O MIG-23M que atravessou a Europa sem piloto e matou um belga ao cair (1989).

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O MIG-23M, com os tanques cheios, incluindo dois subalares, manteve-se estável e em voo por centenas de quilômetros, até a pane seca e a queda fatal sobre a casa do infeliz Wim de Lahr.

Este dia na história, há 30 anos, em plena Guerra Fria …

Na manhã de 4 de julho de 1989, o filho de 19 anos de um fazendeiro belga, Wim de Lahr, sentou-se pacificamente na varanda da casa de seu pai na aldeia de Kooih, até que subitamente um caça soviético MiG-23M caiu literalmente na sua cabeça.

A polícia local, quando chegou ao sítio do sinistro, ficou por um longo tempo sem conseguir entender o que haveria acontecido ali.

Kooih está localizada a cerca de 15 quilômetros da fronteira franco-belga, ou seja, a mais de 1.000 kim das fronteiras da então União Soviética.

Um MIG-23M similar ao que caiu na Bélgica.

Como aquele MIG-23M teria atravessado metade da Europa e caído ali, assustando a todos com suas estrelas vermelhas nas asas?

Simples, a aeronave caiu já sem piloto, porque nenhum outro corpo foi encontrado nos destroços do caça, exceto o desafortunado Wim de Lahr.

Do assento ejetável e do provável piloto, nem sinal.

E o piloto não poderia estar lá – ele catapultou-se há mais de 900 quilômetros do local da tragédia, na área da cidade polonesa de Kolobrzeg, na costa do Mar Báltico.

O MIG-23M, com os tanques cheios, incluindo dois subalares, manteve-se estável e em voo por centenas de quilômetros, até a pane seca e a queda fatal sobre a casa do infeliz Wim de Lahr.

O avião atravessou parte da então Alemanha Oriental, parte da Alemanha Ocidental (naquela época ainda não havia acontecido a reunificação), parte da Holanda e parte da Bélgica, quase entrando em território francês.

A OTAN detecta e intercepta o fantasma

É 4 de julho de 1989, nove e dezoito da manhã. Um caça soviético MiG-23M Flogger decola na Base Aérea Soviética de Kolobrzeg, na Polônia.

Durante a decolagem o piloto teve problemas com o pós-combustor, e decidiu ativar seu assento ejetável.

Porém, e para surpresa de todos em terra, o MiG-23M Flogger não se mostrou tão defeituoso quanto o piloto temia porque continuou em voo, agora como um avião fantasma.

Às 09.30 a uma altitude de 36.000 pés, ele foi detectado pela primeira vez e avaliado como um possível MiG-25 de reconhecimento,isso nas telas de um E-3A AWACS da Força de Alerta Antecipado Aéreo da OTAN (NAEWF).

O circuito de vigilância aérea soou o alarme por volta das 09:39, quando constatou-se a primeira violação de fronteira, através de relatório automático de alerta da estação de radar Visselhövede.

Ao comando do Centro de Operações do Setor (SOC), o status da aeronave, com o número de pista “AE 214″ foi alterado de ‘Zombie’ a ‘X-ray’ (dispositivo desconhecido com possíveis intenções hostis).

A sede da OTAN foi informada e as 09:47 am, houve uma corrida de decolagem scramble ordenada pelo Tactical Fighter Suqadron Alpha (Esquadrão de Caça Tático da USAFE) em Soesterberg.

Desde a pista principal em Soesterberg dois F-15C Eagles com os indicativos ‘AK 01′ e ‘AK 02’ decolaram às 9h54. Imediatamente após a decolagem, os F-15 foram guiados por um
controlador da estação de comando de batalha AOCS (CRC) código de chamada “Bandbox“.

Após a passagem da fronteira alemã, o controle de interceptação em solo (GCI) mostrou-se confuso, e os pilotos de Eagle assumiram a interceptação, resolvendo o problema com “as próprias mãos”: “Tudo fechado … eu vou falar com bandbox” – O MiG foi interceptado às 10h02, a leste de Rheine, 22 minutos depois de atravessar a fronteira da Alemanha Oriental.

Os pilotos dos F-15, capitão J.D. Martin e capitão W. F. Murphy identificaram a aeronave como um MiG-23M Flogger da União Soviética (código de identificação Blue 29). “Silver Cork, zero-um, estamos emparelhados com um MiG-23M a 37.000 pés.” Alguns segundos depois, os pilotos dos F-15 relataram surpresos que não havia nenhum piloto presente a bordo do MIG, e o assento de ejeção estava faltando.

Na sede da OTAN intensas discussões sobre as opções possíveis estavam em curso.

O risco era de que, ao disparar um míssil, fragmentos fossem espalhados por uma área ampla, assim a OTAN decidiu-se por uma abordagem cautelosa.

Por volta das 10h13, a aeronave cruzou a fronteira holandesa perto de Enschede.

Um dos pilotos relatou que ele estava tirando fotos. Com uma proa de 240 graus a 36.000 pés o Flogger cruzou a fronteira da Bélgica às 10:19 horas perto de Etten-Leur.

O militar belga CRC Glons assumiu o controle dos dois aviões QRA do CRC Nieuw Milligen.

O Flogger passou entretanto pelo sul de Antuérpia e sobrevoou St. Niklaas e Bruxelas na direção sudoeste sobre Ghent. Às 10.24 horas eles relataram que o Flogger começou a fazer fumaça e a desacelerar. Um minuto depois, o MiG virou para o norte e com o nariz para baixo, tomou a direção da costa.

O Boeing F-15SA Advanced Eagle é considerada a mais sofisticada versão do avião já feita. Nada mau para um quase cinquentão.

Os caças F-15 esperavam destruir o MiG sobre o mar, já que ainda estava acima das áreas densamente povoadas. De repente, por volta das 10h32, o MiG começou a diminuir acentuadamente sua altitude e passou a 12.000 pés, aparentemente, ficando sem combustível.

Depois que a provável “posição da queda” foi calculada, todos os serviços de emergência estavam em alerta no entorno da cidade de Kortrijk.

Segundos depois, os F-15 informaram que o MIG-23M estava a 10 milhas (18 km) de distância de uma cidade (provavelmente Roubaix ou Lille). Isso levou à ordem de destruir o avião se houvesse perigo iminente para as últimas cidades citadas pelos pilotos.

Por fim, os pilotos relataram que a aeronave caiu às 10h37 perto de uma casa não muito longe de uma rodovia.

Isso foi perto de Bellegem (Kortrijk), aldeia de Kooih, perto da fronteira franco-belga.

Os pilotos de Eagle relataram à CRC a criação de um pequeno incêndio e explosões da
munição dos canhões do MIG.

Às 10:44 foi relatada a chegada do caminhão de bombeiros, e em poucos minutos o fogo estava sob controle.

Um pouco mais tarde chegou ao local da queda um helicóptero Search and Rescue (SAR), liberando assim os dois F-15 para um RTB (Return To Base) com combustível suficiente apenas para a volta até Soesterberg.

O incidente, como seria visto mais tarde, ainda levou à morte do jovem de 19 anos Wim de Lahr. Ele estava na casa quando o Flogger caiu.

Mais tarde foi relatado pela agência de notícias soviética TASS que o coronel soviético Nikolaj Skoerigin, da Polônia, havia deixado o avião depois de uma falha do motor “e que ele havia acionado seu assento de ejeção com sucesso.

Skoerigin teve no total 1.700 horas de experiência em jatos, dos quais mais da metade voando o Flogger.