Convênio Geofísica Brasil-Alemanha: A origem de Grandes Projetos no Brasil.

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Para o cumprimento do convênio, o Serviço Geológico da Alemanha designou entre os membros de seu corpo técnico um administrador e vinte e oito funcionários dos setores de geofísica e geologia; cedeu ao governo brasileiro um avião Aero Commander 680F, um helicóptero S-58T equipado com sensores (magnetômetro, gamaespectômetro e HEM).

Celebrado em 1963 e em vigor a partir de 1964, durante o mandato do presidente Castello Branco, o Acordo Básico de Cooperação Técnica Brasil-Alemanha, que previa o estabelecimento de convênios complementares para realização de projetos específicos de interesse para o desenvolvimento econômico e social do Brasil, fundamentou o Convênio Geofísica Brasil-Alemanha (CGBA), que pode ser considerado o estopim para o planejamento de grandes projetos geofísicos em território brasileiro.

Firmado em 1970 e iniciado em 1971, o convênio contemplava, além da pesquisa geofísica, a realização de investigações geológicas e geoquímicas para prospecção de recursos minerais.

O acordo previa a compra de um helicóptero Sikorsky modelo S-58 que foi equipado em 1972 pela Barringer Research Limited, Toronto (Canadá) com um complexo sistema de análise aerogeofísica. A aeronave foi modificada pela United Aircraft em Montreal para a versão S-58T onde o motor a combustão de 12 cilindros foi substituído por uma turbina dupla geminada que conferiu ao helicóptero mais potência e segurança.
A aeronave era equipada com um sistema geofísico múltiplo que consistia de dois sistemas eletromagnéticos, um gama espectômetro e um magnetômetro de prótons. E contava ainda com mais três instrumentos complementares: uma câmera de vôo, um radar-altímetro e um intervalômetro. Estes instrumentos trabalhavam de forma simultânea e ininterrupta durante o voo.

Cerca de quinze levantamentos aeromagnetométricos e aerogamaespectrométricos foram realizados na área estabelecida para estudos pelo convênio, cobrindo no total cerca de 570 mil km2 dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Este cuidadoso trabalho efetuado por profissionais brasileiros e alemães rendeu descobertas que até hoje são exploradas.

No início da década de 70 do século passado o Brasil havia assinado com a Alemanha um tratado de cooperação tecnológica na área de geofísica o que resultou no Convênio de Geofísica Brasil-Alemanha. Para o Brasil vieram 50 técnicos alemães, sendo que 10 deles trabalharam em Pitangui. O município já havia sofrido prospecções mecânicas por parte de técnicos da Companhia de Pesquisas e Recursos Minerais – CPRM, o resultado destas pesquisas fizeram com que a região fosse escolhida para ser a primeira no Brasil a sofrer uma varredura pelo que existia de mais moderno no mundo em matéria de prospecção aerogeofísica. As pesquisas em Pitangui duraram de agosto a novembro de 1973, sendo que nos meses de setembro/outubro não houve trabalho devido a problemas mecânicos no helicóptero. De maio a agosto o equipamento passou por adaptações e aferições, sendo que neste período algumas áreas próximas a Pará de Minas sofreram análises radiométricas.

Com o início de suas atividades no período do governo do presidente Ernesto Geisel, o CGBA envolveu o Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) na coordenação, a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) na execução dos levantamentos e o Serviço Geológico Federal da Alemanha (Bundesanstalt für Bodenforshung – BfB) como órgão executor alemão, que forneceu equipamentos e treinamento para uma equipe brasileira de nível médio e superior, constituída por aproximadamente 50 profissionais de diferentes formações, como técnicos em eletrônica, geofísicos, geólogos e engenheiros.

Entre os nove geofísicos brasileiros que participaram do treinamento em processamento de dados na cidade de Hannover (Alemanha), estava Roberto Breves Vianna que foi o coordenador do projeto que descobriu a maior província uranífera do país e que atualmente é a única mina em operação na América Latina, a jazida de Lagoa Real, no município de Caetité (BA).

Para o cumprimento do convênio, o Serviço Geológico da Alemanha designou entre os membros de seu corpo técnico um administrador e vinte e oito funcionários dos setores de geofísica e geologia; cedeu ao governo brasileiro um avião Aero Commander 680F, um helicóptero S-58T (D-HAGB) equipado com sensores (magnetômetro, gamaespectômetro e HEM), instrumentos de geofísica terrestre, laboratórios de fotografia e um minicomputador; além de contratar a empresa germânica Prakla-Seismos para a realização do levantamento aerogeofísico de reconhecimento, como previsto no texto que firmou o convênio, no caso de não existir instituto brasileiro com capacidade técnica para tal.

