Scramble: Alerta de Defesa Aérea – Eurofighter Typhoon italianos em ação!

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Tecnologia & Defesa foi conhecer a mais importante unidade de combate da Aeronautica Militare e a primeira linha de defesa aérea no Mediterrâneo.

Tecnologia & Defesa foi conhecer a mais importante unidade de combate da Aeronautica Militare e a primeira linha de defesa aérea no Mediterrâneo.

Kaiser David Konrad,

Enviado especial à Itália.

Artigo originalmente publicado em Tecnologia & Defesa em 2015.

A Base Aérea de Grosseto está localizada na região da Toscana, às margens do mar Mediterrâneo, e estrategicamente posicionada no centro da “bota italiana”. Ela é a casa do 4º Stormo Caccia e dos seus 9º e 20º Gruppo, sendo a principal Ala Aérea de combate da Força Aérea. Devido à sua proximidade geográfica, dentre outras responsabilidades, possui o “sagrado privilégio” de garantir a segurança do espaço aéreo sobre Roma e a Cidade do Vaticano.

Criado em 1931 e equipado inicialmente com o Fiat C.R. 20 foi empregado nos territórios da África Oriental Italiana e teve seu batismo de fogo na Guerra Civil Espanhola. Durante a Segunda Guerra Mundial participou de diversas campanhas tendo operado nas colônias e em missões de escolta de bombardeiros até Malta. Durante sua fase final, na Campanha da Itália, participou de diversos combates sendo empregado na tentativa de frear o avanço anglo-norte-americano. Sua destacada participação rendeu a maior condecoração militar do país, a Medaglia d’oro al Valor Militare.

No período da Guerra Fria, participou ativamente de operações conjuntas com países do bloco ocidental sendo importante unidade de combate à disposição da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Nos anos de 1990, seus F-104S Starfighter foram desdobrados para a Turquia como Unidade reserva durante a Guerra do Golfo. Anos depois participou ativamente na crise dos Bálcãs, na antiga Iugoslávia, tendo operado intensamente nas várias fases do conflito no Kosovo, e mais recentemente na operação Unified Protector, na Líbia.

Em 2004, depois de 40 anos, os Starfighter fizeram seu último voo de formação e despediram-se da unidade, que inaugurou uma nova era na Aeronautica Militare (AMI) ao receber o mais avançado avião de combate já desenvolvido pela indústria aeronáutica europeia: o Eurofighter Typhoon.

EF-2000

Resultado do desenvolvimento conjunto feito por Reino Unido, Alemanha Espanha e Itália, através de um consórcio formado pelas empresas BAE Systems (37,5%), Airbus Group Germany (30%) e Spain (13%) e Alenia Aermacchi (19,5%), teve produzidos 370 exemplares dos 571 encomendados de um total previsto de 719 para o projeto. O Eurofighter é uma aeronave multimissão, mas sua tarefa principal – dependendo do operador – é ser um interceptador de alta performance e longo alcance. Foi projetado para ser a primeira linha de defesa aérea das principais nações europeias, com capacidade para enfrentar as novas ameaças do teatro de operações aéreas do século 21 e vencer os mais modernos aviões do tipo.

Diversos estudos apontam o EF-2000 como o caça mais avançado do mundo depois do F-22 Raptor. Vem substituindo nos países integrantes do consórcio as frotas e diferentes versões do Tornado, F-18, F-4 e F-104, nos esquadrões de defesa aérea, e foi exportado para Áustria, Arábia Saudita e Omã, tendo acumulado mais de 300 mil horas de voo, estando operacional em 20 unidades de combate de seis nações, entre elas na Royal Air Force “Mount Pleasant no. 1435”, nas ilhas Falklands/Malvinas.

Os italianos encomendaram 96 aeronaves tendo atualmente em serviço 64 EF-2000 e 12 EF-2000T (versão biplace) dos modelos Tranche 1, 2 e 3, que estão distribuídos em cinco esquadrões (Gruppo) de caça componentes das Alas Aéreas (Stormo) 4º de Grosseto, (9º e 20º Gruppo), 36º de Gioia del Colle (10º e 12º Gruppo) e 37º de Trapani (18º Gruppo), responsáveis pela defesa aérea. O Eurofighter segue sendo o mais moderno e importante vetor de combate por lá, onde já atingiu a marca de 30 mil horas voadas.

