EMADS italiano – Uma escolha correta, pragmática e soberana

A decisão do Exército Brasileiro (EB) em escolher o sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), de origem italiana, representa um ótimo exemplo de coerência estratégica, visão operacional e realismo político em um ambiente internacional cada vez mais hostil, restritivo e imprevisível. Longe de ser uma compra circunstancial, trata-se de uma escolha alinhada às exigências reais do campo de batalha contemporâneo e às limitações impostas pela atual conjuntura geopolítica.

O EMADS não é um sistema exótico nem experimental, trata-se de uma solução de defesa aérea de médio alcance, modular, escalável e plenamente integrada, concebida para operar em ambientes contestados e saturados por drones, mísseis de cruzeiro, aeronaves tripuladas e ameaças assimétricas, exatamente o espectro que domina os conflitos modernos.

A principal virtude do EMADS está na flexibilidade operacional. Seu conceito modular permite adaptação a múltiplos cenários, da proteção de infraestruturas críticas à cobertura de forças manobradas, sem aprisionar o EB a uma arquitetura rígida ou dependente de um único fornecedor.

Outro ponto decisivo é a independência política e logística. Ao optar por um sistema italiano, fora do eixo mais restritivo das regulamentações norte-americanas (ITAR) e alemãs (BAFA), o EB reduz significativamente os riscos de embargos, vetos operacionais ou limitações de emprego em cenários sensíveis. Em um mundo onde sanções se tornaram instrumento rotineiro de política externa, essa variável deixou de ser acessória, passou a ser fator de sobrevivência estratégica.

O EMADS também se destaca pela interoperabilidade de sua arquitetura aberta, que permite integração com sensores, centros de comando e sistemas existentes ou futuros, inclusive de origem nacional, como o datalink LinK-BR2 e os radares da Embraer. Isso preserva a liberdade de evolução da defesa antiaérea brasileira ao longo das próximas décadas.

KRONOS, O MULTIPLICADOR DE PODER

Se o EMADS é o corpo do sistema, o radar Kronos, da Leonardo, é o seu cérebro. Baseado em tecnologia AESA (Active Electronically Scanned Array), oferece detecção, rastreamento e engajamento simultâneo de múltiplos alvos, incluindo aeronaves de baixa assinatura radar, mísseis de cruzeiro e enxames de drones. Em um ambiente no qual a saturação do espaço aéreo deixou de ser exceção, essa capacidade é decisiva.

Mais do que “ver longe”, o Kronos é multimissão por concepção: classifica, prioriza e alimenta o sistema de comando e controle em tempo real, reduzindo drasticamente o ciclo sensor-atirador, um dos fatores críticos da guerra moderna.

Há ainda a maturidade tecnológica. Não se trata de promessa de catálogo, mas de um radar já testado, operado e continuamente evoluído, com amplo potencial de transferência de conhecimento, manutenção local e nacionalização progressiva. O Kronos representa o estado da arte em radares de defesa aérea e carrega o legado de mais de 40 anos de operação de radares italianos no Brasil, hoje presentes em diversas plataformas aéreas e navais das Forças Armadas.

A família de radares terrestres da Leonardo permite integração total com plataformas blindadas nacionais na versão antiaérea, favorecendo comunalidade logística e operacional. O resultado é uma defesa verdadeiramente em camadas, cobrindo do muito curto (VSHORAD) ao médio alcance (MRAD), com maior eficácia e consciência situacional.

Radar KRONOS (Imagem: Leonardo)


UMA DECISÃO ALINHADA COM O FUTURO

A escolha do EMADS com o radar Kronos sinaliza algo maior: um Exército que compreende que soberania não se constrói apenas com blindados, helicópteros e fuzis, mas com sensores, dados, integração e liberdade de decisão.

Em um cenário internacional marcado por conflitos regionais, disputas entre grandes potências e pelo uso crescente do espaço aéreo como principal vetor de ataque, investir em defesa antiaérea moderna deixou de ser opcional. É pré-requisito para qualquer força terrestre que pretenda operar com liberdade e sobreviver no campo de batalha contemporâneo.

Ao optar por uma solução italiana, modular, politicamente menos vulnerável e tecnologicamente madura, com histórico consistente de cooperação estratégica com o Brasil, recentemente reforçado por novos programas de blindados, como o da viatura blindada de combate de Cavalaria (VBC Cav) Centauro II, o EB fez mais do que escolher um sistema, fez uma escolha estratégica correta.

Uma decisão que fortalece a capacidade operacional, reduz riscos geopolíticos e prepara a Força Terrestre para os desafios reais, e não teóricos, do século XXI. Em tempos de incerteza global, isso não é apenas prudência, é visão de Estado.

Imagem das principais viaturas do sistema EMADS: Radar, Posto de Comando e Lançador (MBDA)

COMPARTILHE

Respostas de 14

  1. Boa tarde

    Excelente artigo.
    Só tenho uma dúvida essencialmente técnica, sem variáveis ideológicas ou políticas, o EMADS, repito, tecnicamente, é superior ao SPYDER MR e ao BARAK MX?

      1. Caro Paulo, o sr. tem informações se as avaliações do EB foram puramente técnicas ou se pesou na decisão o fato de que no atual governo, tanto Spyder como Barak seriam vetados, da mesma forma que na concorrência dos Obuseiros o EB selecionou o Atmos israelense e o governo proibiu a compra.

  2. E digo mais: a versão CAMM-MR, em desenvolvimento para a Polônia, pode no futuro, se houver dinheiro e interesse, ser integrada ao nosso (espero que em breve) EMADS, com apenas mudança de canisters por se tratar de uma versão mais larga e comprida.
    Terá mais de 100 km de alcance.
    Tenho certeza de que muita gente no EB, assim como eu, sonha com a dupla perfeita pro EMADS, o SAMP/T, o que nos daria capacidade contra mísseis balísticos. Mas aí é sonho impossível, porque se trata de brinquedo muito, muito caro.
    Só sei que a parceria com os italianos tem que continuar, pois tem rendido ótimos frutos nos últimos anos!

  3. Ótimo artigo como sempre Paulo Bastos! Parabéns pela qualidade de suas informações. Uma pergunta. Os mísseis CAMM ER podem ser substituídos por uma versão nacional ou nacionalizada futuramente?

  4. muito bom, deixar de depender exclusivamente dos americanos.
    só falta agora valorizar os operadores, não só oficiais, mas também os praças.

  5. considerando o atual cenário geopolítico, e o fato de que é um acordo gov-gov, o número de baterias a serem adquiridas poderia aumentar, caso haja pressão do EB?

    1. Será comprado 1 grupo com 2 baterias, cada uma tem 3 lançadores, e cada lançador comporta 8 mísseis CAAM ER. Também 48 mísseis e outros 12 mísseis inertes de treinamento. O planejado são 3 grupos.

      1. Importantissima esta aquisição deste sistema italiano,(nação sempre amiga),más na minha visão tem que se nacionalizar tudo a que se refere a defesa,claro nacionalização por etapas. A exportação de material bélico nacionais já é um dos principais itens de exportação,então que se invista nesta Industria,para que talvez,quem saiba dai surge os recursos para manter as forças armadas,qto a projetos,sem necessidade de recursos publicos,deixando só a remuneração por conta destes.

  6. Parabéns pelo artigo!

    Era a melhor opção dentre as apresentadas! Comunalidade com os CAMM das Tamandaré, possibilidade de integração com radar nacional (Saber M200?), veículos Iveco/Leonardo…

    Nossos (des)governantes e forças armadas desperdiçaram a primeira janela (IKL, AMX, Tamoyo, etc), que não percam essa segunda! Com exceção das via FMS, se não me engano, todas as aquisições de últimos 10/15 anos exigiram no participação em algum nível da BID…

    Na minha opinião, deveriam pelo menos dobrar essa quantidade pois continuaremos com áreas sensíveis desprotegidas. Principalmente refinarias e hidrelétricas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *