T&D foi à Suécia visitar o ninho dos Grifos, onde são formados os pilotos de Gripen.

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F7 Skaraborgs Flygflottilj, Kaiser David Konrad, de Såtenäs

Artigo originalmente publicado em 2015.

Såtenäs é uma pequena cidade situada entre a costa sul do lago Vänern e o centro urbano regional de Lidköping. É ali que está baseada a F 7 Skaraborg, uma das mais importantes alas da Força Aérea Sueca. Ao ser criada, em 1940, recebeu um esquadrão de bombardeiros B16A Caproni, italianos e logo depois passou a utilizar o sueco B17A, que serviu durante toda a Segunda Guerra Mundial. Såtenäs foi a primeira unidade a receber o J 27 Viggen e o moderno JAS 39 Gripen A/B. Com a entrada em serviço deste novo vetor de combate, a F 7 tornou-se responsável também pela instrução e formação dos futuros pilotos. Em 2012, todas as suas aeronaves foram convertidas para as versões mais modernas C/D, ficando com a frota padronizada com as unidades operacionais da F 17 e F 21, possibilitando aos Skaraborgs participarem de atividades voltadas diretamente ao combate, não ficando restritos somente à instrução. A F 7 é também a casa do primeiro operador (1965) de C-130 Hércules da Europa, e mantém voando os mais antigos do continente. Designados TP-84, atualmente são responsáveis pelo transporte aéreo internacional, apoiando os desdobramentos de aeronaves e de tropas em missões no exterior, devendo deixar o serviço ativo no próximo ano, e sua substituição representa uma boa oportunidade para o brasileiro KC-390.

As duas unidades de combate sediadas em Såtenäs são o 71º Sqn (Spider) e o 72º Sqn (Ghost), e estão a serviço da escola de aviação de Gripen, um centro internacional de formação que atende aos suecos e, opcionalmente, aos novos operadores da aeronave. Quando usados dessa forma os dois esquadrões são designados como 71º e 72º Combat Operational Training Unit, sendo o primeiro responsável pelo treinamento de pilotos estrangeiros, enquanto o segundo é voltado para os “de casa”. Nos corredores da escola se ouve diferentes sotaques de inglês e uma mescla de línguas, com sul-africanos, tailandeses, húngaros, suecos e brasileiros trabalhando em conjunto, intercambiando experiências e as mesmas expectativas: receber o brevê do Gripen, tornando-se piloto de uma das mais avançadas aeronaves de combate da atualidade. E, para entender como funciona essa formação é preciso conhecer as etapas anteriores, básicas, que começam com um jato cinquentão, da época da Guerra Fria, o SK 60.

O ALCE VOADOR

O jato SAAB 105 é uma aeronave de asa alta e dois motores que mais parece um alce voador. Foi desenvolvido nos anos de 1960 e entrou em serviço em 1967 ao serem entregues à Força Aérea da Suécia 150 exemplares na versão militar designada SK 60, que difere da civil por ter dois lugares ao invés de quatro, com os pilotos sentados lado a lado em assentos ejetáveis. Sua principal função era o treinamento, substituindo o De Havilland Vampire. Naquela época, 40 foram exportados à Áustria. Além de realizar o treinamento, quatro variantes foram produzidas, uma delas para reconhecimento e que recebeu uma modificação no nariz para carregar uma câmera panorâmica. Os SK 60 tinham também a função secundária de ataque leve, pois podiam carregar em pontos duros sob as asas dois canhões Aden, de 30 mm, foguetes de 12-13.5 cm, seis foguetes com capacidade antiblindagem ou mísseis ar-solo RB05. O tipo conduzia frequentemente operações em conjunto com o Exército, principalmente de patrulhamento aéreo das fronteiras e treinando combate dissimilar contra helicópteros.

Em 50 anos de uso o SK 60 transformou-se na aeronave militar mais voada da Suécia, sendo responsável pela formação básica e avançada dos seus pilotos, e esta marca foi atingida pela alta confiabilidade, em termos de segurança, e a disponibilidade na linha de voo. Para se ter uma ideia, em 1986, os suecos foram os primeiros no mundo a colocar uma aeronave a jato na instrução básica e isso gerou uma discussão sobre sua viabilidade, segurança e custos. Ainda hoje algumas Forças Aéreas são céticas com relação a isso. De acordo com o capitão aviador Anders Hjort, “ao se começar a instrução de voo com jato, o cadete terá uma formação melhor e ainda mais rápida”. Neste caso, também a seleção é muito mais rigorosa, com exames médicos, psicológicos e um estudo completo do perfil do futuro piloto.