DEFESA AÉREA

A Força Aérea Italiana, com o Comando de Operações Aéreas (COA), em Poggio Renatico (Ferrara), realiza a vigilância e defesa do espaço aéreo nacional, 24 horas por dia, através de um sistema integrado de cobertura-radar em terra com a utilização de aeronaves interceptadoras, garantindo a segurança, principalmente durante grandes eventos, e essa missão é uma atividade de vital importância para o país. A troca de informações entre a Força Aérea, os órgãos que controlam o tráfego aéreo civil e as autoridades encarregadas nos países vizinhos, membros da OTAN, funciona eficazmente, de forma coordenada, ao controlar os movimentos da aeronave suspeita aproximando-se e ou transitando pelo espaço aéreo italiano ou internacional. As funções de comando e controle de interceptadores da defesa aérea são, na OTAN, atribuídas ao Centro Combinado de Operações Aéreas (CAOC), em Torrejón (Espanha), enquanto a nível nacional são de responsabilidade do COA. Em ambos os casos, suas respectivas salas de operações podem ordenar o acionamento da defesa aérea. Se um contato radar não identificado é detectado, ou quando uma aeronave não cumpre os requisitos pré-determinados ou se desvia da rota planejada sem causas racionais, sem contato e autorização, é então rapidamente acionado o alerta de defesa aérea, o scramble dos interceptadores que, no âmbito da Aeronautica Militare, são guiados até os “alvos” por controladores em terra pertencentes ao Grupo de Controle e Suporte da Defesa Aérea, em Poggio Renatico, e aos 21º Esquadrão de Radares, em Poggio Ballone, e 22º, em Licola, de forma que os caças encontrem a aeronave suspeita e façam contato visual, realizando a identificação da mesma e, se necessário for, procedendo com a aplicação das medidas de policiamento do espaço aéreo que são escoltar aos limites da zona de responsabilidade, ordenar a mudança de rota ou o pouso obrigatório em um aeroporto adequado para verificação por parte dos órgãos de segurança pública.

Diferente dos 36º e 37º, o 4º Stormo é inteiramente subordinado ao Centro Combinado de Operações Aéreas da OTAN, em Torrejón, e tem como missão principal a defesa aérea em todo território italiano e suas ilhas, nas áreas sobre os mares Mediterrâneo, Tirreno  e Adriático, assim como nos territórios da Eslovênia e Albânia.

O scramble está dividido em Tango (simulado) e Alfa (real) com diferentes níveis de alerta que podem variar de 2 (dentro do cockpit) a até 30 minutos para decolagem. Os pilotos somente sabem se a missão é real ou simulada quando em voo. Duas aeronaves estão armadas e abastecidas em alerta enquanto uma terceira permanece de reserva, configuradas com um míssil além do alcance visual AIM-120 AMRAAM e outro infravermelho de curto-alcance IRIS-T (do mesmo modelo escolhido para equipar os Gripen brasileiros), além do canhão Mauser BK-27, de 27mm.

O scramble, aliás, é um jargão originário dos tempos da Segunda Guerra Mundial (na Batalha da Inglaterra) para designar a situação de alerta e a corrida dos pilotos para os caças para  rápida decolagem. Na sala de operações do alerta de reação rápida (QRA), localizada próxima à cabeceira da pista, os pilotos e mecânicos ficam 24 horas de prontidão, ocupando-se com leituras, estudando táticas ou assistindo TV. Quando soa o alarme eles “pulam” de suas posições, pegam bicicletas ou correm rapidamente até os hangares. Em até quatro minutos as aeronaves já estão taxiando em direção à cabeceira e usando pós-combustor fazem a decolagem com pista curta e de alta performance que, literalmente, quase na vertical, e em poucos segundos somem da vista de quem está em solo.

SOBRE O BÁLTICO

Parte dos pilotos e aeronaves da Unidade está em Siauliai, na Lituânia, onde integram a missão de alerta de reação rápida e policiamento aéreo da OTAN nos Países Bálticos, sendo que quase todos os pilotos já serviram nas diferentes fases da missão. Um deles afirmou que “as  aperações por lá às vezes são bastantes tensas devido à falta de cooperação das aeronaves militares russas”, que voam entre as bases próximas a São Petersburgo e o enclave russo de Kaliningrado, geralmente com transponder desligado, sem contato com os órgãos de controle, ou desrespeitando regras internacionais, ameaçando o tráfego civil e o espaço aéreo daqueles países, muitas vezes com padrões de voo nitidamente hostis, o que deixa as Forças Aéreas da região em prontidão permanente, e ultimamente, bastante ocupadas. Esses acionamentos de scramble são feitos pelo Centro Combinado de Operações Aéreas da OTAN em Uedem, na Alemanha, e os aviões têm a responsabilidade de proteger uma área de 80.000 km². “Ter o melhor avião e armamento disponíveis e o conhecimento das táticas e procedimentos é importante, mas não é tudo. É preciso estar e se manter treinado, saber operar todos os sistemas, escolher a melhor forma de empregá-los e no menor tempo possível. Além disso, se faz necessário que a inteligência militar nos dê informações precisas e confiáveis que propiciem conhecer o que o piloto da aeronave interceptada tem à sua disposição se o engajamento for acontecer, que armamento ele tem, quais são as capacidades do radar, da aeronave, e que contramedidas poderá usar”.

