Parceria Brasil-Suécia: vantagens e desafios em aeronáutica

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Anders Blom, diretor do INNOVAIR (Imagem: CISB)

O diretor do INNOVAIR – programa sueco criado para promover condições favoráveis ao desenvolvimento do setor aeronáutico – Anders Blom, possui uma visão ampla e pragmática do potencial de cooperação nessa área entre o Brasil e a Suécia.

Nesta entrevista, além de apontar as vantagens mútuas e os desafios para o estabelecimento de parcerias com elevados níveis de prontidão tecnológica, ele aponta as tendências mundiais em tecnologia aeroespacial e fala sobre as expectativas da Suécia em relação à participação do Brasil no Congresso sobre Tecnologia Aeroespacial que será realizado em seu país, em 2016.

Do seu ponto de vista, quais são os benefícios de uma agenda em comum entre o Brasil e a Suécia na indústria da aeronáutica? Qual é o ganho de ambos os países durante o processo de desenvolvimento desta agenda?

Na Suécia, todos os atores (grandes indústrias, empresas de médio e grande porte, universidades, institutos e órgãos governamentais) no setor da aeronáutica vêm desenvolvendo uma agenda desde 2010. Esta ação conjunta já produziu objetivos estratégicos mais claros em nível nacional, melhores investimentos de fundos nacionais e maior colaboração entre todos os atores. Com base na exportação do Gripen para o Brasil, os dois países têm muito a ganhar com a união de forças em programas futuros de pesquisa e inovação. Este já é um fato graças à sinergia com a solidez brasileira na aeronáutica civil e a solidez sueca em sistemas militares. A cooperação atual já está presente em uma série de áreas entre universidades de ambos os países em menores níveis de prontidão tecnológica (sigla TRL em inglês). Uma vez alcançados níveis mais elevados de TRL, os benefícios do trabalho em parceria aumentam exponencialmente por conta dos altos custos envolvidos. Antes de alcançarmos tais níveis, os dois países precisam acordar algumas prioridades, solucionar questões relativas a financiamentos, definir prazos conjuntamente, dividir as responsabilidades técnicas e assim por diante. Tendo este objetivo em vista, uma agenda conjunta deve proporcionar a estruturação do compartilhamento das atividades internas entre as partes envolvidas, mas que também possa ser usada para explicar essas atividades aos nossos governos e a todas as partes externas.

Quais são os benefícios de uma agenda conjunta para a sociedade?

A indústria da aeronáutica contribui em muitas coisas para a sociedade. A aviação civil é a única alternativa realista para viagens de longa distância e o crescimento nos próximos 20 anos será bastante acentuado, passando das atuais 18.000 aeronaves para 50.000 em 2035. Paralelamente a este crescimento, será necessário reduzir os níveis de ruído, CO2 e NOx, ao mesmo tempo que sejam mantidos os níveis de segurança, algo que exigirá um grande esforço por parte de toda a indústria. Por outro lado, as aeronaves militares constituem a parte mais importante das doutrinas de defesa e segurança na maioria dos países. Uma agenda conjunta será fundamental para que ambos os países definam atividades conjuntas que levem a sistemas de transporte melhores, mais limpos e mais seguros, bem como a sistemas de defesa e segurança mais robustos nos dois países a custos mais reduzidos do que se cada um dos países trabalhasse individualmente.

Qual é o papel do INNOVAIR na promoção do diálogo entre indústrias, universidades, institutos, associações e órgãos governamentais considerados ativos no setor da aeronáutica?

O INNOVAIR atua como um fórum de coordenação em benefício de todos os atores aqui mencionados, com responsabilidade específica pelo sistema de inovação. O INNOVAIR está aberto a todos os atores nacionais neste campo. O papel envolve a definição e a motivação de programas nacionais específicos para que sejam enfrentados os desafios do futuro, com a avaliação de necessidades técnicas, o estabelecimento de prioridades para P&D técnico iminente e a demonstração de resultados para os órgãos de financiamento e ao público em geral. Estamos também definindo arenas em campos prioritários como, por exemplo, a fabricação avançada de metais e compostos com o objetivo de alcançarmos uma massa crítica em termos de competência e infraestrutura necessária.

Em sua opinião, que aprendizado conjunto o Brasil e a Suécia podem conquistar durante o Congresso sobre Tecnologia Aeroespacial na Suécia em 2016?

