PROJETO NOVA COURAÇA, ROADMAP DA TROPA BLINDADA DO BRASIL (AÇO!)

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Ao longo de mais de duas década, desde o Projeto Leopard 1 e o recebimento das Viaturas Blindadas de Combate Carro de Combate (VBCCC) M60 A3TTS, passando pela criação e transferência do Centro de Instrução de Blindados do Rio de Janeiro para Santa Maria-RS e pelo Projeto Guarani e M109 A5 Plus, não se tem notícia de um documento tão abrangente e com objetivos tão audaciosos, quanto a Portaria Nr 162-EME.
  • UMA DISCUSSÃO SOBRE A FORMULAÇÃO CONCEITUAL DOS MEIOS BLINDADOS

coronel Alex Mesquita

RESUMO

Ao longo de mais de duas década, desde o Projeto Leopard 1 e o recebimento das Viaturas Blindadas de Combate Carro de Combate (VBCCC) M60 A3TTS, passando pela criação e transferência do Centro de Instrução de Blindados do Rio de Janeiro para Santa Maria-RS e pelo Projeto Guarani e M109 A5 Plus, não se tem notícia de um documento tão abrangente e com objetivos tão audaciosos, quanto a Portaria Nr 162-EME (ver a partir da página 39).

Por isso, essa portaria pode ser considerada um verdadeiro Roadmap da Tropa Blindada do Exército Brasileiro. Mas quais serão os desafios que a portaria enfrentará no que diz respeito aos carros de combate do Exército Brasileiro?

O presente artigo tem a pretensão de responder esse questionamento e entender os alcances da Diretriz, além de sugerir medidas para o seu prosseguimento, tendo com base a identificação do conceito de carro de combate; a relação entre as diversas Gerações existentes e as propostas de atualização; e aspectos relativos à modernização da frota.

Para tanto, utilizou-se a revisão bibliográfica e a análise de suas conclusões. Ao término, identificou-se linhas de ação que podem ser utilizadas para melhorar a atual situação das plataformas CC e medidas que devem ser evitadas, pois tem um potencial de desvantagem a longo prazo.

M-109A5 no 5º GAC AP, onde será convertido em simulador do sistema (Foto: Roberto Caiafa)

Palavras-Chave: Carro de Combate, Leopard, M-60, Modernização, Tropa Blindada.

ABSTRACT

Over more than two decades, since the Leopard Project 1 and the receipt of the M60 A3TTS, through the creation and transfer of the Rio de Janeiro Armored Training Center to Santa Maria-RS and by the Guarani Project and the M109 A5 Plus, there is no news of such a comprehensive document with such bold goals as Act No. 162-EME. Therefore, this Act can be considered a true Roadmap of the Brazilian Army Armored Troop. But what are the challenges the Act will face with regard to Brazilian Army Tanks? This article intends to answer this question and understand the scope of the Directive, besides suggesting measures for its continuation, based on the identification of the concept of tank; the relationship between the various existing generations and the proposed upgrade; and aspects concerning fleet modernization. For this, we used the literature review and the analysis of its conclusions. At the end, lines of action were identified that can be used to improve the current situation of Tank platforms and measures that should be avoided as it has a potential long-term disadvantage.

Keywords: Tank, Leopard, M-60, Modernization, Armored Troop.

1. INTRODUÇÃO

O Exército Brasileiro publicou no seu Boletim de número 26, de 28 de junho de 2019, a Portaria Nr 162, do Estado-Maior do Exército (EME), de 12 de junho de 2019, que aprova a Diretriz Estratégica para a Formulação Conceitual dos Meios Blindados do Exército Brasileiro, cujo principal mérito é organizar conceitualmente diversos pontos referentes aos meios blindados da Força Terrestre.

