Giacomo Cavanna, Ares Osservatorio Difesa (*)
No cenário da guerra moderna, saturado por enxames de drones e munições em órbita, a defesa aérea tradicional baseada exclusivamente em mísseis enfrenta suas limitações, tanto econômicas quanto táticas. É aqui que a Leonardo entra em cena com a família Hystrix (do latim “porco-espinho”), um conceito revolucionário que leva a letalidade e a precisão da artilharia naval para plataformas terrestres.
DEFESA EM CAMADAS
A filosofia por trás do Hystrix é a defesa em múltiplas camadas. A ideia é reutilizar componentes navais comprovados para criar uma bolha de defesa terrestre impenetrável, integrada ao conceito “Michelangelo Dome” para cobrir as chamadas zonas mortas dos sistemas de mísseis.
O sistema é baseado em três calibres para três níveis diferentes de engajamento: 30mm (Lionfish e X-Gun) para defesa de curtíssimo alcance (“Very Short-Range Air Defence” – VSHORAD) e ameaças rápidas; 40mm (Marlin 40) para médio alcance, e já vendido em grandes quantidades; e 76mm (Super Rapid) para engajamentos de longo alcance e defesa de pontos estratégicos. Mas é em calibres maiores que se trava o verdadeiro jogo pela supremacia aérea terrestre: o 76/62.

HYSTRIX 76 ADS
O cerne da proposta de longo alcance é o canhão naval 76/62 Sovraponte. Não se trata de um simples “transplante”, mas de um sistema de armas completo que combina mobilidade, poder de fogo e inteligência artificial avançada. Esta instalação requer a mínima intervenção para a “transferência” do ambiente naval para o terrestre. O canhão é montado em um reboque especialmente equipado.
O sistema de defesa antiaérea Hystrix 76 foi projetado para a defesa de pontos vitais, como aeroportos e infraestrutura crítica. O conjunto inclui um abrigo com todos os componentes eletrônicos de gerenciamento e sistemas de comunicação. A Leonardo também oferece uma vantagem tática: o canhão pode ser posicionado para proteger uma área, enquanto o trator pode ser guardado ou utilizado para outros fins.
A base do sistema Hystrix 76 ADS (“Air Defence System”) é modificação da plataforma VBM. A evolução da engenharia está na versão “Leve”. Nela, o canhão é integrado a um veículo baseado na plataforma desenvolvida pela IDV para a artilharia de 155mm, derivada do VBM. Para tornar isso possível, a torre foi devidamente redesenhada para reduzir o peso; a massa seca é inferior a 4.000 kg e a cadência de tiro foi otimizada para 100 disparos por minuto, de modo a equilibrar a estrutura.
O novo canhão é resultado de uma reutilização inteligente de componentes já desenvolvidos pela Leonardo para os canhões Sovraponte, Compatto e Super Rapid (SR), bem como componentes da torre HITFACT MkII.
O desempenho esperado deste sistema de armas inclui a interceptação bem-sucedida de um microdrone a uma distância aproximada de 3 km, aumentando para cerca de 4 km para mísseis subsônicos e 2 km para mísseis supersônicos.
Um retorno ao que era o Otomatic. Sem as esteiras, agora com maior mobilidade sobre rodas e principalmente com todo o conhecimento desenvolvido pela Leonardo na otimização do 76/62, bem como a nova eletro-óptica.

MUNIÇÕES INTELIGENTES
A força do canhão de 76mm reside não apenas em seu “ferro”, mas também em sua munição. O sistema dispara projéteis inteligentes capazes de corrigir sua trajetória ou explodir no momento preciso para maximizar o dano.
O novo detonador 4AP é programável e equipado com sensores de proximidade que “enxergam” o drone e detonam na distância ideal (2-3 metros), atingindo o alvo com um cone de fragmentos e uma intensa onda de choque.
Para ameaças mais complexas, o sistema utiliza munições guiadas; o sistema DART emprega projéteis guiados por radar, capazes de manobrar para interceptar mísseis ou aeronaves em manobra.
Com o Vulcano, munição de longo alcance (testada com sucesso contra alvos aéreos “Banshee”) que viaja a 1.100 m/s, estendendo o alcance efetivo bem além dos 5-6 km da munição padrão, a arma se torna uma verdadeira ferramenta multifuncional contra diferentes tipos de alvos.


SOLUÇÃO TESTADA COM SUCESSO
A eficácia do canhão de 76 mm foi comprovada por navios italianos e franceses no Mar Vermelho contra drones Houthi. Agora, com o Hystrix 76 ADS, essa mesma capacidade de negação de área chega às plataformas terrestres. Graças a sensores avançados e à integração com sistemas C2 (comando e controle) baseados em IA, como o AXIOS, o 76/62 terrestre está prestes a se tornar um guardião insubstituível dos céus do futuro.
A empresa italiana pretende iniciar a fase de testes da Hystrix 76 ADS antes do final do ano, enquanto o protótipo da Hystrix 76 ADS Light chegará posteriormente.

NOTA DO AUTOR
A imagem da capa é uma representação artística, não está em escala, não é real, de autoria de AresDifesa e não é obra da Leonardo SpA. O produto final pode diferir da representação.

(*) Ares Osservatorio Difesa é uma Associação Cultural italiana, fundada em 12 de abril de 2019, em Roma, para a análise e estudo de questões nacionais e internacionais relacionadas às áreas de defesa e segurança, e parceira de Tecnologia & Defesa no intercâmbio de informações, para manter os leitores atualizados das notícias importantes que ocorrem entre os dois países.
Uma resposta
Quem pensou que os canhões antiaéreos estavam indo para a aposentadoria…. a Guerra da Ucrânia mostrou que eles vão trabalhar muito ainda… o interessante desse canhão mais pesado é que ele tem maior alcance e, naturalmente maior capacidade destrutiva. Com IA e um bom sistema de C2, somado a um bom sistema de monitoramento (radar) e detecção (eletroopticos) será uma maquina mortal para drones e aeronaves que voam em baixa altitude….