O novo ministro da Defesa: o que vem por aí?

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Se tem algo que toda a comunidade ligada ao setor de defesa do Brasil, seja indústria, imprensa ou as próprias Forças Armadas deve estar se questionando é a indicação do governador da Bahia, Jaques Vagner para ser o titular do Ministério da Defesa. Mas, quem é Jaques Vagner e como foi escolhido para este posto? Bem, a segunda parte da pergunta, existem comentários, seria a continuidade do aparelhamento do Estado, onde importa o alinhamento automático com o Planalto; afinal, pertence ao mesmo partido e é da cota pessoal de escolha da presidente , e, em consequência, do projeto de governo. Passada a fase do palanque eleitoral, chegou o tempo de se consertar coisas que foram erguidas sobre bases superficiais e a um custo sempre “empurrado com a barriga”. Assim, é preciso ter alguém da mais absoluta lealdade para endossar os inevitáveis e, certamente, terríveis e danosos cortes no orçamento da pasta que, mais uma vez, virão por aí.

Todos sabem que é chegada a hora da verdade; todo o Brasil sabe que há uma dura realidade a ser encarada. O setor de defesa, talvez, mais do que qualquer outro está consciente disso. Por isso mesmo, seria de se esperar um nome capaz de trazer algum alento maior para atravessar esse duro período que se prenuncia (oxalá fosse somente um prenúncio), mais afeto e conhecedor das necessidades e dificuldades desse sensível e estratégico campo. Esses nomes, inclusive, poderiam ser encontrados até na própria base governista e alguns chegaram a ser cogitados à sucessão do ministro Celso Amorim.

Considerado um membro histórico do Partido dos Trabalhadores (PT), Jaques Wagner é do Rio de Janeiro, mas há muito tempo radicado em terras baianas, desde que para lá se mudou após sofrer “perseguições do regime militar” (segundo sua biografia disponibilizada). Atuante no movimento sindicalista, conheceu Luís Inácio Lula da Silva no início da década de 1980 e foi um dos fundadores do partido e também da Central Única dos Trabalhadores, a CUT. Deputado pela Bahia entre 1990 e 1998, disputou as eleições para a Prefeitura do Município de Camaçari e, depois, o governo do Estado. No primeiro governo do presidente Lula, foi ministro do Trabalho e Emprego, assumindo, em 2005, as funções de ministro das Relações Institucionais. Comandou, ainda, a Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Em 2006, com forte influência da alta popularidade então desfrutada pelo presidente Lula, elegeu-se governador da Bahia quebrando a hegemonia do chamado “Carlismo”, que era a influência exercida na política e administração local pelo ex-governador e senador Antonio Carlos Magalhães (falecido no ano seguinte), tendo sido reeleito em 2010.

Mesmo com todo esse cacife, suas administrações suscitaram muitas polêmicas. Existem denúncias de mau emprego de dinheiro público, corrupção, favorecimentos não explicados, e uma não tão pacífica convivência com o funcionalismo estadual. Enfrentou uma longa greve de professores e três rebeliões da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, ocasiões em que Jaques Vagner foi bastante criticado por promover, inclusive, a quebra de hierarquia ao negociar diretamente com o sindicato dos cabos e soldados e não com o comando daquelas instituições. Ligado ao Foro de São Paulo e ao MST (o que preocupa bastante, principalmente após os acordos do governo bolivariano de Caracas com o movimento), o teria apoiado materialmente em diversas situações de invasões e outras desordens (pela visão pura da lei). Em atitudes que denotam um indesejado sentimento de revanchismo, teria financiado a construção do “Museu da Resistência”, em homenagem ao chefe da ALN, Carlos Marighela, autor do mundialmente famoso “Manual da Guerrilha Urbana” – onde se preconiza execuções sumárias, dentre outras coisas (e foram vários os mortos pela ALN) – junto a mudar o nome de um colégio, de Médici para Marighela. Há mais coisas que são capazes franzir a testa e coçar o queixo….

Porém, aqui não estão em julgamento os fatos acima relatados, todos de domínio público. O que importa é o real significado de sua indicação para a titulariedade – já sacramentada pela senhora presidente – de um ministério tido nos meios políticos como “desenxabido”, ou seja, não dá visibilidade ao seu chefe. Visão esta, por sinal, míope e completamente equivocada para quem é realmente comprometido com a grandeza e a segurança do Brasil. O Ministério da Defesa tem, a ele diretamente subordinado, três das instituições nacionais que, sem nenhuma dúvida, gozam da confiança e da simpatia da imensa maioria dos brasileiros: a Marinha, o Exército e a Força Aérea e todos os serviços, anônimos, que prestam à Nação. Ao mesmo tempo, é peça fundamental na implementação de ações de política industrial de alto valor tecnológico agregado que vêm a favorecer o desenvolvimento nacional como um todo – e não só no campo militar, ou de defesa, mas também por suas aplicações civis. E, isso, implica, também, na formação e emprego de mão de obra altamente especializada, bem como na geração de divisas em exportação.

Assim, é natural, para toda a comunidade do segmento, contar com que o novo ministro da Defesa tenha um razoável domínio sobre esses temas, seja com eles comprometido, entendendo a sua importância perante o contexto atual, e não ficar dependendo apenas de suas assessorias (as quais precisam ter como ideologia somente os interesses de um Brasil moderno e que vise a manutenção e integridade de seu imenso patrimônio, e o bem estar de sua gente, em primeiro lugar) ou passar boa parte de sua gestão viajando de um canto para outro em “visitas de conhecimento”. É necessário entender o que é um “produto de defesa”… como foi especificado…. como poderá ser utilizado…. por quem…. com quais propósitos….como será projetado, desenvolvido e produzido…. o que envolve…. em quanto tempo…. a que custo…. e quais serão seus benefícios ou aplicabilidades fora do campo militar. São questões aqui colocadas de modo aparentemente simples e sem profundidade, visto tantas outras considerações a serem levadas em conta. E, obviamente, sem se esquecer que as Forças Armadas pertencem à Nação, e não a este (a) ou àquele (a) governo ou ideologia.

É o que está no ar….saber se o ministro Jaques Vagner surpreenderá positivamente ao setor, usando sua inegável e reconhecida habilidade de negociar, ou se posicionamentos e fisiologismos que não condizem com os anseios do setor e da sociedade como um todo virão a colocar em risco anos de trabalho e investimentos no sentido de dotar o País de uma estrutura de defesa condizente com a sua projeção mundial, o que significaria uma atitude meramente política e não recomendável a esta altura da história.

Artigo escrito por Francisco Ferro  

Editor da revista Tecnologia & Defesa