A Diretriz estratégica tem por finalidades orientar, no mais alto nível, o planejamento e a execução das atividades do Grupo de Trabalho (GT) destinado a elaborar a documentação referente à Formulação Conceitual dos Meios Blindados do Exército Brasileiro e definir as estratégias para minimizar o hiato tecnológico atual dos componentes digitais e optrônicos embarcados nos blindados do Exército e demais sistemas das Viaturas Blindadas e Mecanizadas ou que tenham relação direta com o seu emprego.

Em função da importância desse documento para a Tropa Blindada do Brasil, este artigo buscará apresentar uma perspectiva a respeito dos desdobramentos da Portaria Nr 162, por meio da discussão de um modelo conceitual de carro de combate, na primeira parte; em seguida, apresentará uma visão da modernização dos meio blindados à luz do conceito de Gerações de Carros de Combate; após isso, tratará de mostrar o impacto das modernizações no modelo conceitual e, ao final, apresentará sugestões para o prosseguimento dos trabalhos do GT Nova Couraça.

A Portaria Nr 162, face ao seu grande valor, abrangência e importância pode ser entendida como um Roadmap dos blindados brasileiros e torna-se relevante o seu estudo com a intenção de entender o seu alcance e as suas consequências.

2. O MODELO CONCEITUAL DE UMA VIATURA BLINDADA DE COMBATE

2.1 As Origens

Uma pergunta que raramente é feita durante discussões técnicas ou leigas a respeito de meios blindados é: qual a definição de uma viatura blindada de combate carro de combate (VBCCC)? Poucos se questionam em virtude de a maioria acreditar que já sabe a resposta, ou por entender que um modelo conceitual não seja uma necessidade nos dias atuais, haja vista que há diversos Carros de Combate (CC) produzidos, aparentemente, com a mesma função.

No âmbito do Exército Brasileiro, diversos documentos definem as caraterísticas ou as capacidades necessárias dos Produtos de Defesa (PRODE), vinculadas às frações às quais pertencem. Podem ser citados documentos como: Compreensão das Operações, Condicionantes Operacionais, Requisitos Técnicos Básicos, Requisitos Operacionais Básicos, dentre outros. Dessa forma, a reflexão com base na história é pertinente.

O primeiro “Tank” surgiu na 1ª Guerra Mundial. Àquele momento, a sua função era desequilibrar o combate face à ameaça das metralhadoras. O objetivo era romper as linhas inimigas, reduzindo as baixas, permitindo o avanço das tropas. Desta forma, o primeiro inimigo da nova arma foi a metralhadora, por isso a proteção blindada era importante. HILMES, 1987, p.93 diz que o CC surgiu com a seguinte intenção: “Back in 1915, the development goal for the first British tank was to provide a weapon with cross-country mobility and allow it to be used under a specified level of protection”[i].

Com o sucesso do seu emprego, o inimigo também passou a utilizar essas novas máquinas e, a partir desse momento, o principal inimigo de um carro de combate passou a ser outro carro de combate. À proteção da guarnição (Gu), foi agregada a necessidade de aumento do poder de fogo para destruir o outro CC.

Como os carros eram muito pesados, ficavam muito vulneráveis a ataques individuais, com granadas ou artifícios pirotécnicos, e ao fogo dos CC oponentes, o que fez surgir a necessidade de aperfeiçoar a sua mobilidade tática e crítica, agregando-se mais uma característica à nova máquina de guerra. Tudo ocorreu durante meados e final da 1ª Grande Guerra e se consolidou com a Blitzkrieg alemã.

Essas constatações empíricas não foram simples de serem alcanças. Elas foram ganhando significância ao longo do tempo, na medida em que os principais países que produziam e operavam carros de combate começaram a entender a dinâmica da nova arma. O tempo também se encarregou de produzir dilemas a respeito do emprego dos CC: apoio à Infantaria ou uma nova Arma com suas características próprias?

HILMES, 1987 relata que no início, havia alguns militares ingleses que enxergavam a nova máquina como nada mais do que um apoio de fogo à Infantaria. Esta corrente identificada como British Infantary Tankers defendia que o CC deveria privilegiar a sua proteção e o poder de fogo, em detrimento da mobilidade. Outros, os chamados British Cruiser Tankers enxergavam que o carro de combate seria o sucessor mecanizado das cargas de Cavalaria. Para esses, os veículos deveriam ser mais leves, rápidos e práticos, com grande mobilidade, mas sem a necessidade de considerável proteção e com armamento mais leve, como metralhadoras.

Mas, no período entre guerras, um dos militares que melhor entendeu o carro de combate foi o alemão Heinz Guderian, cujos conceitos tornaram mais efetivo o emprego tático dessa nova arma. Para ele, as forças terrestres deveriam se organizar em função dos CC. Elementos de Infantaria, Artilharia, Engenharia e demais apoios precisariam possuir a mesma mobilidade e atuarem com a maior velocidade e proteção possível. Somente a partir de meados da década de 1940 é que os demais países europeus entenderam esta concepção.

Como reunir mobilidade, proteção e poder de fogo da melhor maneira possível? Cada país entendeu essa necessidade à sua maneira.

2.2 A Mobilidade, a Proteção e o Poder de Fogo no conceito de um CC

O desenvolvimento de carros de combate no estado da arte pelas principais potências militares é bastante semelhante e os fatores determinantes para que um CC seja eficiente no campo de batalha, em linhas gerais, também são conhecidos. Contudo, até a década de 1980, não havia métodos científicos para avaliar o desempenho dos carros de combate em batalha, que justificassem as diversas correntes de design. Assim, HILMES, 1987, identificou que as filosofias de design eram, em sua maioria, fruto de interpretação do requisito operacional e das características individuais desejáveis, tudo baseado no julgamento e na experiência pessoal dos usuários.

Segundo LEE, 1985, após a 2ª Guerra Mundial, os ingleses e os americanos, por exemplo, acreditavam que deveriam investir em proteção e em poder de fogo. Já os israelenses, após as Guerras dos Seis Dias e Yom Kippur, elegeram a proteção como a sua principal preocupação[i]. Os alemães, face à grande quantidade de meios do Pacto de Varsóvia, entenderam que a mobilidade era a característica mais importante[ii].

Essas percepções formaram um modelo simples, que caracteriza os CC atuais em um triângulo onde se encontram a Mobilidade, o Poder de Fogo e a Proteção.

MARRYOTT, 1980 listou os principais requisitos que um CC deveria possuir no início dos anos de 1980. Esses requisitos também se enquadravam no tripé anterior. Dentro de um mesmo raciocínio conceitual, HILMES, 1987 manteve o Poder de Fogo e de Mobilidade, mas expandiu o significado da Proteção para Capacidade de Sobrevivência, extrapolando a sua definição além das considerações sobre a blindagem.

Utilizando as conclusões anteriores e considerando que cada uma das características interage entre si, uma definição adequada seria: um CC é um sistema, no qual interagem as características de mobilidade, capacidade de sobrevivência e poder de fogo, com o objetivo de destruir um inimigo, prioritariamente blindado.

A intenção desse conceito é simplificar ao máximo a sua compreensão e permitir que cada uma das características seja definida separadamente, facilitando as mudanças, que surgirem, fruto de novos desenvolvimentos técnicos e evoluções doutrinárias.

Embora semelhante, o modelo da figura Nr 2 pretende demonstrar a interação existente entre as três características. Nem sempre haverá equilíbrio entre elas e isso determinará certa influência de uma sobre as outras. A tabela a seguir mostra a mudança do modelo conforme as prioridades, tomando por exemplo as perspectivas dos EUA, Israel e Alemanha, no início da década de 1980.

Sobre os diversos modelos acima exemplificados, cumpre relembrar que o EB possui CC oriundos dos EUA e da Alemanha. Sendo assim, o inventário da Força Terrestre tem dois carros com conceitos diferentes em relação às prioridades atribuídas ao Poder de Fogo e à Mobilidade. Este fato deve ser considerado quando o assunto for a modernização ou a forma de emprego desses meios.

