M-1 Abrams 105 mm: tanques estocados nos EUA podem interessar ao Brasil?

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Vale a pena trocar de MBT mantendo a mesma arma/calibre/munições, oferecendo mais proteção blindada e performance, mas gastando mais com combustível e pagando o custo do alinhamento político com os EUA?

Quase uma milha acima do nível do mar em um canto isolado do norte da Califórnia, mais de 26 mil veículos blindados estão guardados/estocados.

Eles formam a parte mais visível do Sierra Army Depot, um depósito de 36.000 acres usado para estocar, guardar e recuperar tanques, caminhões e veículos blindados de transporte de tropas do Exército dos Estados Unidos da América (US Army).

O US Army estabeleceu-se no Sierra Army Depot durante a Segunda Guerra Mundial e usou a base para armazenar grandes quantidades de bombas e munições em centenas de “iglus” blindados.

O local fazia muito sentido para esse tipo de trabalho, pois estava “perto o suficiente dos portos do Pacífico, mas longe o suficiente da costa para se abrigar de um possível ataque”.

Também possuía seu próprio ramal ferroviário e um clima de pouca chuva que minimizava ameaça de ferrugem.

Ao longo das décadas, o estoque de armamentos no local cresceram exponencialmente quando o US Army começou a usar a base árida para armazenar uma frota crescente de veículos excedentes.

Hoje, isso inclui cerca de 2.000 tanques de batalha (MBT ou Main Batlle Tank) M1 Abrams que estão estacionados em fileiras bem organizadas, junto com vastos lotes de veículos blindados, obuseiros auto-propulsados, trailers, caminhões e outros veículos de empregos diversos, peças de artilharia, etc.

A necessidade de manter a linha de produção do M-1 Abrams aberta, segundo o fabricante do MBT, a General Dynamics, gerou mais de 10 mil desses carros produzidos desde  1979/1980.

Por parte do Congresso Norte-Americano, foram abertas investigações (em mais de uma ocasião) quanto aos gastos do programa e a resiliência do fabricante em conseguir manter seu MBT fora de cortes nos orçamentos de Defesa dos EUA ao longo das últimas décadas.

A produção ou reconstrução do M-1 Abrams não poderia ser interrompida, já alegava a General Dynamics nos anos 2000, sob pena de graves danos a empresas e fornecedores integrados a cadeia logística daquela blindado.

Além do US Army e USMC, são usuários do M-1 Abrams em suas diferentes versões países como Austrália, Arábia Saudita, Egito, Kwait e Iraque.

Em novembro de 2018 foi noticiado que Marrocos colocou uma encomenda para 162 desses MBT´s, modernizados, via FMS.

Excetuando a Austrália, que possui uma base industrial de defesa mais avançada, estabilidade territorial reconhecida e também emprega outros tipos de MBT, o fato é que os outros países usuários do Abrams, em diferentes versões, receberam lotes do carro como resultado de políticas do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa norte-americano para alterar o balance militar de regiões consideradas críticas ou conflituosas.

A soma e repetição destas práticas, o recente alinhamento estratégico entre os Estados Unidos e o novo governo brasileiro, e os acontecimentos do Grupo de Lima, a luz dos conflitos recentes na América do Sul, mais a expressiva quantidade de material EDA recentemente adquirida pelo Exército Brasileiro tendo como origem o Sierra Arma Depot, sugerem, senão indicam fortemente que o próximo passo nesse reequipamento poderá ser a aquisição, mais uma vez via FMS, de um lote de carros de combate M-1 Abrams de primeira geração, com canhão de 105 mm, que poderiam ser modernizados/e/ou revisados nas instalações do complexo industrial Anniston Army Depot (Anniston, Alabama).

Esses MBT´s seriam adquiridos para reequipar os Regimentos de Cavalaria Blindada (RCB), liberando a frota de caros de combate Leopard 1A 5 BR para serem concentrados nos Regimentos de Carros de Combate (RCC) até sua desativação prevista para acontecer em 2029.

A primeira geração do Abrams: M1

O tanque de batalha principal (MBT) M1 Abrams foi desenvolvido pela Chrysler Defense e a sua produção começou em 1980, cessando logo após a 1ª Guerra do Golfo, em 1992.

O M1 Abrams  substituiu o M60 Patton em serviço no Exército dos EUA (US Army) e Fuzileiros Navais (United States Marine Corps).

Atualmente, o M1 Abrams de primeira geração (arma de 105 mm) não está mais em serviço operacional militar com forças norte-americanas, sendo que alguns lotes foram atualizados para o padrão M1A2 com arma principal de 120 mm.

O Exército dos EUA tem aproximadamente 2.300 a 3.000 carros em armazenamento de reserva, boa parte no Sierra Army Depot, e outra parte no Anniston Army Depot (Anniston, Alabama). (ver os vídeos oficias das unidades, em inglês)

As instalações industriais do Alabama são responsáveis por reconstruir (refabricar) os atuais M-1A2/A3 Improved, devolvendo-os ao serviço totalmente refeitos e com as últimas upgrades e melhoramentos especificados.

O M1 original nunca havia sido exportado, mas a Arábia Saudita recebeu e emprega 373 exemplares de primeira geração, com arma de 105 mm, além de também ter encomendado o carro na versão mais moderna com arma de 120 mm.

Sua blindagem composta é semelhante à britânica Chobham, com múltiplas camadas de aço e cerâmica, e também pode ser equipado com blindagem reativa explosiva.

O interior do carro (torre e posição do motorista) é forrado com kevlar protegendo a tripulação contra lascas e fragmetos. A munição armazenada na torre está protegida com painéis especiais que desviam o sopro em caso de explosão.

Essa geração inicial do Abrams está equipado com o canhão M68A1 de 105 mm.

Essa arma consagrada é uma versão produzida por licença do canhão L7 britânico. O alcance prático é de 3.000 metros, similar a performance dos Leopard 1 A 5BR, que usam a mesma arma L7/M68.

Esta arma é carregada manualmente. Curiosamente, esse MBT foi projetado desde o início para acomodar uma arma maior de 120 mm que só foi integrada na versão M1A1 Abrams, que substituiu a M1 de primeira geração em 1985.

O M1 é compatível com todas as munições padrão OTAN em calibre 105 mm.

Um total de 55 tiros estão disponíveis para a arma principal, incluindo 44 cartuchos armazenados diretamente na torre e 11 rounds extras armazenados em contêineres protegidos dentro do casco.

O M1 Abrams possui um moderno sistema de controle de tiro (para a sua época de concepção, nos anos de 1990) com alta probabilidade de acerto no primeiro disparo. Pode destruir alvos do tamanho de carros de combate a uma distância de 2 km atirando em movimento.

O sistema consiste de um telêmetro laser/marcador de alvos para comandante e artilheiro, um sistema estabilizador de tiro em azimute e elevação, computadorizado, e um sistema de visão noturna para comandante e  atirador, mais um aparelho intensificador de imagem noturna para o motorista.

O armamento secundário consiste em uma metralhadora coaxial de 7,62 mm. Também há uma metralhadora de 12,7 mm e outra de 7,62 mm montadas na parte superior da torre.

O veículo tem uma tripulação de quatro militares, incluindo comandante, artilheiro, remuniciador e motorista.

O M1 Abrams é equipado com um motor de turbina a gás AGT1500 da Honeywell.

Trata-se, essencialmente, de um motor de helicópteros adaptado para impulsionar um carro de combate!

É um motor multi-combustível que aceita qualquer tipo de gasolina, óleo diesel, combustível de aviação (AVGAS) e querosene.

Este motor tem um desempenho impressionante e é compacto, se considerarmos a potência que entrega. O fato é que, apesar do Abrams ser bem pesado e volumoso, ele é também surpreendentemente ágil.

É mais rápido do que a maioria dos carros de combate mais recentes, tanto em situação off-road quanto em ambientes de combate urbano, quando velocidade e agilidade (incluindo com a ré engatada) fazem a diferença contra ATGM´s (além de um bom sistema reativo soft/hard kill).

Outra característica muito elogiada do carro, o motor é silencioso, o que fez o Abrams ser apelidado de Morte Sussurrante pela Guarda Republicana do Exército Iraquiano.

O motor de turbina a gás também tem intervalos de manutenção (TBO) significativamente maiores que os dos motores a diesel.