Junto aos diferentes aviões de combate e bombardeiros estratégicos, um dos tipos mais constantemente interceptados é o Ilyushin Il-20, de reconhecimento e inteligência eletrônica (ELINT), que se destaca pelos sensores especiais nos diferentes radomes que varrem tanto as frequências de comunicações como de radar dos aviões e das estações de solo da OTAN, para abastecer e manter atualizadas as bibliotecas de sinais da inteligência russa (ver T&D n 141).

Conhecer o adversário é fundamental para estar preparado em qualquer missão, seja ela em época de paz ou de guerra, ou pior, nos tempos atuais, onde supostamente luta-se uma guerra híbrida e não se sabe mais o que esperar de uma missão do tipo. Por isso é preciso estar preparado para tudo. O envio dos Typhoon italianos em reforço ao efetivo da OTAN na região deveu-se à eclosão da guerra na Ucrânia e o significativo aumento da atividade militar russa na região dos Países Bálticos, que é entendida pelos mesmos como uma provocação e um sinal de ameaça, já que estão desprovidos de meios próprios de defesa aérea, e este trabalho é parte das recém incorporadas IRM (Immediate Assurance Measures) que visam garantir a proteção imediata dos territórios dos países integrantes da Aliança Atlântica contra ações militares convencionais ou híbridas.

TREINANDO OS ASES ITALIANOS

Os exercícios de formação e treinamento de pilotos de Eurofighter italianos, primeiramente aqueles sediados em Grosseto, começou a mudar com a utilização dos jatos T-346A procedentes do 61º Stormo, da Base Aérea de Lecce-Galatina. As aeronaves conduziram, há pouco tempo, uma campanha de combate aéreo servindo como agressors junto ao 20º Gruppo, o esquadrão de conversão operacional de Eurofighter da AMI. Os novos treinadores cumpriram muito bem a tarefa, já que têm a capacidade de “imitar” as características de voo e de emprego tático de vários tipos de aeronave, e podem executar o combate aéreo dissimilar, enquanto seus sistemas embarcados permitem simular todos os sensores da aeronave, alvos, radar e emprego do armamento nas mesmas condições de um combate no moderno teatro de operações aéreas.

O M346 Master foi projetado pela Alenia Aermacchi para o treinamento avançado dos pilotos de aeronaves de 4ª e 5ª gerações, com recursos tecnológicos altamente complexos, pois os pilotos, agora, são gerenciadores de sistemas de voo, de sensores e de armamento, o que passa a exigir uma preparação muito mais profunda e técnica, que transcende a formação focada apenas na pilotagem da aeronave e seu emprego tático.

Segundo informações obtidas, os pilotos de Eurofighter vão começar a voar o T-346A, que pode simular as características de voo daquele caça com um custo incomparavelmente inferior, o que vai significar uma economia de recursos muito grande, ao mesmo tempo em que mantém as tripulações igualmente adestradas, garantindo, ainda, que as aeronaves até então reservadas para a conversão operacional e ao treinamento possam ficar disponíveis nos esquadrões de combate para pronto emprego. Este modelo, que começou a ser desenhado pela AMI com a utilização do M346, já despertou interesse de vários países, pois além de melhor preparar os futuros pilotos de caça e manter a capacitação dos esquadrões, é extremamente interessante em tempos de drásticas reduções nos orçamentos militares.

VOANDO O TYPHOON

Para conhecer as operações do Eurofighter Typhoon na Força Aérea Italiana, o repórter especial de T&D, Kaiser David Konrad, teve a oportunidade de voar neste moderno caça numa missão de treinamento de combate.

