Armado com rebites, máquinas de solda, fôrmas, pistolas de tinta e muita paixão, esse gaúcho vai além do que restaurar aeronaves. Ele cria pontes aéreas entre o público e a história que sobrevoam suas cabeças todos os dias, quase sempre sem que percebam.
Imagine estar caminhando por uma rua tranquila da Zona Norte de Porto Alegre e, de repente, dar de cara com uma pequena esquadrilha estacionada em um pátio comum. Um caça AMX A-1, um jato executivo Learjet U-35, um helicóptero UH-1 Huey e dois P-95 Bandeirulha, colados uns aos outros. Junto, um Volkswagen Gol com uma pintura excêntrica, similar à de um caça. Foi essa a primeira cena que encontrei ao chegar ao espaço de Luciano André Schneider, um gaúcho que elevou a paixão pela aviação a um patamar bem mais acima do comum.
Antes de cruzar a grade, parei por alguns segundos para observar o movimento da rua. Pessoas desaceleravam o passo, olhando com estranhamento para aquelas aeronaves e para a quantidade impressionante de peças espalhadas ao fundo.
Não demorou para Schneider aparecer. Natural de Salvador do Sul, cidade a menos de 100 quilômetros da capital gaúcha, o ex-marceneiro me recebeu no “hangar”, um grande espaço que abriga de caças AMX e F-5 à helicópteros Esquilo e Huey, além de um simulador de voo e uma infinidade de componentes de todos os tipos imagináveis.
A camiseta branca, temática do Esquadrão Pampa, “tingida” com as partículas de metal, deixa claro que era mais um dia de trabalho intenso na restauração. Carenagens, spinners e hélices, asas inteiras, componentes de comando, painéis, instrumentos, empenagens. Cunhetes de munição que um dia foram preenchidos por cartuchos de 20 e 30 milímetros agora guardam peças destinadas à preservação histórica.
Dentro do “hangar”, a trilha sonora era de máquinas de solda, serras circulares, esmerilhadeiras e trenas esticando para medir alguma peça. Eventualmente, o estrondo de um componente mais pesado sobrepunha os sons mais constantes. Completando a sinfonia industrial, os ruídos de aviões comerciais e helicópteros pousando a menos de 400 metros dali, no Aeroporto Internacional Salgado Filho.
Movido pela paixão
A relação com a aviação começou cedo. Ainda criança, montou o primeiro avião aos oito anos usando um facão e ripas de madeira que sobraram da cerca de um vizinho. O pequeno monomotor azul, com cerca de 30 centímetros, divide o espaço do galpão com aeronaves que já cruzaram o céu de verdade.
Schneider não tem formação em engenharia aeronáutica nem passagem pelas fileiras militares. Tentou ingressar na Força Aérea aos 18 anos, mas a estatura impediu. Durante 32 anos, a marcenaria foi seu sustento, sempre caminhando ao lado da curiosidade técnica e da busca por oportunidades no restrito mercado de aeronaves desativadas. Até que chegou o momento de virar a chave.

“Quando eu comecei a perceber que perseguir um sonho desses não era impossível, eu fui atrás. Com coerência, honestidade e jogo limpo, tu consegues o que tu queres, dá pra gente se virar.”
Assim veio o primeiro avião.
Em 2016, ele comprou um Grumman P-16 Tracker, por R$9 mil. Mais tarde, trocou por um Bell 222, seu primeiro helicóptero. Vendeu e comprou outros três Neiva T-25 Universal, e não parou mais, deixando a marcenaria de vez.
“Hoje esse é meu ganha-pão diário. Eventualmente vendo peças para souvenir ou faço restauração de alguma aeronave particular. É um mercado pequeno, mas estou abrindo espaço. Sendo honesto e sem prometer o que não dá para entregar.”
A grande virada aconteceu quando começou a restaurar aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB), trabalho que realiza de forma totalmente voluntária. As atividades começaram na Base Aérea de Canoas, onde ajudou a revitalizar exemplares preservados como o Gloster Meteor, o TF-33 Thunderbird, o F-5 Tiger II e o C-95 Bandeirante. Depois vieram outras bases pelo país, e agora os trabalhos devem alcançar também aeronaves históricas da Marinha do Brasil.
Nem mesmo as enchentes de maio de 2024, o maior desastre natural da história do Rio Grande do Sul, interromperam o ritmo. Schneider também foi diretamente atingido pela água. O depósito em Eldorado do Sul ficou sob 4,5 metros de água. Ele calcula prejuízo de cerca de R$ 280 mil em ferramentas, estrutura e peças, além de materiais furtados após a inundação.
Ainda assim, manteve o compromisso com a FAB e seguiu restaurando as aeronaves em Canoas. “O militar tem que zelar pela segurança. Eu entendo o cuidado. Quando acreditaram em mim, eu tratei de honrar isso.”
O reconhecimento veio de várias formas, inclusive com o título de Membro Honorário. À época, o então comandante da Base, tenente-coronel Thiago Romanelli, destacou o entusiasmo do restaurador, descrevendo-o como um civil cuja alma se reveste das cores da FAB.