  1. AS GERAÇÕES DE CARROS DE COMBATE E A MODERNIZAÇÃO DOS CC DO EXÉRCITO BRASILEIRO

3.1 Considerações sobre a classificação das Gerações de Carros de Combate 

Outro aspecto relevante quando se trata do estudo de Carros de Combate é identificar qual a sua Geração. Dependendo do país, há diversos tipos de classificação, que reúnem, em geral, até quatro gerações. Os russos organizam os seus CC em uma primeira geração até 1945 e quatro gerações, a partir desse período. Os canadenses e os chineses organizam em três gerações.

Contudo, HILMES, 1987 preferiu inserir “gerações intermediárias. Esta maneira de enxergar a evolução dos CC facilita entender quais foram as mudanças mais marcantes, para a evolução das diversas plataformas. Na sua classificação existem três gerações principais e três gerações intermediárias, que tem como ponto de referência inicial a 2ª Guerra Mundial.

Ele considera, em linhas gerais que, a primeira geração contempla CC influenciados por projetos da Segunda Guerra Mundial, principalmente o T-34 e o tanque Panther, alemão. A segunda geração, por conta das armas nucleares táticas, contemplou CC com proteção NBC; na maioria das versões; dispositivos de visão noturna ativos (infravermelho); canhão estabilizado; e pelo menos um sistema mecânico de controle de incêndio. A terceira geração é determinada pelo uso de dispositivos de visão noturna passivos (na maioria termais), sistemas digitais de controle de tiro e blindagens especiais (compostas).

A tabela Nr 5 a seguir apresenta três gerações, que tem relação com os carros de combate do EB:

Dentro desses critérios, o Leopard 1A1 é um CC da Segunda Geração Pós-Guerra e o Leopard 1A5 BR e o M60A3TTS são CC da Primeira Geração Intermediária. A geração seguinte aos Leopard 1A5BR e aos M60A3TTS, ou Terceira Geração Pós-Guerra, é composta pelo M1 Abrams, Leopard 2 e Challenger, dentre outros. É possível verificar que a geração seguinte aos CC brasileiros possui um conceito e um desenho totalmente diferentes dos anteriores, que tem permitido atualizações constantes nos três vértices do triângulo, que define um Carro de Combate, sem que haja a necessidade de criação um novo modelo.

Militar brasileiro inspeciona veículos blindados de socorro/resgate no Sierra Army Depot.

3.2 A Modernização do Carros de Combate do Exército Brasileiro

A portaria Nr 162 do EME identifica que, em termos de carência geral, os veículos blindados do EB apresentam defasagem tecnológica, particularmente na proteção blindada, nos sistemas de armamento, aquisição de alvos, observação, direção tiro e Comando e Controle. Estas seriam, portanto, as principais oportunidades de melhoria a serem alcançadas pelo Grupo de Trabalho (GT) responsável pela Formulação Conceitual dos Meios Blindados do Exército Brasileiro.

O diagnóstico de insuficiência de recursos constante na Diretriz, indica duas alternativas:

  1. CONCEPÇÃO GERAL
  2. A curto prazo, buscar atualizar os Materiais de Emprego Militar (MEM) blindados por meio de aquisição e/ou modernização dos blindados existentes, a fim de garantir um aumento da capacidade operativa das frações blindadas e mecanizadas, bem como permitir o adestramento do maior número possível dos quadros da Força Terrestre;
  3. Levantar estratégias, de médio e longo prazos, que estimulem a indústria brasileira a apresentar propostas de desenvolvimento de uma família de blindados, com base na efetiva participação do parque industrial nacional, tanto para o desenvolvimento de novos MEM blindados, quanto para a modernização e/ou revitalização dos blindados existentes; BRASIL, 2019, p.41.

Essa Concepção Geral se traduz da seguinte forma para as VBC CC M60 A3TTS e Leopard 1A5 BR

O estudo de como as modernizações serão realizadas e quais os sistemas contemplados está em andamento, a partir da publicação da Portaria Nr 112-EME [i], que criou o GT responsável pela formulação conceitual dos meios blindados do EB. Sugere-se que, quando chegarem à fase do detalhamento das ações, o GT considere as análises realizadas por LEE, 1985, p.8, que relacionou os fatores, que interferem no peso e no volume dos CC. Isto é importante, pois as mudanças poderão afetar negativamente todo o desempenho da plataforma original. Conjugando as suas conclusões com o triângulo do CC, tem-se as seguintes relações de peso:

A diretriz não trata das VBC CC Leopard 1A1, entretanto esses CC ainda tem um bom espaço para modernizações, principalmente em relação ao Poder de Fogo e à Capacidade de Sobrevivência. As modernizações poderiam torná-lo um veículo da Primeira Geração Intermediária. Os Leopard 1A5 e M60A3TTS, entretanto, já estão no limite das suas atualizações as modernizações possíveis não os tornariam um veículo de 3ª Geração

Os M60A3TTS e Leopard 1A5BR podem sofrer upgrades no quesito Poder de Fogo (Sistema de Controle de Tiro, Sistemas de busca e aquisição de alvos, Sistemas de controles da torre e do canhão e Sistemas de Gerenciamento do campo de Batalha, por exemplo) e Mobilidade (Unidade auxiliar de potência, por exemplo). CARVALHO e CARVALHO, 2019 e GARCIA, 2019 apresentaram, objetivamente, propostas interessantes a respeito. Apesar dessas modificações, as VBC não mudarão de geração, não caracterizando uma verdadeira modernização.

  1. MODERNIZAÇÃO OU OBTENÇÃO DE UM NOVO CARRO DE COMBATE

4.1 Aspectos relativos à modernização 

A modernização de carros de combate é uma alternativa bastante corriqueira, fruto principalmente do custo de produção de novas plataformas. Por esse motivo os desenvolvedores de novos CC, em geral, estabelecem um ciclo de vida, que contempla aperfeiçoamentos. Isso só é possível por meio de estudos prospectivos, que criam sistemas que permitem modernizações sucessivas, conforme demonstrado por BALTIERI, 2019, e que consideram as três características do CC mostradas na Figura Nr 1.

A Portaria 162-EME estabelece como informações relevantes para a realização do estudo de viabilidade que não existe recursos suficientes para modernizar toda a frota de blindados do EB e que já foi diagnosticada a defasagem tecnológica dos nossos meios no que diz respeito à Capacidade de Sobrevivência (blindagem), ao Poder de Fogo (sistemas de armas, aquisição de alvos, observação e direção de tiro) e Mobilidade (Comando e Controle).

Considerando a iniciativa do EB em modernizar os Leopard 1A5BR e os M60A3TTS, essa parte do artigo irá apresentar sistemas a serem atualizados,  utilizando como referência os critérios apresentados na Tabela Nr 6 e os fatores e os elementos funcionais do Poder de Fogo, da Mobilidade e da Capacidade de Sobrevivência, identificados por HILMES, 1987 p.35, p.51 e p.69.

4.1.1 Poder de Fogo

O primeiro aspecto a ser abordado será o poder de fogo. Utilizando a Tabela Nr 7, a seguir, é possível identificar que as alterações permitirão aos dois CC melhorar o seu Poder de Fogo sem necessariamente passarem pela substituição do seu armamento principal. A modernização trará melhoramentos na sua capacidade de vigilância e de reação e, em menor proporção, na chance de acerto, por meio da melhoria na precisão do canhão. Esses aperfeiçoamentos estão relacionados a um SCT mais eficiente e a uma torre com um giro mais rápido e preciso. É possível verificar que a tabela não trata do calibre do canhão, mas do tipo de munição utilizada. Entretanto é sabido que este aspecto tem grande importância no Poder de Fogo.

Os estudos institucionais subsequentes à edição da Diretriz para a Formulação Conceitual dos Meios Blindados devem tentar detalhar melhor quais são as reais necessidades em termos de poder de fogo, para, se for o caso, acrescentar outros subsistemas a serem contemplados. Um bom exemplo de modernização que pode ser utilizada como referência foi a realizada nos Tanques Argentinos Mediano (TAM), pela Elbit Systems, conforme destaca PADILHA, 2016. Além desse exemplo, a modernização dos M60 pelos israelenses, denominados Sabra, apresenta outra alternativa bastante interessante.

As modernizações devem levar em conta a necessidade de utilização de componentes que ocupem menos espaço interno e que não aumentem sobremaneira o peso do CC. Com isso, será possível não prejudicar a sua mobilidade e proporcionar espaço no compartimento de combate para a instalação de outros equipamentos e também melhorar o conforto da Gu, em especial para o Leopard 1A5BR. No caso dos M60, o espaço interno da torre já se mostra bastante adequado.

Foto 5 – A 15ª Cia E Cmb Mec, a unidade que receberá as VBC Eng Gurani para o processo de Experimentação doutrinária, já opera as VBTP-MR Guarani desde 2018. Na foto, de março de 2017, os quatro primeiros motoristas da unidade fazem o curso de capacitação em uma viatura do 16º Esqd C Mec (foto EB).

4.1.2 Mobilidade

Analisando as mudanças, que impactariam na Mobilidade, é possível identificar que em princípio não são muitas. Entretanto, considerando as interações apresentadas na Fig Nr 3, é lícito supor que o acréscimo de novos sistemas pode alterar o peso dos CC o que tem reflexos na sua mobilidade. Caso essas consequências impliquem em redução da capacidade de movimento original, pode ser indicada a modernização de outros sistemas relacionados à Mobilidade, como a transmissão; a suspensão e amortecedores; e freios.

A utilização do Sistema de Comando e Controle (SisC2), que equipa as Viaturas Blindadas de Transporte de Pessoal Guarani, denominado Gerenciador do Campo de Batalha (GCB), será uma importante padronização para a tropa blindada sobre lagartas. Embora a proposta de modernização dos Leopard não contemple, de forma objetiva, esta mudança, a Portaria 162-EME, no item Nr 5. PREMISSAS, deixa claro a intenção de dotar todos os veículos com um eficiente sistema de intercomunicação da guarnição acoplado a um sistema de comunicações táticas, mesmo que seja em um carro ultrapassado” BRASIL, 2019, p.41.

Sendo assim este autor considerou as mesmas modernizações para o M60 e para o Leopard. Cumpre alertar que o espaço interno dos dois CC é bem diferente. O Leopard possui poucas alternativas de instalação do GCB. Dessa forma, as modificações na torre, para melhorar o Poder de Fogo, devem estar atentas à necessidade de proporcionar mais espaço no compartimento de combate, conforme destacado anteriormente.

4.1.3 Capacidade de Sobrevivência[i]

O último aspecto a ser abordado é a Capacidade de Sobrevivência, que vai muito além da proteção, como tratado anteriormente. Segundo o International Vehicles Market Report 2018, identificou-se que, dentre 10 atributos considerados importantes para os veículos blindados na próxima década, a Proteção é apontada por 55% dos consultados como um fator crítico. Quando a questão estava relacionada às ameaças aos veículos blindados, dentro de regiões de interesse ao redor do mundo, o resultado global foi de 80% para a proteção contra explosões e Dispositivos Explosivos Improvisados (DEI). Na América Latina, essa percepção cai para 65%, mas ainda é a prioridade. Isto indica que a prioridade atribuída pelo EB está alinhada ao que identifica o mercado mundial.

