias a Roaring Lion

Ainda no ano passado, durante a Guerra dos 12 dias, a Força Aérea Israel já havia destruído pelo menos outros dois F-14, que aparentemente já estavam fora de serviço e utilizados como fontes de peças.

Nas duas ofensivas, não foi registrado nenhum confronto entre os Tomcats da IRIAF e os caças dos EUA, Israel e demais nações envolvidas. Israel derrubou um Yak-130 iraniano, enquanto o Catar abateu um par de Su-24. O esforço de defesa aérea se concentra em combater os numerosos drones Shahed e mísseis balísticos.

Dessa forma, eventos recentes tem levantado ainda mais questionamento sobre o real estado desses caças. É possível que os últimos aviões estejam em bases subterrâneas que o próprio Irã já havia apresentado. Diante desse cenário, uma palavra parece definir o destino dos últimos Tomcats “operacionais” do mundo: incerteza. Para os fãs do F-14, a esperança é ter mais informações no dissipar da névoa de guerra.

Imagem divulgada por Israel em 2025 mostra ataque a um F-14 durante a Guerra dos 12 dias. (IDF/Divulgação)
Imagem divulgada por Israel em 2025 mostra ataque a um F-14 durante a Guerra dos 12 dias (IDF/Divulgação)

COMPARTILHE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *