KC-390: o sonho feito realidade

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Cerimônia de roll out do KC-390 na fábrica da Embraer Defesa & Segurança. (Imagem: Leonardo Ferro)
Cerimônia de roll out do KC-390 na fábrica da Embraer Defesa & Segurança. (Imagem: Leonardo Ferro)
Cerimônia de roll out do KC-390 na fábrica da Embraer Defesa & Segurança. (Imagem: Leonardo Ferro)

Após cinco anos de desenvolvimento, prospecção de fornecedores para componentes e sistemas, assinatura de acordos de parcerias industriais e cartas de intenções de compra, tomou forma na fábrica da Embraer Segurança e Defesa (EDS) situada no município paulista de Gavião Peixoto o primeiro protótipo do avião militar de transporte KC-390, cuja apresentação oficial aconteceu ontem (21) contando com a presença de inúmeras autoridades civis e militares brasileiras e estrangeiras, entre elas, embaixadores, ministros e comandantes de Forças Aéreas, bem como representantes de empresas colaboradoras no projeto, funcionários da Embraer, imprensa nacional e internacional. Esse eclético contingente veio de mais de 30 países, alguns deles potenciais clientes para a nova aeronave.

Entre as autoridades brasileiras presentes figuraram o ministro da Defesa, Celso Amorim, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA), general de exército José Carlos De Nardi, o comandante da Aeronáutica, tenente brigadeiro do ar Juniti Saito, comandante da Marinha do Brasil, almirante de esquadra Júlio Soares de Moura Neto e o comandante do Exército, general de exército Enzo Martins Peri, entre outras autoridades do alto comando das Forças Armadas do Brasil.

Compartilhando o palanque cerimonial com Celso Amorim, Juniti Saito, ministros da Defesa da Argentina e Portugal, com o Comandante da Força Aérea da República Tcheca, e representando todos os funcionários da empresa, Mauro Kern, vice-presidente executivo de engenharia e tecnologia, o presidente da Embraer Defesa e Segurança, Jackson Schneider, abriu a cerimonia dizendo que o rollout do KC-390 é um grande marco na história da empresa, principalmente por ser o maior avião por ela desenvolvido.

De acordo com Schneider, o avião  traz consigo novos padrões de engenharia e conceitos, grande valor tecnológico agregado para a indústria aeronáutica brasileira sem deixar de mencionar  que ele está trazendo também desenvolvimento para a região onde será produzido em série. O executivo confirmou o primeiro voo ainda para este ano, após o qual o protótipo passará por um programa de ensaios e certificação. O CEO da EDS lembrou que a empresa cumpriu prazos e compromissos assumidos no âmbito dos acordos assinados.

Para o presidente da Embraer, o KC-390, plataforma concebida para um variado leque de missões e para apresentar uma reduzida taxa custo/benefício, deverá conquistar o mesmo sucesso de aeronaves militares produzidas pela companhia, ou em produção como o A-29 Super Tucano, modelo exportado para vários países e agora sendo fabricado para a USAF em parceria com a estadunidense Sierra Nevada Corporation. Em seu balanço, o dirigente considerou a encomenda firme envolvendo 28 unidades assinada com a FAB como sendo a passagem do projeto para uma outra fase, cujo importante passo reafirma o compromisso das duas partes com o desenvolvimento da indústria aeroespacial e de defesa brasileira.

É válido recordar que as sementes da EDS foram plantadas em 1969 por iniciativa do então Ministério da Aeronáutica que planejava não só o reaparelhamento da FAB, mas também suprir o mercado interno civil brasileiro com aeronaves de fabricação nacional. O  atual perfil da empresa é multidisciplinar, ou seja, engloba um porfólio de produtos que inclui radares, redes C4I, participação em programas espaciais, entre outras atividades.

As previsões da EDS apontam que além dos 1.500 empregos diretos e 7.500 indiretos já gerados com o projeto, o avanço da produção do KC-390 até sua fase estável acrescentará mais 1.100 vagas diretas e outras 5.500 indiretas a essa estatística.

Convidados puderam conferir de perto as dimensões da aeronave. (Imagem: Leonardo Ferro)
Convidados puderam conferir de perto as dimensões da aeronave. (Imagem: Leonardo Ferro)

Conservando o status de proprietária intelectual do projeto, ao lado do governo federal como financiador do mesmo, é oportuno lembrar que a Força Aérea Brasileira formalizou no dia 20 de maio último encomenda de 28 unidades do KC-390, prevendo-se que a primeira unidade seja entregue no segundo semestre de 2016. Por outro lado, Argentina, Chile, Colômbia, Portugal e República Tcheca são signatárias de cartas de intenções de compra. Caso essas intenções se transformem em encomendas firmes, o total passaria a mais 32 exemplares novos distribuidos entre estas nações. Argentina, Portugal e República Tcheca são parceiros industriais e entregaram partes para compor o protótipo apresentado em Gavião Peixoto.