RECEBENDO AS ASAS – O CAMINHO PARA O GRIPEN

A Academia Militar Karlberg (Militärhögskolan Karlberg), em Estocolmo encarrega-se da formação do oficial, em turmas conjuntas com cadetes da Marinha e do Exército. Depois de 18 meses de aula, os alunos seguem para Linköping onde passam por 12 meses de curso básico de voo. Desde seu primeiro contato com aeronaves, já é feito com o SK 60, e aprendem a decolar, pousar e a efetuar manobras básicas em cerca de 20 horas de voo. Como o SK 60 é lado a lado, o instrutor tem melhor consciência e acompanha o aluno em todas as suas ações, o que diminui a probabilidade de acontecerem erros e, por outro lado, isso também traz mais confiança para quem está aprendendo. Um detalhe importante é que os instrutores são responsáveis pelos alunos. É nesta fase que o cadete sabe se tem o perfil profissional para vir a ser um piloto de caça, reconhecimento, de helicópteros ou transporte. Ao término retorna a Estocolmo para concluir sua monografia, uma peça sobre a temática militar num assunto do seu interesse pessoal. Ao se graduar, o piloto retorna a Linköping para realizar o curso de tática básica, com seis meses de duração. São então treinadas missões de combate aéreo 1×1, 2×1 e 2×2, ataque ao solo com tiro básico e lançamento de foguetes de 6,3cm, reconhecimento, acrobacia com quatro aeronaves, navegação e voo noturno. Na fase final os jovens pilotos são enviados para um grande exercício de combate aéreo contra as escolas de aviação militar da Finlândia e da Noruega, para depois receberem as “asas”, sendo transferidos para as unidades de conversão para cursos específicos.

Aqueles classificados para a caça são enviados a Såtenäs onde ficarão pelos próximos seis meses fazendo o curso de conversão. Nesta etapa o piloto voa o Gripen D praticando decolagens, arremetidas, pousos e acrobacias, sendo que na metade dos voos se realizam manobras de looping e split, com foco naquelas evoluções que exigem o limite da máquina e do homem, explorando todas as suas potencialidades dentro do envelope operacional. No total, são 50 horas de simulador, onde é treinada em solo a missão a ser cumprida, e outras 50 horas em voo. Ao ser aprovado, o piloto enfim inicia o Combat Readyness Training 1, que é o curso básico de combate do Gripen, com mais seis meses e 100 horas de voo, metade no simulador. Depois de um ano em Såtenäs o piloto de Gripen segue para as unidades de combate F 21, em Luleå, e F17, em Ronneby, para fazer a conversão operacional e os Combat Readyness Training 2 e 3, cursos avançados com o treinamento das aptidões de combate, conforme as necessidades da Força Aérea. O piloto só será declarado operacional depois de dois ou três anos, um tempo que depende da disponibilidade de aeronaves e instrutores, e do quão ocupados estarão os esquadrões da primeira linha.

O FUTURO ESTÁ CHEGANDO

decolagens, arremetidas, pousos e acrobacias, sendo que na metade dos voos se realizam manobras de looping e split, com foco naquelas evoluções que exigem o limite da máquina e do homem, explorando todas as suas potencialidades dentro do envelope operacional. No total, são 50 horas de simulador, onde é treinada em solo a missão a ser cumprida, e outras 50 horas em voo. Ao ser aprovado, o piloto enfim inicia o Combat Readyness Training 1, que é o curso básico de combate do Gripen, com mais seis meses e 100 horas de voo, metade no simulador. Depois de um ano em Såtenäs o piloto de Gripen segue para as unidades de combate F 21, em Luleå, e F17, em Ronneby, para fazer a conversão operacional e os Combat Readyness Training 2 e 3, cursos avançados com o treinamento das aptidões de combate, conforme as necessidades da Força Aérea. O piloto só será declarado operacional depois de dois ou três anos, um tempo que depende da disponibilidade de aeronaves e instrutores, e do quão ocupados estarão os esquadrões da primeira linha.

Depois de 50 anos formando gerações de pilotos suecos, os SK 60 vão se aposentar e, com certeza, vão deixar saudades. Ainda não existe a informação sobre qual modelo irá substituí-lo, embora estudos estejam sendo conduzidos. Durante a fase de seleção do JAS 39 Gripen E/F para a Suíça, foi divulgado que a Suécia poderia optar pelo Pilatus PC-21, porém, como o fornecimento de caças ao país foi congelado, o mesmo aconteceu com o treinador suíço. Com a entrada do Brasil no programa Gripen e o incremento na cooperação industrial aeroespacial e militar entre ambos, abre-se também oportunidades naquele mercado para os treinadores básico Sovi, da Novaer, e o avançado Super Tucano, da Embraer. Outras opções bem cotadas são o moderno treinador italiano Alenia Aermacchi M-346 Master, recentemente selecionado pela Força Aérea Polonesa, e também o M-345 High Efficiency Trainer (HET), que fará seu debut em breve. Outra opção será o treinador avançado que está em desenvolvimento conjunto por Boeing e SAAB para concorrer no programa T-X que visa substituir os T-38 Talon na Força Aérea dos Estados Unidos.

Em 4 de maio deste ano, a Administração de Material de Defesa da Suécia (FMV) lançou uma solicitação de informação para um Military Flying Training System (MFTS). Segundo a RFI, as Forças Armadas da Suécia requisitam a modernização de todo o sistema de treinamento de pilotos de combate, que deverá fornecer todas as novas capacidades das aeronaves de última geração. Este novo sistema prevê a realização de 8 mil horas de voo anuais e outras 3 mil em simulador no sistema de treinamento baseado em solo (GBTS). O MFTS deverá iniciar sua operação entre 2018/19 e estar plenamente operacional em 2020, devendo preparar os pilotos suecos pelos próximos 30 anos.

Uma coisa é certa, os pilotos de Gripen E/F vão necessitar de uma aeronave de treinamento avançado de altas capacidades de voo, com possibilidade de realizar a simulação embarcada e em solo, e que ensine como gerenciar dezenas de sistemas, sensores e armamentos diferentes, para preparar com eficiência, mais rápido, e com maior economia de recursos aqueles que podem vir a ter que combater no moderno e complexo teatro de operações aéreas do século 21