Os satélites SGDC e KOREASAT-7

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O momento da decolagem do foguete pesado Ariane 5 (voo VA236), transportando o SGDC em seu bojo, a partir de Kouru, Guiana Francesa. Foto: reprodução Internet/Visiona

Os satélites de telecomunicação SGDC e KOREASAT-7, construídos para o Brasil e Coreia do Sul, respectivamente, foram com sucesso para órbita em um lançamento duplo (Flight VA236) usando um foguete lançador pesado Ariane 5, no dia quatro de abril. Todo o procedimento foi transmitido pela internet.

O SGDC é um satélite duplo (civil-militar) construído pela Thales Alenia Space para o cliente Visiona, uma joint venture entre a Embraer e a operadora de telecomunicação do Brasil, a estatal Telebras.

O satélite propicia comunicação estratégica e segura para o governo e defesa, bem como permitir acesso à internet em todo o país, incluindo áreas remotas. Este programa inclui transferência de tecnologia e treinamento de 30 engenheiros brasileiros nas técnicas de indústria espacial, assim como a integração a bordo do satélite de um painel de estrutura feito por empresa brasileira. Trata-se de um engenho espacial que custou R$ 2,1 bilhões em recursos federais. O SGDC pesa 5,7 toneladas, sua órbita está a uma altitude de 36.000 km (velocidade – 10.000 Km/h) e tem vida útil estimada em 18 anos.

O satélite KOREASAT-7 foi lançado para o provedor de serviço de telecomunicação/mídia da Coreia do Sul, o KT Sat. Irá oferecer acesso à internet, multimídia, transmissão e serviços de comunicação fixos para a Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia e índia.

Concepção artística do SGDC. (Imagem: reprodução Internet/Visiona)

 

Para o controle das funções do satélite SGDC a partir de terra, foram projetadas, construídas e entregues duas estações dotadas com antenas de 13 metros de diâmetro cada, usadas em atividades de TT&C (Telemetria, Rastreamento e Controle) em Brasília (principal), e Rio de Janeiro (backup).

Durante o lançamento, estações de rastreamento em Alcântara e na Ilha de Ascensão, dentre outras, forneceram atualização em tempo real dos parâmetros de missão. O procedimento foi coroado de êxito e os dois satélites entraram em órbita conforme planejado.

Após 16 minutos de voo, o veículo lançador está prestes a colocar o SGDC em órbita. (Imagem: Internet/Visiona)

“Com o lançamento do SGDC, demonstramos a capacidade brasileira na execução e gestão de um programa tão complexo e importante para o Brasil dentro do prazo, do custo e do desempenho contratados”, disse Eduardo Bonini, presidente da Visiona. “O satélite atende ou até mesmo supera os requisitos do governo brasileiro e deverá promover a inclusão digital de milhões de brasileiros assim como a segurança das comunicações de governo e das Forças Armadas”.

Já Antonio Loss, presidente da Celebras, disse que “o SGDC inaugura uma nova era na história das telecomunicações do Brasil, pois poderemos levar internet via satélite a 100% do território nacional, gerando benefícios sociais e econômicos”.

A Visiona é responsável pela estruturação e integração do Programa SGDC, atuando entre outras atividades no aprimoramento de requisitos, seleção e gestão de fornecedores, validação de relatórios de engenharia, acompanhamento da produção e testes de sistema necessários ao sucesso da missão.

Durante mais de dois anos, engenheiros trabalharam na França, em parceria com a Thales Alenia Space, no desenvolvimento e produção do satélite no âmbito do programa de absorção de tecnologia, adquirindo um conhecimento que será fundamental para o aumento do conteúdo nacional dos programas espaciais futuros.

Com atuação internacional e presença nos mercados de serviços de sensoriamento remoto e telecomunicações por satélite, a empresa brasileira deverá alavancar os conhecimentos adquiridos durante o programa SGDC para propor soluções incorporando o estado-da-arte em tecnologias de construção espacial e de aplicações para o Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE) e o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), buscando sempre o desenvolvimento da indústria nacional.

O lado militar do SGDC

Com a disponibilidade de comunicações satelitais seguras, criptografadas, um leque de novas capacidades se abrem para os militares brasileiros.

Tarefas de grande complexidade, como o monitoramento e vigilância de fronteiras pelo Exército Brasileiro através do SISFRON, adquirem um novo patamar operacional. Com a implementação do sistema de enlace de dados de campanha, usando rádios digitais, foi assegurada a conexão da tropa em campo até o escalão intermediário de comando.

Faltava a conexão satelital para permitir o controle e consciência situacional global para os militares do Alto-Comando e altas autoridades governamentais, atuando a grandes distâncias dos fatos.

Apresentação do voo VA236, lançado a partir da Base de Kouru, na Guiana Francesa, atendendo a um cliente brasileiro e outro sul-coreano. (Imagem: Internet/Visiona)

A aquisição, o tratamento e gerenciamento/distribuição de informações vitais em tempo real, sem dependência externa, será uma realidade para o militar brasileiro. Generais passam a contar com a capacidade de difundir inteligência ou receber informações on-line de drones de reconhecimento atuando na vertical de objetivos críticos a centenas de quilômetros de suas bases.

Tropas lançadas no terreno terão comunicações seguras com a retaguarda, agilizando os fogos de apoio da artilharia e pedidos de apoio aéreo. No mar, os navios da Marinha do Brasil poderão navegar por extensos períodos mantendo consciência situacional completa do seu cenário de patrulhamento, continuamente atualizado por vetores da Força Aérea Brasileira como os quadrimotores de longo alcance P-3AM Orion ou os bimotores médios P-95M Bandeirulha, ou drones de reconhecimento lançados pelas embarcações.

No ar, os novos caças Gripen E BR usarão o sinal de satélite e o Link Digital BR-2 para trocarem informações entre si, outras aeronaves como os jatos E-99 do Esquadrão Guardião (atualmente sendo submetidos a um extenso programa de modernização), estações de solo e mesmo navios e outros equipamentos, de modo a maximizar táticas em combate e eliminar vulnerabilidades.

Considerando a tarefa de defender 22 milhões de km2 sobre terra e mar, acordados em tratados internacionais, pode-se antever os desafios que a Defesa Aérea brasileira tem diante de si ao longo do século XXI.

Para as Aeronaves Remotamente Pilotadas (ou ARP’s, na sigla em português), a chegada do sinal satelital é um plus extraordinário. Limitadas em alcance quando empregam o método de guiamento de antena por visada (em solo), as ARP´s do tipo Hermes 450 e Hermes 900, usados pela FAB no Esquadrão Hórus, podem quadruplicar seu alcance e extender enormemente sua autonomia ao empregarem o guiamento por sinal de satélite. Na Base Aérea de Santa Maria, sede do Esquadrão, já foram construídas e entregues instalações próprias para permitirem o controle e comando dos drones em qualquer ponto do território nacional.

 

Roberto Caiafa