Celso Amorim, ao saudar autoridades e funcionários da Embraer, contou que como ministro das relações exteriores que foi, era muito gratificante encontrar aeronaves da Embraer operando nas várias localidades que visitou ao redor do mundo. Para ele, esse motivo de orgulho é agora renovado pelo que considerou “prodígio de avanço tecnológico”, o maior avião já produzido no Brasil, com capacidade multipropósito como transporte de tropas e de reabastecimento aéreo, missões humanitárias como evacuação aeromédica (MEDEVAC) e de busca e salvamento (SAR). Amorim citou também que o projeto é um exemplo de cooperação internacional no âmbito aeroespacial que envolve países de três continentes, algo sem antecedentes no caso do Brasil, citando Argentina, Portugal e a distante República Tcheca. Ao comentar o crescente interesse de países estrangeiros no KC-390, o ministro disse acreditar no êxito do novo avião comparando-o com outros produtos da EDS como o A-29.

De acordo com o brigadeiro do ar José Augusto Crepaldi Affonso, presidente da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), organização do Comando da Aeronáutica responsável pelo projeto, o KC-390 representa para a FAB, e para a indústria brasileira, um salto para um patamar mais elevado e a conquista da capacidade de emitir requisitos e capacitação da indústria nacional para desenvolver um produto aeroespacial de última geração.

Comentando os requisitos, Crepaldi aponta que o fato de ser uma aeronave impulsionada com motores a reação denota mais rapidez nas missões. Avaliou que a capacidade de reabastecer outras aeronaves e ser reabastecido resulta em uma vantagem estratégica em relação a outros modelos da mesma classe, abrindo possibilidades para um leque maior de missões. São poucos os modelos de aeronave no mundo que possuem suíte de autodefesa similar à do KC-390 e a blindagem nele integrada contribui com uma elevada capacidade de sobrevivência, pondera o militar. Por último, Crepaldi enumera outras características que fazem do KC-390 uma aeronave tecnologicamente avançada como o sistema de controle de voo fly-by-wire, o longo ciclo de vida e o relativamente baixo custo operacional.

O KC-390 foi dimensionado para transportar até 26 toneladas de carga a uma velocidade de 470 nós (870 km/h). É capaz de operar em pistas precárias, inclusive não pavimentadas ou danificadas. Sua fuselagem foi desenhada para acomodar cargas de grande volume, acessível por meio de uma rampa de carregamento. O avançado sistema de manejo de carga (Cargo Handling System) do KC-390 permite reconfigura-lo rapidamente com o emprego de roletes escamoteáveis para a movimentação de cargas acomodadas em pallets ou em piso plano para transporte de tropas e veículos.

Diferentes tipos de cargas podem ser transportados, entre elas, pallets, veículos, helicópteros, tropas ( até 80 soldados equipados), paraquedistas (até 66 paraquedistas ques podem saltar tanto das portas laterais como da rampa de carregamento), macas para evacuação aeromédica (até 74 macas padrão OTAN) ou configurações mistas. Uma característica notável do KC-390 fica por conta de que ele virá com provisões para transforma-lo em reabastecedor, sendo rapidamente convertido com a instalação de dois tanques de combustível internos. A flexibilidade desse avião correspondente à missões REVO, permite que ele transfira combustível para helicópteros a baixa altitude e velocidade ou para aviões de combate voando a altitudes e velocidades elevadas. Sendo seus controles de voo gerenciados por fly-by-wire, a carga de trabalho dos  pilotos fica reduzida e as missões se tornam mais eficazes.

Durante entrevista coletiva concedida na ocasião pelo CEO da EDS, Jackson Schneider, e pelo diretor geral do Projeto KC-390, engenheiro Paulo Gastão, foram fornecidas as últimas informações sobre o status do projeto.

Paulo Gastão fez um apanhado geral sobre o KC-390 destacando sua mobilidade, superior capacidade de carga, disponibilidade, versatilidade, robustez e tecnologia no estado-da-arte agregada ao projeto e disponibilizada para seus usuários como os principais pilares da sua concepção. O executivo comentou também a baixa carga de trabalho que a tripulação terá durante as operações graças aos sistemas embarcados de última geração e os baixos custos do ciclo de vida da aeronave. Por ser capaz de voar a velocidades de 870 km/h a 36 mil pés, o novo avião poderá desempenhar mais missões ao longo de um determinado número de horas de voo com relação aos concorrentes carregando até 26 toneladas de carga ou sete pallets militares.

Gastão  citou também como características relevantes, o alcance do KC-390 transportando alguns valores de carga útil e a habilidade de operar em ambientes sujeitos a condições climáticas extremas, bem como em terrenos austeros como pistas de terra ou danificadas. Dedicou especial atenção à versatilidade do KC-390. A característica modular do projeto permite reconfigurações internas para um variado leque de missões.

Outro aspecto notável do KC-390 fica por conta da compatibilidade dos seus sistemas de navegação e comunicações com os últimos conceitos empregados no mundo nessa área, podendo operar nos mesmo ambiente compartilhado com a aviação civil.

De acordo com o CEO da EDS, o protótipo encontra-se pronto e com instrumentação interna especifica para os testes pré-voo inaugural, que conforme mencionado anteriormente, deverá acontecer ainda em 2014.

Ivan Plavetz