Na linha de voo de Grosseto os cincos caças Typhoon dos Esquadrões 9º e 20º partiam para mais uma missão…,mas fora da rotina. O objetivo seria testar o emprego dos mais recentes avanços tecnológicos incorporados às aeronaves do “4º Stormo”. Os caças estavam armados com mísseis ar-ar AIM-120 AMRAAM e IRIS-T, e dois deles ainda simulavam carregar também bombas inteligentes GBU-16. A missão iria treinar um ataque ao solo próximo à cidade de Cagliari, na ilha da Sardenha, enquanto as demais aeronaves fariam a escolta. Após a soltura das bombas e a confirmação visual de que o alvo foi batido, a estação de radar do grupo de comunicações e controle adversário, na Base Aérea de Decimomannu, detectaria a esquadrilha no seu radar e acionaria sua defesa.

Neste sentido, os Typhoons que efetuaram o ataque deveriam se engajar no combate aéreo em apoio às aeronaves de escolta. Esta capacidade de poder alterar o tipo de missão em voo chama-se swing-role e depende se a aeronave estará preparada e equipada com os sistemas de armas e sensores necessários. É diferente do multirole que é a capacidade de executar múltiplas missões, mas em voos diferentes. Ambas caraterísticas são necessárias às aeronaves que vão lutar no atual e futuro cenário de combate aéreo.

Na cabeceira da pista, o  comandante do “4º Stormo”, coronel Enrico Pederzolli, coloca manete à frente e acelera, com o uso do pós-combustor nos dois potentes motores Eurojet EJ2000, faz uma decolagem curta (600 metros) e imediatamente sobe quase na vertical na conhecida decolagem de alta performance, que literalmente cola os pilotos ao assento, subindo num ângulo que varia entre 50 e 60 graus de inclinação e possibilita a aeronave atingir 40 mil pés em apenas 90 segundos. Este tipo de decolagem é comumente realizada durante os acionamentos do alerta de reação rápida.

Logo deixamos para trás o continente e seguimos voando sobre a imensidão azul do mar  Tirreno, e de acordo com a missão planejada, mantendo silêncio rádio e trocando informações táticas via Link-16 com as demais aeronaves do nosso pacote e que voavam em formações e posições distintas. Depois de 40 minutos realizamos o ataque e retornamos voando em direção ao mar. Foi então que o CAOC de Torrejón nos avisou que fomos detectados pela defesa aérea inimiga e que interceptadores haviam sido lançados contra nós.

Estávamos voando numa área de treinamento chamada de D115, que é usada exclusivamente por jatos militares, situada ao leste da ilha da Sardenha. Pelo rádio passaram a chegar diferentes informações enquanto que podíamos ter acesso aos dados táticos e de radar das outras aeronaves via “data-link”. Recebemos do controlador aéreo a mensagem “Dardo Uno, clear to engage”. Estávamos num combate aéreo além do alcance visual e sobre o mar, momento em que nos posicionamos para colocar a aeronave inimiga dentro do alcance do nosso armamento e numa condição que possibilitasse maior probabilidade de acerto, o que aconteceu logo depois, quando então disparamos nosso primeiro míssil e “derrubamos” o inimigo.

O Eurofighter Typhoon é a espinha dorsal das defesas aéreas do Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha.

O combate BVR requer boas táticas e um domínio completo das capacidades da aeronave, do radar e do armamento, além de se conhecer muito bem tanto as capacidades da aeronave quanto as táticas e contramedidas possíveis de serem usadas pelo piloto adversário. Isso requer centenas de horas de voo de treinamento até que o piloto possa estar realmente preparado para voar missões do tipo, interoperar com outras aeronaves, fazendo parte de pacotes, combater e vencer.

Exercício terminado, voamos então para o ponto de reunião na costa italiana, onde ficamos à espera das demais aeronaves. Uma a uma começaram a chegar e tomar o seu lugar na  formação.

Um dos P-47D Thunderbolt do 1ºGAVCA

Um dos P-47D Thunderbolt do 1ºGAVCA

Fomos então para o continente voando baixo sobre os campos da bela região da Toscana, rumo a uma pequena cidade muito próxima chamada de Tarquínia, sobre a qual os cinco Typhoon da AMI efetuaram uma passagem rasante em formação para homenagear a Força Aérea Brasileira, pois foi ali mesmo, naquela cidade, que há 71 anos o 1º Grupo de Aviação de Caça começava sua epopeia na Campanha da Itália, como unidade de combate integrante do “350th Fighter Group” da então Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) para combater as forças do Eixo.

Mais do que uma homenagem, foi um agradecimento a todos aqueles pioneiros e corajosos aviadores de combate brasileiros, enviados ao Teatro de Operações do Mediterrâneo para lutar pela libertação do seu país durante a última fase da Segunda Guerra Mundial.