Quando um “mero avião de treinamento” enfrentou uma das maiores forças navais de sua época
Paulo Bastos e Hélio Higuchi
Quando o Conflito das Malvinas eclodiu, em 1982, a Armada de la República Argentina (ARA) viu-se diante de um desafio operacional extremo. Com recursos limitados e frente a uma força-tarefa britânica tecnologicamente superior, cada aeronave disponível ganhou relevância estratégica. Entre elas estava o Aermacchi MB-339A, originalmente concebido como treinador avançado, mas que acabaria desempenhando papel ativo no conflito, e muito além do que se esperava de uma aeronave dessa categoria.
BASE DA FORMAÇÃO DA AVIAÇÃO DE CAÇA NAVAL
No final da década de 1979, a Armada de la República Argentina (ARA) adquiriu dez aeronaves MB-339A, juntamente com oito MB-326GB (o nosso conhecido EMB-326 Xavante), diretamente da então Aermacchi (atual Leonardo), que foram destinados à 1.ª Escuadrilla Aeronaval de Ataque (EA41), unidade da Aviação Naval Argentina, sediada na Base Aeronaval Punta Indio. Sua incorporação ocorreu entre 1978 e 1980, quando receberam as matrículas da Aviação Naval Argentina 4-A-110 a 4-A-119. Assumiram a função de treinador avançado e ataque leve, substituindo gradualmente os T-28P Fennec na formação final dos pilotos antes da conversão para os caças McDonnell Douglas A-4Q Skyhawk e, posteriormente, para o Dassault-Breguet Super Étendard.
O MB-339 havia sido incorporado como plataforma de treinamento avançado e transição para aeronaves de caça embarcadas, essencial para a SUA formação, e foi nele que os pilotos da primeira linha da aviação de caça da ARA foram formados e lapidados antes de seguirem para os vetores de combate principais.
Ele representava a última etapa antes da plena operacionalidade em aeronaves de ataque embarcadas, onde consolidavam a navegação tática, voo a baixa altitude, formação e disciplina de ataque, emprego de armamento ar-superfície e operações em ambiente marítimo. Essa sólida formação foi decisiva em 1982, pois muitos dos pilotos que voaram A-4Q e Super Étendard contra a esquadra britânica haviam sido preparados e lapidados no MB-339.

EM COMBATE
Quando o conflito eclodiu, em 1982, a ARA viu-se diante de um desafio operacional extremo, devido aos recursos limitados diante de uma força-tarefa britânica tecnologicamente superior, cada aeronave disponível ganhou relevância estratégica, e foi justamente a EA41, com suas aeronaves, MB-339A, a designada para operar a partir das ilhas, marcando a estreia em combate do modelo sob bandeira argentina.
Com a ocupação das Malvinas, os MB-339 passaram a operar nas bases de Punta Índio, Rio Grande, Trelew, Bahia Blanca e Ushuaia, em conjunto com os MB-326. A partir de 24 de abril, ficou decidido a transferência de aviões de combate à jato da COAN para as ilhas, operando a partir da Estação Aeronaval Malvinas, localizada no Aeroporto de Puerto Argentino (ou Stanley, para os britânicos).
O vetor escolhido foi o MB-339, pois em comparação com os MB-326 possuíam as seguintes diferenças:
- O MB-326 excedia os limites de operação segura da pista, principalmente durante a aterrissagem, e o MB-339 tinha um sistema de frenagem mais eficiente;
- O MB-339 tinha um instrumental mais completo e estava equipado com sistema IFF (“Identification Friend or Foe”); e
- O MB-339 tinha maior poder de fogo, equipado com canhões DEFA, de 30x113mm, enquanto os MB-326 estavam armados com metralhadoras 12,7x99mm, e a combinação do canhão e foguetes ar-superfície de 5’’ foi considerado a opção ideal para cumprir missões de apoio aéreo aproximado.