“Ele é um aficionado, um amigo da FAB e tem expertise em recuperar monumentos. Aqui ele está colocando um pouco do seu patriotismo e da paixão por aviação, que sinceramente, é o que move a maioria dos nossos homens e mulheres que vestem azul. Tê-lo aqui nessa oportunidade de trabalhar, recuperar e manter ainda mais viva a nossa história por meio dos nossos monumentos é muito importante”, afirmou o militar em reportagem da própria FAB.
Hoje, Schneider possui cerca de 35 aeronaves. São dois F-5E/F, cinco exemplares da família C-95 e P-95, um Learjet U-35, três UH-1 Huey, o cockpit de um Douglas C-47 – que segundo ele esteve no Dia D – e diversos outros modelos. O destaque fica por conta dos 15 caças-bombardeiros AMX A-1, que ele mesmo chama de cartas repetidas e utiliza como moeda de troca para novas aquisições.
Todos foram comprados em leilões da FAB, vendidos como sucata e obrigatoriamente descaracterizados para impedir qualquer retorno às condições de voo.
Além dos aviões, ele possui uma “viatura”; um Gol 2001, comprado por ele em 2003 e que começou a ser modificado em novembro de 2023. O carro não recebeu apenas a pintura de combate – inspirada na antiga camuflagem cinza dos caças A-1.
Schneider instalou indicadores de altitude e velocidade do helicóptero UH-1, um manche de F-5, manete de potência do AT-26 Xavante, tubo de pitot do AMX e uma multimídia que simula uma tela de radar. O carro não é apenas decorativo, mas sim ferramenta de trabalho, usado para transportar material de pintura e funilaria até o local da restauração.
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Apesar de já conhecer o caminho, ele admite que cada compra de aeronave é um desafio. “Tu compras e aí começa a novela.” É preciso preparar a estrutura no local de origem, realizar cortes técnicos para transporte, coordenar entrada de carretas e guindastes, liberar portões e organizar a logística. Depois que a aeronave sai da tutela militar, a responsabilidade passa a ser totalmente do comprador, inclusive nos aspectos ambientais e documentais.
A paixão, porém, fala mais alto e move uma aposta ainda maior. “Quero morar dentro de um C-130”, diz, rindo, ao comentar os próximos objetivos. Também mira um H-60 Black Hawk completo, do qual hoje possui apenas algumas peças, além de outros tantos modelos que deseja.
Pode parecer exagero, mas Schneider não acumula aviões para brincar de força aérea. Seu grande desejo é verdadeiramente nobre e envolve o compartilhamento de toda sua frota.
No país do Pai da Aviação, os aviões muitas vezes ficam confinados a bases e aeroportos. Se depender dele, o destino das aeronaves não será um pátio fechado. O grande plano é criar um espaço aberto ao público, algo entre museu interativo e parque temático. O sonho é que as crianças e adultos possam entrar nas aeronaves, tocar nos comandos e serem “picados pelo mosquito da aviação”.
Não necessariamente para formar pilotos, mas engenheiros, mecânicos, projetistas ou apenas cidadãos fascinados por tecnologia e máquinas voadoras. O projeto de Schneider tenta aproximar esse mundo do público comum. Transformar sucata em memória, alumínio em inspiração.
“O Brasil não tem essa cultura de grandes encontros aeronáuticos como nos Estados Unidos. A gente tem iniciativas fantásticas, mas ainda restritas.”