A altitude vôo variava de acordo com a região, mas sempre dentro da faixa que ia de 90 a 105 metros sobre o solo, o que deixava a sonda a uma altura de 30 a 45 metros em relação ao terreno pesquisado. A velocidade de vôo se limitava ao máximo de 150km/h devido a interferências mecânicas que velocidades maiores poderiam causar na sonda.

O Centro de Computação da Prakla-Seismos além de realizar, com o acompanhamento dos especialistas brasileiros, o processamento dos dados obtidos, ainda preparava os respectivos mapas que, depois de interpretados preliminarmente pelo Serviço Geológico da Alemanha, eram enviados à sede do convênio, em Belo Horizonte (MG), para seleção e controle das regiões promissoras.

O CGBA gerou dezenas de relatórios técnicos de aerolevantamentos, prospecções, reconhecimentos geológico-geofísicos, detalhamentos de anomalias, entre outros, fruto do investimento de cerca de US$ 350 milhões.

A instalação do sensor VLF na lateral direita do S-58T.

Após a conclusão dos trabalhos do CGBA, a aeronave doada pelo governo alemão iniciou o levantamento do Projeto Aerogeofísico Alto Parnaíba, do DNPM.

Depois de terem sido voados cerca de oito mil km lineares, em novembro de 1974, houve um acidente aéreo que causou a morte de um piloto e a perda total do equipamento e do avião.

O principal instrumento do helicóptero era o Sistema Eletromagnético HEM Harringer 003 e era constituído por uma sonda de aproximadamente 9 metros que ficava suspensa por um cabo de 30 a 60 metros. Na ponta da sonda ficava instalada o emissor com a bobina transmissora que gerava um campo eletromagnético que penetrava no solo induzindo uma corrente elétrica que era captada pela bobina receptora na outra extremidade da sonda. Se o helicóptero sobrevoasse uma região rica em depósitos minerais, que são bons condutores, a bobina receptora recebia um sinal mais forte que era interpretado pelos equipamentos dentro do helicóptero.

Centro de Geofísica Aplicada – Segundo o texto que firmou o CGBA, ao término das atividades dos especialistas alemães no convênio, o que ocorreu em 1975, todo equipamento utilizado seria transferido para o Ministério das Minas e Energia, sem custos para o governo brasileiro, com o intuito de estabelecer um centro geofísico para investigações terrestres, valendo-se assim da experiência adquirida nas atividades de processamento e interpretação, que passaram a ser desenvolvidas consecutivamente no Brasil na segunda etapa do convênio.

Em portaria assinada em novembro de 1975 foi criado o Centro de Geofísica Aplicada (CGA), instalado em Belo Horizonte e vinculado ao DNPM.

O “varal de toalhas” espetado no cone de cauda do S-58T era na verdade um sensor do tipo magnométrico, com princípio de funcionamento semelhante ao MAD (detector de anomalias magnéticas) usado em aeronaves de patrulha e guerra antisubmarino.

O CGA tinha como principal objetivo o fornecimento de assessoria técnica aos empresários e mineradores brasileiros, já que além de possuir os equipamentos necessários para a realização de levantamentos aéreos e terrestres em outras regiões do país, detinha o conhecimento técnico (os profissionais que trabalharam no CGBA foram integrados a este centro de geofísica) e o auxílio dos peritos alemães, que paulatinamente estavam sendo substituídos pelo pessoal brasileiro já treinado.

Após transferências e demissões, o quadro técnico do CGA em 1977 era composto por 40 funcionários. O centro encerrou suas atividades em 1983 e seus técnicos foram transferidos para a CPRM.

Entre os projetos realizados pelo CGA que foram desdobramentos do convênio, além de Lagoa Real, destacam-se os aerolevantamentos executados para pesquisa de fluorita em Santa Catarina, de cromita e carvão no Rio Grande do Sul e cobre, no Vale do Curaçá, na Bahia e em Pernambuco.

As fotos coloridas são de autoria de Mano Caldas

e as preto e branco são de autoria de Pedro Xavier Filho (Todas via Vandeir Santos)