Nós ainda estamos em uma fase inicial da cooperação e todas as reuniões visam expandir os contatos pessoais e o entendimento mútuo. Os nossos países possuem um histórico sólido e positivo no que se refere ao trabalho em parceria, mas existem diferenças em nossos sistemas, relativas à organização e ao financiamento, e, portanto, precisamos encontrar um denominador comum antes que possamos de fato nos beneficiar de uma colaboração futura com um TRL maior. Trabalhar em parceria pautada por objetivos mútuos envolve necessariamente o respeito pessoal pela concorrência do outro/organização, e isto somente pode ser obtido mediante o desenvolvimento contínuo de confiança a partir de conquistas conjuntas. Durante o congresso, a Suécia organizará pela primeira vez uma sessão internacional, que será apresentada em inglês, onde todos os projetos mútuos iniciados sejam apresentados a um público que terá a participação de centenas de profissionais.

Quais são as principais tendências em tecnologia aeroespacial em um mundo globalizado?

Em relação à aviação civil, a redução da poluição ambiental tem sido de suma importância ao longo do tempo e assim se manterá por mais tempo. Isto somente pode ser alcançado com o desenvolvimento simultâneo de estruturas de aviões, tecnologia de novos motores e melhores sistemas de ATM. Ao mesmo tempo, a concorrência é ainda maior por conta dos efeitos da globalização, indicando que ritmos de desenvolvimento mais acelerados, técnicas de produção com custos reduzidos e conforto do passageiro são essenciais. O Brasil tem mostrado enorme sucesso com os desenvolvimentos da Embraer ao longo dos últimos 20 anos. Já em relação à aviação militar, as questões que envolvem meio ambiente e custos também são consideradas importantes. Entretanto, existem muitas outras tecnologias envolvidas do que na aviação civil e a utilização dos aviões é tão intensa que inúmeros sistemas envolvidos operam muito próximo aos limites do que é considerado viável. Os caças modernos contam com longo alcance, capacidade supercruise (voo supersônico sem pós-combustão), radares AESA e outros sistemas de sensores de guerra eletrônica, capacidade de abastecimento em voo, sistemas de mísseis avançados, sistemas de comunicação para guerra centrada em redes, diversos graus de tecnologias de redução de assinatura (para impedir a detecção de radar e infravermelho). Desenvolver uma dessas tecnologias é difícil, porém o maior desafio está na otimização ampla de todo o sistema da aeronave para as diversas funções que são utilizadas durante as operações. Com a utilização de desenhos digitais em 3D e a manutenção de um sistema digital completo a partir de projeto, produção, uso em serviço e manutenção, é possível reduzir o custo no desenvolvimento do Gripen NG, para que seja usado pelas forças aéreas do Brasil e da Suécia.

O que as pessoas envolvidas na organização do evento esperam dos participantes brasileiros?

Nós esperamos que os participantes da maioria das organizações ativas em nossos programas em curso tenham condições de vir. Esperamos também que os participantes façam apresentações capazes de resumir as conquistas conjuntas, mas também estão convidados a compartilhar sua visão ampla das atividades em andamento no Brasil nas diversas áreas de conhecimento. Além das atividades normais da conferência, esperamos que possam interagir com inúmeros participantes da Suécia, e que também permaneçam para visitar nossas universidades e indústrias.

Vários anos atrás, a indústria militar costumava liderar as pesquisas de novas tecnologias e materiais na indústria da aviação. Após o surgimento da internet e as fontes abertas de informação, isto ainda acontece? Ou a aviação civil desempenha este papel atualmente?

É uma ótima pergunta que precisa ser compreendida pelas pessoas de alta hierarquia em todas as organizações participantes até o nível governamental. De forma clara, a maioria dos países fez cortes em custos com defesa depois da queda do muro de Berlin em 1989. Este fato por si só, combinado ao rápido desenvolvimento tecnológico em outras áreas, indica que a indústria militar não pode mais ser a líder em todos os sistemas técnicos envolvidos. Desta forma, a transferência de tecnologia é igualmente tão importante quanto a expansão do setor aeronáutico para outros campos. Do ponto de vista financeiro, isto significa que a tecnologia de aplicação dupla, com financiamento coordenado de várias fontes, precisa ser bem estruturada para gerar resultados que possam ser distribuído a diversos setores. Em TRL reduzido, isto é considerado bastante viável em inúmeras áreas de tecnologia genérica, porém, com um TRL maior, existe a necessidade de soluções específicas que podem variar significativamente entre cada aplicação. Além disso, em aviação militar, determinadas tecnologias, como guerra eletrônica e redução de assinatura, sempre serão consideradas secretas, e a colaboração com a comunidade de P&D no geral é, portanto, algo difícil. Tendo em vista que o Brasil e a Suécia possuem forças que se complementam, eu acredito que ambos os países se beneficiarão técnica e financeiramente do trabalho em parceria.

Ivan Plavetz
Fonte: CISB-Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro