Opinião: A “submetralhadora” do Fantástico

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(Imagem: Reprodução)

Como tradicionalmente ocorre em suas matérias envolvendo armas de fogo, a TV Globo seguiu rigorosamente seus preceitos em desinformar e/ou confundir o público sobre este assunto. A reportagem veiculada no programa Fantástico do último domingo, dia 18/10, foi típica da “casa”. Logo na abertura, o apresentador informou que os bandidos descobriram que um “apetrecho usado em competições de tiro esportivo pode transformar uma pistola em submetralhadora”.

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Pistola convencional Beretta M92 ou Taurus PT92, calibre 9x19mm, apresentada no início da matéria. (Imagem: Reprodução)

Após mostrar uma pistola comum dando um único tiro, foi exibida a cena de uma “submetralhadora” dando uma rajada. Era, na realidade, uma pistola Glock 17 dotada de um pequeno desconector interno, o que lhe dá a possibilidade de fazer tiro automático, encaixada no interior de um kit RONI fabricado pela empresa israelense CAA Tactical (não dos Estados Unidos, segundo afirmado). Várias outras firmas internacionais comercializam acessórios semelhantes.

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A Glock 17 sendo colocada no interior do kit RONI. (Imagem: Reprodução)

Tal apetrecho – que, na realidade, não é usado em qualquer modalidade de tiro esportivo – tem a única finalidade de tornar a operação da arma mais estável para o usuário, graças a uma coronha e uma empunhadura vertical de apoio.  De certa forma, transforma a pistola numa espécie de carabina compacta, mas, nunca, em submetralhadora. Trilhos externos também possibilitam a colocação de acessórios, como miras holográficas ou lanternas. No caso da Glock usada no programa, recorda-se que ela havia sido transformada para funcionar em regime de tiro automático, o que não aconteceria com uma pistola semiautomática comum e de uso legal.

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O conjunto RONI/Glock 17 disparando uma rajada. (Imagem: Reprodução)

Prosseguindo em sua caça às bruxas, o programa foi a algumas lojas de caça e pesca aqui no Brasil, querendo saber do tal acessório. Com apenas armas de pressão e de “airsoft” (simulacros que disparam pequenas esferas de plástico) nas paredes dos estabelecimentos comerciais, o vendedor entrevistado em câmera oculta disse o óbvio: “Neguinho traz isso até do Paraguai, cara.”

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O conjunto RONI/Glock 17 disparando uma rajada. (Imagem: Reprodução)

Resumindo, mais alguns comentários sobre a matéria:

– Apesar da afirmação da comum aparição deste material em diversas cidades brasileiras, não foi mostrado nenhum desses kits apreendido com bandidos aqui em nosso país.

– Algumas pistolas de tiro seletivo (semiautomático/automático), de fato, surgiram em diversas partes do mundo ao longo de quase um século, mas, a real efetividade de tal armamento sempre deixou muito a desejar, tendo em vista a sempre elevada cadência cíclica de tiro (carregador vazio em poucos segundos) e a inerente incontrolabilidade da arma.

– Sim, a nova arma é mais barata que um fuzil. Porém, é infinitamente menos eficaz.

– Uma Glock transformada tem uma cadência de 1.200 tiros/min, ou seja, 20 tiros por segundo (não sete, conforme a reportagem).

– Consideração final: os criminosos fazem o que querem; aos cidadãos de bem resta rezar.

Ronaldo Olive