Ressalta-se que quaisquer mudanças externas nos CC certamente irão alterar a massa do veículo e consequentemente vão alterar as suas características iniciais referentes à facilidade ou dificuldade de ser detectado e à chance de ser atingido. Além disso, poderão alterar o peso, repercutindo na mobilidade, dentro do conceito do Desingner’s Closed Loop, mostrado por LEE, 1985, p.10[ii]. Soluções tecnológicas mais modernas podem evitar essa situação, mas são mais onerosas, o que vai de encontro com o previsto na Diretriz, quando se trata da disponibilidade de recursos.

Essas interpretações, embora bastante resumida vão ao encontro de impressões relatadas por ANNES, 2017 e por DALLA COSTA e VALENTINI, 2017. Em seus estudos, eles procuraram mostrar alternativas, que podem ser de grande importância para o desdobramento dos trabalhos do GT Nova Couraça, pois apresentam, no caso de DALLA COSTA,2017, uma análise baseada em vantagens e desvantagens na adoção de linhas de ação, que contemplam a aquisição de novas plataforma e modernização de sistemas.

Por seu turno, ANNES, 2017 trata de observar o assunto de maneira mais técnica o que ajuda a entender a análise realizada neste trabalho, que prioriza as três características básicas do CC. As ideias debatidas por ambos chega a conclusões, que guardam bastante semelhança com as orientações gerais da Portaria Nr 162-EME e, dessa maneira, tem o mérito de também apresentar propostas consideráveis aos desdobramentos subsequentes, que podem ser conjugados à considerações conceituais já apresentadas e que estão identificadas na tabela Nr 10 a seguir.

É importante destacar que mesmo com modernizações os CC já ultrapassaram o seu ciclo de vida. Isto pode dificultar a aquisição de outros suprimentos, cuja produção já tenha sido descontinuada e reduz a vida útil de determinados sistemas e componentes, o que pode tornar muitos deles obsoletos.

Instalação do tubo em um VBCOAP M-109 A5 (Imagens: 5ª RM).

4.2 Aspectos relativos à obtenção

Além da modernização, é importante relembrar que há a perspectiva da obtenção de um CC Médio[1] nacional, seja por projeto original, seja por fabricação sob licença de um modelo estrangeiro, que atenda às necessidades do Brasil. Este assunto também foi debatido por ANNES, 2017 e por DALA COSTA e VALENTINI, 2017, que sugeriram a possibilidade de aquisição de uma nova plataforma, opção que está na Concepção Geral da diretriz[2].

A obtenção por meio de desenvolvimento é, sem dúvida, a alternativa mais vantajosa, pois interrompe o ciclo de dependência estrangeira; aumenta a capacidade de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D); reforça as iniciativas no campo da Ciência, Tecnologia & Inovação (CT&I) e reaquece Base Industrial de Defesa (BID).

Entretanto, é sabido que o empreendimento de projetar e produzir um CC é algo que em média leva uma década e, nesse interim, é imprescindível modernizar os meios em uso. Um bom exemplo é o desenvolvimento dos Leopard 2, em paralelo à modernização dos Leopard 1. No caso brasileiro, já existe um hiato tecnológico que irá se agravar, caso uma plataforma intermediária não seja obtida.

Sobre o desenvolvimento, alerta-se para a indisponibilidade de recursos financeiros e para a inconstância de desembolso dos mesmos ao longo dos anos, fato negativamente experimentado pelo projeto Guarani e que pode atrasar sobremaneira os trabalhos ou acabar por torná-lo inviável. Por isso, uma alternativa bastante interessante é incentivar a BID a nacionalizar componentes críticos, criando uma capacidade relacionada à produção de um veículo completo.

A possibilidade de fabricar um CC sob licença apresenta-se como uma boa alternativa, caso o novo Carro já seja um produto em utilização em outros países. Entretanto, o desenvolvimento de um protótipo híbrido, que utilize a plataforma automotiva de um veículo médio ou de uma Viatura Blindada de Combate Fuzileiro, juntamente com a torre de outro CC pode criar uma VBC que não será um carro de combate, mas sim um caça-tanques. A alternativa de um Tanque Médio Brasileiro pode representar um decréscimo do poder de combate da tropa blindada, se comparado com os atuais CC em operação. DALLA COSTA e VALENTINI, 2017, p.11 tratam do assunto com bastante propriedade.

