Bahad 1: A Escola de Oficiais do Exército de Israel

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Kaiser David Konrad

Reportagem originalmente publicada em 2013 na edição impressa de Tecnologia & Defesa

É madrugada e o sol ainda não nasceu. Nessa hora faz frio no deserto e dezenas de soldados dormem em sacos. Seus fuzis servem de travesseiros. São jovens comuns que, fora dali, têm suas namoradas, estudos e trabalho. Mas estão cumprindo uma obrigação que se resume num dever com sua nação, única no mundo que vai à guerra não para defender seus interesses, mas para garantir a sobrevivência do seu povo e a sua própria existência como Estado.

O terreno rochoso rodeado por colinas é uma grande área de treinamento militar, nunca anteriormente visitada pela imprensa brasileira. Seu nome é Base de Treinamento de Oficiais Haim Laskov, ou Base de Treinamento 1 (Bahad 1), a escola onde são formados os líderes das Forças de Defesa de Israel. Situada perto de Mitzpe Ramom, na região do Negev, ela foi a primeira base militar construída pelo Exército, que até então utilizava instalações deixadas pelos ingleses durante o mandato britânico.

Em Bahad 1 os futuros oficiais são ensinados sobre como agir com responsabilidade, o sentido de trabalhar com obrigação, de ter foco na missão e, acima de tudo, ter orgulho de ser um soldado. Eles aprendem não só como liderar uma tropa frente ao inimigo, mas a ser uma espécie de modelo para a sociedade israelense.

Devem, naturalmente, serem hábeis na guerra e terem profundo conhecimento de estratégia militar, dominarem suas funções e terem capacidade de raciocínio e de comando para que possam conquistar, daqueles que servem sob suas ordens, o respeito e a lealdade.

Nas primeiras três semanas os cadetes – todos com experiência operacional e oriundos das mais diversas divisões do Tzahal (Exército) – recebem lições de como conduzir operações de combate urbano, que acontecem constantemente no enfrentamento com os grupos terroristas do Hezbollah, no Líbano, ou do Hamas, em Gaza. Não pense, haja! – é o que dizem os instrutores.

Um dos pontos marcantes dessas operações e que requer muita atenção é quando um soldado é capturado por um terrorista. Como resgatar, que decisões devem ser tomadas? Israel já teve casos assim, e eles sempre mexem com a sensibilidade de todo o país, e este é um dos piores cenários que um comandante pode ter que enfrentar.

Ao finalizar o curso de formação de oficiais, que dura cerca de sete meses, é organizado um grande exercício de “coroação”, onde os cadetes vão mostrar que estão prontos a liderar a tropa no terreno, numa situação a mais próxima possível da realidade.

Tecnologia & Defesa estava lá, embedded para acompanhar a tropa.

O dia nasce e os cadetes se preparam para a última tarefa no processo de seu preparo para se tornarem oficiais do Tzahal. Os instrutores dão o objetivo e cabe a eles planejarem toda a ação para conquistá-lo no menor tempo e com o uso da tática mais adequada para a situação. Eles se equipam e organizam-se de acordo com suas funções. Estão divididos em dois pelotões, carregam armamento pesado e toda a munição utilizada é real. A missão é tomar uma grande colina que representa uma posição estratégica no terreno e que está fortemente guarnecida pelo inimigo.

Um grupo de apoio se deslocou para outra elevação nas proximidades de onde era possível ter contato visual com o objetivo, que estava a cerca de 700metros. Todos os militares estavam com o tradicional “chapéu” israelense que é colocado sobre o capacete.

 

Ele nada mais é do que uma forma de camuflagem, pois à distância, faz o soldado ser  confundido com as rochas do terreno. Ninhos de metralhadoras .50 e Mag 7.62mm são colocados e a tropa ocupa posições chave. Devem dar cobertura às forças de assalto que vão tomar a colina. Gritos de atacar dão o início à manobra e projéteis de diver sos calibres e lançadores de granadas são disparados a fim de neutralizar a resistência. Para os israelenses, a cada dez tiros, pelo menos sete têm que acertar o alvo.

O barulho das metralhadoras, fuzis e granadas é ensurdecedor e enquanto o fogo de cobertura é feito a tropa começa a subir a colina rapidamente, conquistando terreno que, em menos de trinta minutos, é todo ocupado. A missão foi cumprida e o exercício de combate convencional realizado pela infantaria estava finalizado.

Então, o som das armas leves foi substituído pelo estrondo provocado pelos tiros de canhão dos Merkava, que iniciavam o seu exercício final, mostrando a força dos carros de combate avançando pelo deserto.

Ao terminar o curso de formação de oficiais, cada graduado recebe um alfinete que consiste de uma espada, que significa a defesa da pátria, e um ramo de oliveira, que simboliza a esperança de paz, almejada por todos. Entretanto, caso ela não venha, todos aqueles jovens precisam ter uma certeza: “devemos vencer a próxima guerra”.