EUA x Alemanha, ou M1 Abrams x Leopard 2: Brasil busca novo carro de combate!

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Uma consistente movimentação nos bastidores do Exército Brasileiro e na Base Industrial de Defesa brasileira revelou uma competição em curso para viabilizar a futura substituição da frota de carros de combate KMW Leopard 1A 5 BR, composta por 260 exemplares.

Uma consistente movimentação nos bastidores do Exército Brasileiro e na Base Industrial de Defesa brasileira revelou uma competição em curso para viabilizar a futura substituição da frota de carros de combate KMW Leopard 1A 5 BR, composta por 260 exemplares, se incluídos nessa conta também os tipos especializados oficina/engenharia/lança-pontes.

O Governo norte-americano estaria tentando negociar via FMS um lote de até 130 MBT´s M1 Abrams de primeira geração (arma de 105 mm) em condições extremamente “vantajosas”, documentação, ferramental, material de apoio, peças e demais insumos associados, mais o acesso a uma estrutura de manutenção do US Army voltada para o M1 Abrams.

Essa oferta faria parte de um “pacote” maior que incluiria também helicópteros de ataque AH-1W Super Cobra para a Aviação do Exército (oferecidos pela primeira vez em 2018), blindados leves 4×4 Hummer, obuseiros de campanha auto-rebocados M-198 e outros itens ainda não divulgados.

Vale a pena trocar de MBT mantendo a mesma arma/calibre/munições, oferecendo mais proteção blindada e performance, mas gastando mais com combustível e pagando o custo do alinhamento político com os EUA?

Enquanto isso, os executivos da KMW do Brasil não ficaram parados.

Mesmo com as recentes declarações negativas da Premiê Ângela Merkel com relação ao novo Governo brasileiro, uma “força-tarefa” nucleada na cidade de Santa Maria, sede da empresa no Brasil, deslocou-se até Brasília no início de janeiro para defender os investimentos alemães na cidade, reunindo-se com autoridades e diplomatas.

A matriz da empresa está analisando um futuro local de fabricação de um novo blindado anfíbio em desenvolvimento, e o Brasil está muito bem cotado para receber essa produção.

A KMW joga com esse trunfo a seu favor para alavancar o negócio dos Leopard.

A comitiva que visitou o Ministério das Relações Exteriores foi integrada pelo prefeito da cidade, Jorge Pozzobom; o diretor da KMW no Brasil, Christian Boge; o empresário Carlos Costabeber; o reitor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Paulo Burmann; o presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Santa Maria (Cacism), Rodrigo Decimo; o vice-presidente da Farsul, Tarso Teixeira; e o senador eleito Luis Carlos Heinze.

A moderna planta industrial instalada em Santa Maria tem a missão de dar apoio logístico à frota de Leopard 1 A5 BR, incluindo as versões especializadas, em operação no Exército Brasileiro.

A produção de um veículo blindado anfíbio no município ajudaria a viabilizar, de forma decisiva, a futura troca dos Leopard existentes pelos mais modernos (e complexos) Leopard 2 A4, A5 ou A6, armados com canhão de 120 mm L55 de alma lisa.

Considerando que a doutrina de emprego, metodologia de manutenção e capacitação de material humano do Exército Brasileiro, com relação a carros de combate, segue o padrão alemão “operador Leopard”, com instalações da indústria e das unidades militares existentes vocacionadas para essa família, seria menos impactante do ponto de vista logístico e doutrinário a adoção dos Leopard 2 L55 120 mm, apesar dos óbices de maior peso e maior custo de aquisição, se considerado o descarte de toda a munição em arsenal do calibre 105 mm e sua troca para o calibre 120 mm L55, o que também obrigaria um remanejamento de estandes de tiro, áreas de manutenção e simuladores de treinamento virtual, vivo e construtivo.

O bônus mais evidente seria a capacidade de engajar carros de combate modernos a distâncias muito maiores e com emprego de munição mais letal e precisa.

O Centro de Instrução de Blindados, também baseado em Santa Maria, teria a missão de absorver e difundir as mudanças necessárias para a adoção dos Leopard 2 pelo Exército Brasileiro.

Uma Disputa Acirrada

Militar brasileiro inspeciona veículos blindados de socorro/resgate no Sierra Army Depot.

As Forças Armadas dos Estados Unidos, ao receberem novos meios de emprego, estocam uma grande quantidade de material militar desmobilizado, o que se convencionou chamar de Excess Defence Articles ou EDA.

O mesmo se dá na Alemanha com o Bundeswehr, porém em uma escala muito menor e com condições de negociação para venda diferentes daquelas oferecidas pelo Foreign Military Sales (FMS).

Esse material, de acordo com interesses políticos e comerciais, pode ser oferecido em condições vantajosas a países aliados, alterando o balanço de forças de uma região, por exemplo, e ainda permite a empresas norte-americanas ou alemãs oferecerem serviços como atualizações, grandes revisões ou mesmo programas de reconstrução e modernização de meios, mantendo empregos na Indústria de Defesa norte-americana e germânica.

Essa estratégia tem a vantagem adicional de permitir aos estrategistas do Pentágono e ao Governo em Washington (para citar o poderio industrial ianque) determinarem qual o grau de capacidade militar este ou aquele “aliado” terá acesso, simplesmente incentivando a aquisição sistemas defasados e vedando o acesso a outros mais capazes.

Carros de Combate para o Brasil

A Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro trabalha contra o relógio, pois em 2027 será retirado o suporte de fabricante para os carros Leopard 1A5 BR recebidos a partir de 2006.

A munição de 105 mm existente em arsenal, compatível com o veterano canhão L7 A3, é o estoque sobrevivente comprado na Alemanha.

Na atualidade, e a um alto custo, é possível adquirir com grande dificuldade alguns tipos de munição nesse calibre de duas fontes, Israel ou China.

A produção de munição 105 mm no Brasil é tecnicamente possível, inclusive com relação à fabricação local de penetradores de carbeto de urânio Armour-piercing fin-stabilized discarding sabot (APFSDS), o que aumentaria a letalidade dos Leopard 1A 5 BR quando enfrentando carros com blindagem mais espessa.

Porém, permaneceria a maior fraqueza conhecida dos Leopard 1, o alcance efetivo de apenas três quilômetros para o canhão L7 A3 de 105 mm, o que torna o veículo brasileiro inferior aos carros de combate do Chile (Leopard 2A4 com canhão L55 de 120 mm) e Venezuela (T-72B com canhão de 125 mm), capazes de anularem seus adversários a distâncias entre 4,5 km a 5,5 km, dependendo das condições climáticas e tipo de munição.

Essa mesma equação, se escolhidos os M1 Abrams, apresenta uma vantagem para o carro norte-americano devido a sua melhor blindagem frontal do tipo chobham, o que permitiria teoricamente engajar carros adversários superiores oferecendo maior proteção aos tripulantes em caso de serem atingidos, e mantendo os estoques de munição de 105 mm existentes.

Caso a fabricação nacional da munição APFSDS de urânio empobrecido (U238) pela IMBEL se concretize em curto espaço de tempo, isso também reforçaria a posição do MBT norte-americano.

Os óbices do Abrams são largamente conhecidos.

Além do peso, sua logística envolve uma turbina a gás como propulsor, um motor reputadamente beberrão e de manutenção complexa.

No entanto, e apesar disso, o carro seria um salto quântico em relação aos vetustos Leopard 1 A5 BR, mas continuaria inferior aos Leopard 2 e T-72B.

Com a possibilidade de o Peru receber em breve MBTs russos T-90, mais um adversário capaz de derrotar o Abrams, a situação se agravaria em desfavor das forças blindadas brasileiras.