O aeroporto de Puerto Argentino era muito limitado, e as áreas de manobras pavimentadas foram reservadas para os aviões de transporte que abasteciam as ilhas de forma ininterrupta. Assim, os MB-339 ficaram estacionados afastados da área de embarque e perto da pista. Para evitar que os aviões atolassem no terreno, foram colocadas pranchas metálicas móveis no local, com as peças de reposição e ferramentas guardadas em pequeno hangar disponível, e devido à ausência de tratores, reboques e escadas para manutenção, o combustível e armamento tiveram que ficar perto da linha de voo.
No dia 1º de maio, durante um ataque de cinco Sea Harrier contra o aeroporto, o lançamento de três bombas de 1000lbs (453 kg) e doze bombas Cluster BL755 atingiu o hangar, destruindo a maior parte das peças de reposição, mas sem provocar vítimas.
Inicialmente o aeroporto operou com duas aeronaves, a 4-A-113 e 116, sendo que, no dia 3 de maio, o 113 bateu uma das asas numa pequena elevação a dois quilômetros da pista, durante os procedimentos de pouso, caindo numa praia perto do farol do Cabo Pembroke, vitimando fatalmente o piloto tenente de fragata Carlos Benitez.
No dia 14, são enviados para as ilhas mais dois MB-339 (4-A-112 e 115), e pousam durante o ataque de caças Sea Harrier, do 800th squadron da Royal Navy, lançando bombas de 1000lb. O 4-A-112 teve avarias nas asas e trem de pouso, além de um pneu furado.
Mesmo com a falta absoluta de sobressalentes e ferramental, destruídas durante o ataque aéreo do dia 1º, as equipes de terra trabalham, sem desanimar, mesmo quando perceberam que as peças do trem de pouso enviados do continente para reparar o 4-A-112 eram incompatíveis, pois eram de MB-326, e o serviço de reparo atrasou mais quatro dias.
No dia 20 de maio, quando o 4-A-116 preparava para decolagem para uma missão, ingere um escombro do bombardeio na pista, avariando de forma irreparável o reator, ficando definitivamente fora de serviço.
No dia seguinte, as forças argentinas recebem informações de que uma desembarque de tropas britânicas estava em curso do estreito de San Carlos. Fica estabelecido enviar dois MB-339 para um voo de reconhecimento para avaliar o tamanho da força invasora. Os MB-339 4-A-112 e 115 foram designados para a missão, entretanto o 112 estava com um dos pneus furados, cabendo o 115 pilotado pelo então tenente de navio Owen Guillermo Crippa realizar a missão sozinho.

Crippa entra no canal do estreito no sentido Norte-Sul, com o sol nas costas, dando de cara com um helicóptero britânico Westland Lynx. Quando se preparava para o atacar, avistou inúmeros navios britânicos no estreito e resolve mudar o alvo. Voando rasante, passa ao lado das fragatas HMS Broadsword (F88), HMS Brilliant (F90) e HMS Plymouth (F126), em alta velocidade e tão perto da água que os britânicos não conseguiram disparar seus mísseis antiaéreos Seacat. Foi um ataque de surpresa, pois os britânicos não esperavam um ataque aéreo vindo do Norte, e sim do Oeste, e isso causou pânico a frota.
Ele atacou com foguetes e tiros de canhão a HMS Argonaut (F56), danificando a antena do radar de alerta aéreo de longo alcance Type 965 (que facilitou o ataque posterior dos caças Skyhawk) e ferindo três tripulantes. A fim de reportar de forma mais concisa a frota invasora, Crippa volta a sobrevoar sobre a frota inimiga, mas dessa vez é recebido por fogo antiaéreo de canhões de 40mm e um míssil antiaéreo de ombro Blowpipe, disparado do navio de transporte de tropas SS Camberra, mas se desvencilhando com inúmeras manobras.