No entanto, o AGT1500 também tem alguns inconvenientes bem sérios que precisam ser levados em conta caso o Brasil decida adquirir lotes desses MBT´s.

Notavelmente, o AGT1500 é um motor problemático para manter e tem um consumo de combustível muito alto em comparação com motores diesel.

Ele pode ser substituído em condições de campo dentro de 30 minutos, mas usando uma equipe de manutenção experiente com todos os equipamentos e ferramental necessários a mão, o que não é pouca coisa.

O Exército Brasileiro teria de aprender os segredos desse propulsor praticamente do zero, e providenciar toda uma nova doutrina de manutenção, adequação de instalações e provisionamento de ítens e peças consumíveis para no mínimo os primeiros 10 anos de operação.

Em campo, esse motor tem sérios problemas com relação a sua assinatura térmica (infravermelho).

A tecnologia do conjunto de força baseado em uma turbina multi-combustível gera muito mais calor, tornando quase impossível a presença de fuzileiros ao redor do carro, o que afetaria drasticamente a atual doutrina brasileira de emprego de Forças-Tarefas blindadas, que precisaria sofrer ajustes ou ser revista.

Entre reproduzir no Brasil uma fração da infraestrutura existente no Alabama a um custo altíssimo, e que atenderia pouco mais de uma centena de carros (acredita-se que uma encomenda brasileira ficaria entre 110 a 130 veículos, contando aí alguns modelos específicos socorro/oficina/limpa-estradas, etc) ou tornar-se mais um “cliente” daquele gigantesco complexo industrial em plena atividade e eficiência, a 2ª opção é claramente a lógica, se for levado em conta somente aspectos operativos e de otimização dos recursos orçamentários.

Porém, essa opção significa atrelar parte do orçamento do Exército a um estabelecimento industrial militar de grande porte que vai manter empregos qualificados de norte-americanos, e não de brasileiros.

Outro óbice conhecido é o peso do MBT norte-americano, cerca de 54 toneladas em ordem de batalha, um problema que também aflige os defensores dos Leopard 2 alemão (que é inclusive um pouco mais pesado).

No entanto, é importante lembrar que a missão da engenharia de combate de um Exército realmente operativo é justamente reunir os meios e as capacidades necessárias para permitir a Força Blindada progredir e manobrar mantendo a velocidade e o poder de choque.

Se a opção norte-americana prevalecer, é assinar os contratos de financiamento FMS, começar a pagar e receber os veículos revisados, refeitos e modernizados, com um horizonte de pelo menos 15/20 anos de emprego garantidos e suporte pós entrega com grande flexibilidade logística, mesmo que isso envolva o reenvio dos veículos para os Estados Unidos ao longo da sua vida útil com o Exército Brasileiro.

Considerando a relação que a Força Terrestre desenvolveu com a KMW do Brasil, representante do fabricante dos Leopard 1 A 5BR e Gepard 1A2, que envolveu a construção de instalações da empresa em Santa Maria (RS), desenvolvimento de simuladores de treinamento em parceria com universidades e start-ups tecnológicas, e treinamento de pessoal militar nos parques e unidades operadoras, manter e manutenir com capacidade local seria mais importante, pois isso confirma a sua estratégia de mercado para o País.

As instalações industriais da KMW do Brasil em Santa Maria prestam o suporte logístico a frota de carros de combate Leopard/Gepard. (acima, abaixo e embaixo)

Por outro lado, se for levado em conta que a relação institucional KMW x Exército passou por momentos difíceis nos últimos anos, especialmente com relação a renovação dos contratos de manutenção dos Leopard 1A5 BR e Gepard 1A2, mais a discussão sobre o destino a ser dado as instalações de Santa Maria, que estariam subutilizadas, então a modalidade logística de “pagar e receber – pronto para uso” descortinada pela adoção dos M-1 Abrams tornaria essa opção bastante atraente não só por permitir ao Exército gerenciar seu poderio blindado contando com um fornecedor capaz de entregar capacidades muito superiores, como complementaria o carro alemão em serviço ou até o substituiria em definitivo no Exército Brasileiro, inclusive nos RCC.

Nota do Autor: Vale a pena trocar de MBT mantendo a mesma arma/calibre/munições, oferecendo mais proteção blindada e performance, mas gastando mais com combustível e pagando o custo do alinhamento político com os EUA?