Ele menciona o Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro como exemplo de projeto admirável, embora reconheça as limitações geográficas e estruturais para visitação em larga escala. A ideia dele é mais próxima, mais tátil. Deixar experimentar e imaginar. “Se uma criança quebrar um botão, eu vou lá e coloco outro no lugar.”
Ao ouvir Luciano, fica claro que não se trata de acúmulo. Ele próprio critica a lógica da posse pelo status. “Ninguém leva nada daqui”, reflete ele, pensando sobre o inevitável apagamento das luzes da vida humana individual. O que tenta construir é acesso a um tema ainda muito restrito.
Zero-Meia – O F-5 que pousou sozinho
No interior do espaço de Schneider, vejo um F-5FM repousando em um canto, apoiado sobre pneus, aguardando a restauração. À primeira vista, parece apenas mais um caça desativado. Mas o FAB 4806 carrega uma trajetória singular – marcada por um episódio que entrou para o folclore da aviação militar brasileira.
O jato biplace, adquirido usado dos EUA em 1988, foi entregue no ano seguinte ao Esquadrão Pampa. Ao longo da carreira, acumulou diversas ocorrências, incluindo um pouso de barriga, até a mais emblemática, em 5 de julho de 2016. Já modernizado ao padrão F-5FM e operando pelo 1º Grupo de Aviação de Caça, sediado na Base Aérea de Santa Cruz, o “Zero-Meia” realizava um voo de treinamento, tripulado pelos então capitães Fabio Guimarães de Mello Jr. e Gustavo Freitas de Souza.

Durante a missão, uma pane impediu o acionamento correto dos trens de pouso, que não estendiam. Ainda com combustível a bordo, os pilotos optaram por permanecer em órbita para reduzir peso antes de abandonar a aeronave. As alças dos assentos ejetáveis foram acionadas a cerca de 500 pés (152 metros), às 18h45, em área paralela à pista de Santa Cruz.
A ejeção foi bem-sucedida. O desfecho lógico seria a queda imediata do caça, mas o 4806 tinha uma última surpresa. Sem mais ninguém a bordo, começou uma curva descendente e acabou “pousando” sozinho na área gramada da base. Deslizou por aproximadamente 100 metros até parar, com danos no nariz, estabilizador horizontal e asa do lado direito e o tanque de combustível ventral.
Não houve incêndio nem desintegração. Quando as equipes chegaram, encontraram os painéis ainda ligados. Até mesmos os trens de pouso estavam funcionando, como constatado em inspeção posterior. Uma cena que parecia desafiar a lógica.
Removido da grama, o caça foi transferido ao Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA-SP), no Campo de Marte, responsável pelas inspeções e manutenções de maior porte no projeto F-5. As avaliações indicaram que o jato poderia ser recuperado e retornar ao serviço, fato que nunca aconteceu.
O 4806 foi a leilão sete anos depois, em agosto de 2024, ao lado do FAB 4885, um exemplar adquirido da Jordânia que sequer chegou a voar pela FAB. Ambos foram arrematados por Schneider, que concentra esforços na restauração daquele que, há quase uma década, contrariou o destino previsível e fez questão de tocar o solo por conta própria.
Quem deseja conhecer o espaço de Luciano, em Porto Alegre, ou mesmo adquirir peças de aeronaves, pode entrar em contato com o restaurador pelo número (51) 99299-2000.








Respostas de 3
FANTÁSTICO, PARABENS Luciano, muita saúde, força e fé……..abraço no coração ❤️ ❤️ ❤️ ❤️ ❤️
Parabéns pelo exemplar trabalho nas aeronaves. Seu entusiasmo é contagiante, não só por aviões ou helicópteros, mas por manter viva a memória das aeronaves que nos antecederam na defesa e soberania do espaço aéreo brasileiro.
Nos shows aéreos em que tive o prazer de visitar nos EUA eu vi gente ganhando dinheiro e realizando o sonho de muita gente.
Eles tem cabines de várias aeronaves de caça, reconstruídas para fotografias.
Você veste um macacão de voo, ou simplesmente o capacete, e tira uma foto como se estivesse em um caça de verdade.