Depois da missão, que durou apenas 45 minutos, retornou a sua base , detalhando o posicionamento da frota inimiga para o Alto Comando, se preparou para um segundo ataque, desta vez acompanhado por outro MB-399. Porém esse foi abortado durante os preparativos de decolagem, pois os caças Skyhawk e Dadger haviam sido enviados, a partir dos dados que Crippa enviou. Essa foi uma das missões mais icônicas da aviação argentina.
No dia 26, para efetuar uma missão contra alvos terrestres, apenas o 4-A-11) estava disponível, pois o 4-A-115 estava com problemas no sistema elétrico, e ao iniciar a decolagem teve que abortar a missão por ingestão de um detrito avariando o motor. No mesmo dia, finalmente chegam reforços do continente: três MB339 (4-A-110, 114 e 117), além do Fokker F-28 5-T-20 que trouxe peças sobressalentes e novo pessoal técnico. O 4-A-115 foi recuperado utilizando peças retiradas do 4-A-112 e 116.
No dia 28 de maio, são acionados para uma missão contra alvos terrestres em Goose Green, entretanto, novamente, dos três aviões acionados (4-A-110, 114 e 117) apenas dois decolam, pois o 4-A-110 não conseguiu dar partida. Durante o ataque, o 4-A-114 foi derrubado por um míssil Blowpipe, matando o piloto tenente de corveta Daniel Miguel. Essa foi a última missão dos MB-339 estacionados em Puerto Argentino.
O 4-A-115, depois de muito esforço é reparado e retorna em voo para o continente, conseguindo escapar dos caças Sea Harrier e da defesa antiaérea da frota inimiga.
Assim que terminaram as hostilidades os MB-339 que permaneciam nas Malvinas (4-A-110, 112 e 116) são inutilizados, quebrando a machadadas o “plexyglass” transparente da cabine, cortando os paraquedas e disparando os assentos ejetores.
Os problemas enfrentados pelos MB-339 na campanha, não eram próprios do avião, mas sim das condições impostas para operar, com escassez de sobressalentes, falta de equipamentos e ferramentas adequadas para manutenção, e a forma como eram mantidos no aeroporto, no relento, sem sequer contar com cobertura de lona na cabine, propiciando a corrosão por maresia na parte elétrica. E para completar a precariedade do aeroporto com áreas sem pavimentação, provocando panes por causa dos detritos ingeridos pelo motor, mesmo assim conseguiram enfrentar os britânicos. Os aviões que operaram no continente não apresentaram problemas, com alto grau de disponibilidade.

O LEGADO
Apesar de todas suas limitações (baixa velocidade comparada a caças supersônicos, proteção reduzida e capacidade limitada de carga), bem como diante das terríveis condições logísticas, os MB-339A demonstraram versatilidade e coragem operacional, assustando os britânicos e os fazendo-os mudar de estratégia.
É importante lembrar que, dada a tecnologia da época, esses aviões não dispunham de contramedidas eletrônicas, não possuíam sistemas avançados de autoproteção e tampouco operavam com mísseis guiados ar-ar ou ar-superfície. Ainda assim, foram mobilizados para o combate real e cumpriram suas missões muito além das expectativas, enfrentando um inimigo com clara superioridade numérica e tecnológica.
Essas missões evidenciaram a coragem das tripulações e a flexibilidade da plataforma: um treinador avançado estava agora executando missões reais de combate contra uma das marinhas mais experientes do mundo.
Embora não tenha sido protagonista estratégico como o Super Étendard com seus mísseis antinavio AM-39 Exocet, o MB-339A cumpriu seu papel garantindo um presença aérea constante nas ilhas, ampliando a capacidade de resposta imediata e obrigando os britânicos a ficar em alerta constante e prestando apoio tático às forças argentinas em terra, além de sustentar a cadeia de formação e prontidão da Aviação Naval.
Na história das Malvinas, o Aermacchi MB-339A não foi o avião mais poderoso, mas sem dúvidas um dos mais simbólicos: um treinador avançado que foi à guerra e provou que qualidade de formação e determinação podem compensar limitações materiais em um conflito assimétrico.

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Uma resposta
Excellente artigo. Bravura dos hermanos argentinos. Saudade de quando voávamos o Xavante. Sobrava hora de voo, fazíamos todos os tipos de missão. Hoje os jovens da FAB só pilotam escrivaninha.