Dessa maneira, a solução mais próxima da desejável seria a obtenção, por meio de aquisição, de um número de  CC de 3ª Geração, criando ilhas de  modernidade, como já prevê a Portaria Nr 162 e como foi mencionado por ANNES, 2017, p.65, que cita países como os Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul, os quais possuem frações no estado da arte convivendo com modelos menos modernos. O Chile, que opera o Leopard 1 e Leopard 2, é um exemplo no subcontinente sul-americano.

Nesse contexto, a aquisição de uma plataforma Leopard 2 se apresenta como a mais coerente, pois vai ao encontro da diretriz, quando trata da grande diversidade de meios blindados. É sábio que há excedentes de outros CC no mercado internacional, como por exemplo os M1 Abrams, que podem ser oferecidos a valores mais tentadores e transformarem-se em compras de oportunidade. Entretanto, as mudanças decorrentes da adoção de outro veículo diferente do Leopard trariam muito mais prejuízos do que benefícios, como por exemplo a mudança dos processos de educação, instrução e adestramento; e de procedimentos logísticos já consolidados.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Portaria Nr 162-EME, de 12 de junho de 2019, é, sem dúvida, um passo importante para orientar os esforços de atualização dos veículos blindados do EB e este artigo pretendeu abordá-la sob uma ótica mais acadêmica.

Ao final, sugere-se que os trabalhos institucionais do EB considerem os conceitos apresentados, que tratam de um modelo de carro de combate e utilizem as características de Mobilidade, Capacidade de Sobrevivência e Poder de Fogo, como paradigmas de análise, pois, além de facilitarem a compreensão, permitem o diálogo mais prático, objetivo e segmentado com pesquisadores do assunto e com a BID.

Em seguida, considerar que é chegado o momento de mudar a geração dos CC em uso no EB. Ao longo de todos os anos do Projeto Leopard, foi possível amadurecer a percepção de que é necessário dar um passo adiante e tratar de obter um Carro de 3ª Geração. Nessa mesma linha de raciocínio, a adoção de um CC Médio pode representar um downgrade no poder de combate da tropa blindada.

Em paralelo à aquisição, fomentar a BID, por meio de projetos que envolvam a nacionalização e a substituição de componentes e de sistemas em uso nos carros, de modo a fomentar a P&D e a CT&I, que em síntese serão as bases para a futura produção de uma plataforma genuinamente brasileira, como já ocorreu no passado.

Concluindo, cumpre reforçar que o estudo aqui finalizado não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apresentar informações de ordem conceitual e técnica, a partir da pesquisa e do exame bibliográficos, que possibilitem a outros estudiosos e decisores expandirem o tema e adotarem a melhor solução disponível para a Tropa Blindada brasileira.

O Projeto do M109 A5 trouxe uma comitiva, comandada pelo 4º Subchefe do Estado-Maior do Exército, General de Divisão João Chalella Júnior, ao Pq R Mnt/5. Além de conhecer os blindados que chegaram dos EUA no último dia 3 de outubro, a comitiva realizou um levantamento das necessidades para a modernização e adaptação dos carros de combate para os padrões das Forças Armadas Brasileiras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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  • BRASIL, Ministério da Defesa, Exército Brasileiro – Portaria Nr 162-EME de 12 de junho de 2019, Aprova a Diretriz Estratégica para a Formulação Conceitual dos Meios Blindados do Exército Brasileiro. Boletim do Exército Nr 26 de 28 de junho de 2019. Brasília, DF 2019.

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Viaturas Marruá, blindados Cascavel e Urutu. (Imagem: Roberto Caiafa)

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