Mangusta! VOANDO SOBRE O MONTE CASTELO!

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Kaiser David Konrad

Em frente aos hangares de Rimini-Miramare os dois A-129 Mangusta CBT do 48ª Esquadrão de Helicópteros de Combate estavam sendo abastecidos e armados pelos mecânicos e especialistas. Perto, um NH-90, do 3º Regimento de Helicópteros de Operações Especiais, e que recém havia chegado de Viterbo, preparava-se novamente para decolar.

O som dos rotores postos em marcha e a movimentação dos militares na linha de voo dava a ideia de que uma operação militar estava em vias de acontecer. Além do comandante da unidade, que pilotava a aeronave de transporte, estava o coronel Massimo Meola, piloto de Piaggio 180, e do subofi cial Gabriele Rigon, há 35 anos piloto de CH-47 Chinook, e que divide seu tempo entre os campos de batalha e as passarelas de Milão, já que é um dos mais famosos e requisitados fotógrafos de moda da Itália.

Voando sobre o Monte Castello Esta “operação militar” havia sido idealizada semanas antes por este jornalista. O que no primeiro momento pareceu impossível de realizar, afinal, seriam necessárias aeronaves de combate e de operações especiais, várias horas de voo, autorizações, uma missão de reconhecimento aéreo no local e uma profunda coordenação entre todos os envolvidos, junto a muitos recursos financeiros, é claro. Tudo para atender a um civil brasileiro.

Da mesma forma que Julio Cesar, a sorte foi lançada e ela veio apenas um dia antes, quando parecia que não daria certo. Mas deu, e foi depois de uma reunião de coordenação com o general comandante da Aviação do Exército Italiano e de todas as unidades envolvidas, e em meio à correria dos preparativos fi nais da Italian Blade, o grande exercício da aviação de asas-rotativas da OTAN na Europa.

Tal decisão aconteceu após o general dizer que os italianos são muito gratos pelos sacrifícios feitos pelos soldados brasileiros na “liberação da Itália”, como eles chamam aquele período da Segunda Guerra Mundial.

Logo após a decolagem seguimos nosso voo em direção ao objetivo, inicialmente a 1.500 pés, passando sobre importantes cidades italianas. Nos bordos da aeronave podíamos observar à distância os dois Mangusta que faziam nossa escolta e se comunicavam conosco o tempo todo.

Eles voam mais baixo e parecia que esquadrinhavam o solo em busca de hipotéticas ameaças, como se estivessem numa zona de guerra, pois aeronaves militares não decolam para voar rota mas para cumprir missões operacionais mesmo que elas sejam simuladas. O visual era magnífi co e podia-se ver a beleza do interior da Itália com seus mosteiros, igrejas, cidades muradas, fortalezas e dezenas de pequenas vilas medievais.

Passados cerca de 30 minutos o relevo começou a mudar e as montanhas tomaram o lugar dos morros. Estávamos atravessando a cordilheira dos Apeninos e alcançado aquela que no transcurso da Campanha da Itália era a Linha Gótica, uma das últimas grandes defesas alemãs. Estávamos próxi mos do nosso destino.

Reduzimos o nível de voo e também a velocidade, quando logo depois o piloto disse que estávamos chegando, autorizou a abertura da porta lateral e a aeronave começou a pairar. Estávamos voando sobre o Monte Castello, cenário da mais importante batalha travada pelos soldados brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial.

Abaixo, os dois Mangusta fi zeram evoluções coordenadas e realizaram manobras táticas conduzindo o apoio aéreo aproximado, simulando ataques de precisão com mísseis Tow contra casamatas no cume do Monte. Com seus sistemas eletro-ópticos e canhões giratórios identificavam e neutralizavam os ninhos de metralhadora, onde estavam as temíveis “lurdinhas” que tantas baixas ocasionaram nas fi leiras brasileiras.

Tal ação durou apenas alguns minutos e terminou com um lançamento simulado de foguetes, num desfecho que simbolizou a importância que teve o fogo de barragem da Artilharia Divisionária para sua tomada. Assim seria a tomada do Monte Castello 70 anos depois.

Quando pensei que a missão havia terminado, veio uma grande surpresa. Os dois A-129 Mangusta CBT ficaram um ao lado do outro e desceram ao pé do Monte Castello, onde fizeram voo pairado sobre o Monumento ai Caduti Brasiliani.

Como se estivessem em silêncio, os dois helicópteros guarne ceram por vários minutos o monumento que homenageia os integrantes da Força Expedicionária Brasileira que ali caíram em combate.

Do seu modo os helicópteros da Aviação do Exército Italiano prestavam sua continência àqueles bravos soldados desconhecidos, oriundos do longínquo Brasil e que deram suas vidas lutando pela liberdade do povo italiano. Foi simplesmente emocionante e de arrepiar….

A oportunidade de voar sobre o Monte Castello tal qual fizeram os corajosos pilotos da Esquadrilha de Ligação e Observação, a ELO, foi um momento muito especial, principalmente por se fazer isso quando se comemoram os 70 anos dessa gloriosa batalha.

Quando a porta do helicóptero foi fechada e seguimos em direção a Bolonha e fui para meu assento, onde permaneci por longos momentos em silêncio refl etindo o acontecido.

Meus olhos se encheram de lágrimas e o coronel Meola percebeu isso, e com um olhar emotivo de italiano saiu do seu assento para me abraçar, pois aqueles que passaram por guerras sabem reconhecer tais emoções e, principalmente, sabem honrar os sacrifícios que tantos outros guerreiros anônimos fizeram por eles.